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COLABORAÇÃO
Pregadores de Santo Antão
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
E
mbora conhecido mun-dialmente pelo nomede Santo António doEgipto, onde nasceuem 251 e faleceu em 356 com a provecta idade de 105 anos, noentanto, p’ra nós portugueses ele conti-nua a ser carinhosamente maisconhecido com o nome de SantoAntão.Linda festa vai na rua,Com linda iluminação,P’ra festejar o bom santo,Meu querido Santo Antão.Ó meu senhor Santo Antão,Deparai-me o que eu perdi:O meu saquinho de pão,Que há três dias não comi. Na sumptuosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela, na“minha” Ribeira Grande, em S.Miguel dos Açores, existe umaltar lateral com a imagem doanacoreta Santo Antão. Essaimagem é deveras preciosíssi-ma, pois advém do século 16 ou17. Na Vila do Porto, em SantaMaria, encontramos a igreja deSanto Antão, cuja primitiva er-mida foi erecta no século 16. Asua antiguidade está compro-vada através das referências deGaspar Frutuoso no Livro IIIdas “Saudades da Terra”, capítu-los 6, 18 e 19. Na ilha Terceira, no tempo deFrutuoso, a Praia da Vitóriadispunha duma ermida de San-to Antão “pegada na rocha”, eduma fortaleza “pegada como mar” de nome Santo Antão.Essa ermida desapareceu por completo nos anos 1800, devidoa terramotos então ocorridos,enquanto a fortaleza, ou antigoforte, é presentemente um acer-vo de ruínas.Cruzando até à ilha de S. Jorge,deparamos com a freguesia deSanto Antão, com a respectivaigreja dedicada precisamente aomesmo Santo Antão.Curiosamente, durante o domí-nio espanhol, as ilhas das Florese do Corvo foram abrangidascom o nome de Ilhas de SantoAntão. (Manuel Luís Maldona-do, Fénix Angrense, pgs. 690-691, ed. 1990).O dia da festa litúrgica em honrade Santo Antão ocorre, anual-mente, aos 17 de Janeiro. O seu patrocínio é invocado contra oscontágios e doenças de pele; aele recorrem os salsicheiros, por-queiros e cesteiros, bem como éconsiderado o protector dos por-cos e dos animais em geral.
Na iconograa é costume repre
-sentar Santo Antão segurando,numa das mãos, um livro sim- bolizando o Livro da Natureza eempunhando (na outra mão) umcajado encimado com uma si-neta. Junto aos pés encostam-sealguns animais, entre os quais o porquinho.Aparentemente, o diabo com- prazia-se em atormentar o ce-nobita Santo Antão com as maissedutoras e obscenas tentações,
quer na voluptuosa conguração
duma mulher, quer na asquerosaforma duma porca, o que certa-mente motivou um afamado pre-gador a proclamar que a imagemda porca, aos pés da estátua deSanto Antão, representava a mu-lher de maus poderes, “daquelasque dão calda aos homens trans-tornados com os touros na Ter-ceira depois de toureados”.Concordo que, originalmente, o porco denotava o diabo, mas nodecurso do século 12 esta repre-sentação artística adquiriu novo
signicado, devido à populari
-dade dos Irmãos Hospitalaresde Santo Antão, ordem religiosafundada em 1906 em Clemont(França), cujas obras de carida-de granjearam a admiração do povo, acumulando-lhes o prvi-légio de poderem apascentar,livremente, os suínos com osfrutos das matas. P’ra maior ên-fase, atavam uma campainha no pescoço de uma ou mais porcasem cada vara de porcos. Esta arazão da sineta ou campainha nocajado ou bordão de Santo An-tão.O saudoso sacerdote, professor e historiador, dr. Jacinto ManuelMonteiro da Câmara Pereira, nomensário mariense “O Baluar-te”, em Fevereirode 2000 relembrou
a gura empolgan
-te do padre VicenteAfonso (que aindaconheci em vida),cuja voz altisso-nante adaptava-seexcepcionalmenteà pregação elo-quente e músicaclássica. Um au-têntico crisóstomo,mas com o “se-não” de possuir,simultaneamente,um temperamentoirascível, que lhecausou, frequen-temente, situaçõesdesagradáveis. Num sermão, en-comendado p’ràFesta de Santo An-tão, o padre Vicen-te Afonso serviu-se do púlpito p’rarebater a superstição popular,dispensando culto a um animalnojento e imundo, e símbolo datentação, equiparando o porcocom o diabo. Gesticulando e batendo no púlpito, num paro-xismo de indignação, o pregador atacou a sensualidade contra aqual Santo Antão se fartara delutar e rematou à mulher todasas culpas do pecado da carne.Em contraste com este estilo deoratória destacou-se o padre Se-
ram de Chaves, distinto poeta
e pregador, natural da Vila doPorto. Com graça e ironia, noseu sermão, lamentou que SantoAntão, no dia da sua festa, “secondoía por ouvir passar as la- bregas da Serra, levando à cabe-ça púcaros, caçarolas e até potescom massame de banha, e eu p’ràqui a tenir, a tenir, a tenir”.O tenir, neste caso, coincidiacom a sineta dependurada no ca- jado de Santo Antão.
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