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Ideologia [Sociologia]

Ideologia [Sociologia]

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Ideologia, Cultura e Controle Social – reflexões e problemascomplemento aos textos “Os conceitos de cultura e ideologia”,de Regina Aída Crespo, e “Cultura”, de Joel M. Charon.
1)Uma primeira e necessária observação é que a ideologia não é, de modo algum, apenas um conjunto deidéias sobre o mundo e que apenas pretende explicá-lo. Ela é mais que isto, é um conjunto de idéias evalores que impulsionam as pessoas para a ão. A ideologia tem força propulsora sobre ocomportamento das pessoas. Ela orienta o comportamento, as decisões e encaminha à ação. Mesmo senos omitimos estamos, de algum modo, tomando uma posição perante a situação. Ou seja, a ideologiaé sempre e necessariamente uma tomada de posição. Simplesmente não podemos não tomar partidosobre as coisas que acontecem a nossa volta. Mesmo a omissão é uma forma de tomarmos partidosobre algo.
2)
A ideologia tem tudo a ver com algo que a filósofa Marilena Chauí chama de “discurso competente”. O
discurso competente
é o
discurso pronto e acabado
, o
discurso do especialista
, o discurso instituído.Isto significa o seguinte: o conhecimento é um trabalho que visa produzir o esclarecimento sobre algonão conhecido, produzir o saber. Entretanto, cada sociedade (e em cada momento histórico específico) produz determinados saberes que são cristalizados em um tipo de conhecimento sobre as coisas e quenão podem mais serem questionados, tornaram-se um discurso que nos fala da “verdade” das coisas.Ora, hoje em dia, por exemplo, o homem passou a relacionar-se com a natureza mediado pelo discursodas ciências biológicas, com a criança pelo discurso pediátrico e pedagógico, com os problemaseconômicos por meio do discurso da economia, com a sexualidade e o próprio corpo através dodiscurso da psicologia, da medicina e da biologia, com a sociedade por meio do discurso da sociologia.A lista é interminável.
 A lógica perversa deste tipo de situação é que nem todos podem dizer qualquer coisa a qualquer outro, em qualquer lugar e em qualquer momento
. Ou seja, esta ideologia produzem nós um sentimento de impotência e ignorância porque passamos a crer que
 somente os especialistatêm razão e autoridade para dizer as coisas
.
3)
A ideologia para Karl Marx, filósofo do século XIX, foi reinterpretada pelo filósofo italiano, AntônioGramsci no século XX, que procurou relativizar um pouco a concepção marxista, compreendendo-anão como uma falsa consciência (concepção de Marx), mas como uma
visão de mundo
. Desse modo,existiriam diversas ideologias que concorreriam entre si na sociedade. Existiriam a ideologia da classedominante, que seria a ideologia dominante, mas também a ideologia das classes populares esubalternas (como Gramsci as denomina). Isto porque Gramsci preocupava-se com a idéia de pensarmos, erroneamente, que apenas as classes dominantes teriam cultura e conhecimento, que osmarxistas viam como sua ideologia. Uma outra crítica fundamental ao pensamento marxista, que produziu frutos importantes para compreendermos a questão da ideologia, foi feita por Max Weber,
 
sociólogo alemão do início do século XX. Segundo ele, não podemos afirmar que exista umadeterminação da economia sobre as idéias presentes numa sociedade. E por quê? Porque, em primeirolugar, Marx não definiu com clareza o que ele chamou de econômico; em segundo lugar, porque nãomeios de prova sobre esta influência, a da infraestrutura. Afirmar que a superestrutura édeterminada pela infra-estrutura e tomar esta afirmação como explicação de outros fenômenos é ser muito pouco científico na medida em que não temos como provar isto de modo definitivo. Weber fezdistinção entre três categorias:
econômico
,
economicamente relevante
e
economicamentecondicionado
. E definiu “econômico como as ações conscientes que visem adquirir uma utilidade”.Ora, a religião pode influenciar decisivamente nossas necessidades e predisposição de conseguir umautilidade. Assim, as práticas religiosas não são econômicas, mas são economicamente relevantes. Domesmo modo, em suas pesquisas Weber descobriu como o Calvinismo foi um femenoeconomicamente relevante e, ao mesmo tempo, economicamente condicionado (ver 
 A ética protestantee o espírito do capitalismo
). Resumindo: existem fenômenos que não podem ser classificados comoeconômicos, mas podem ser relevantes para se compreender o desenvolvimento da economia, aocontrário, existem fenômenos que são, de fato, influenciados ou condicionados pela economia. Apenasuma pesquisa pode determinar isto.Por fim, temos ainda as reflexões de Louis Dumont, antropólogofrancês que viveu vários anos na Índia e pesquisou seu sistema de castas. Dumont define ideologiacomo “um conjunto mais ou menos social de idéias e valores. Pode-se, assim, falar da ideologia deuma sociedade e também das de grupos mais restritos, como uma classe social ou um movimento [...]É evidente que existe uma ideologia-mãe ligada à linguagem comum e, portanto, ao grupo lingüísticoou à sociedade global. Certamente existem variações - às vezes contradições - segundo os meios, como por exemplo as classes sociais, mas elas são expressas na mesma linguagem: proletários e capitalistasfalam francês na França, caso contrário não poderiam opor suas idéias, e em geral têm em comummuito mais do que podem pensar com relação, digamos, a um Hindu. O sociólogo necessita de termo para designar a ideologia global e não pode se inclinar diante do uso especial que limita a ideologia àsclasses sociais e lhe dá um sentido puramente negativo, lançando assim com fins partidários odescrédito sobre as idéias ou ‘representações’ em geral”. E ainda afirma que: “a ideologia é
central 
com relação ao conjunto da realidade social (o homem age conscientemente, e acedemos
diretamente
ao aspecto consciente de seus atos) [...] Ela não
é toda
a realidade social, e o estudo tem seu resultadona tarefa difícil do posicionamento relativo dos aspectos ideológicos e do que se pode chamar deaspectos não ideológicos. Tudo o que se pode supor 
a priori
é que normalmente existe uma relação decomplementaridade, aliás variável, entre uns e outros”. Ora, vemos, então, que a ideologia é umconjunto de idéias e valores ou, melhor dizendo, um conjunto de idéias-valor porque envolvem visõessobre as coisas, a natureza, o ser humano, a sociedade e seus problemas, mas também envolvemsentimentos, percepções, relações afetivas. Dumont encontrou em suas pesquisas algo que nega aafirmação, na concepção marxista, de que a ideologia é determinada; ele demonstra como, ao menosno caso da Índia, ela determina o comportamento das pessoas muito mais do que se imagina tornando-
2
 
se, assim, um elemento determinante daquela sociedade.
4)
Sabemos que as sociedades são estratificadas, ou seja, estão divididas em camadas sociais. Sabemosque existem as classes sociais e que a sociedade diferencia as pessoas conforme sua posição no processo de produção (divisão social do trabalho que leva à divisão por classes sociais). Mas as pessoas também criam outras fronteiras e os grupos sociais vão se diferenciando não somente pelasclasses sociais, mas conforme opções políticas, diferenças etárias, religiosidade, estilo de vida, enfim, por meio de
conjuntos de símbolos que são manipulados para criarem as identidades dos grupos sociais
. A essas diferenças entre os grupos sociais podemos chamar de suas ideologias (ou culturas);entretanto, estas não estão determinadas apenas pelas suas condições de classe, nem por uma questão puramente econômica. Neste ponto é difícil diferenciar “ideologia” de “cultura”, considerando que sãoconceitos forjados em tradições disciplinares distintas e que, muitas vezes são usados para explicaremfenômenos semelhantes. A exceção de Dumont, um antropólogo prefere o termo “cultura”; aocontrário, os sociólogos preferem “ideologia”. O mais importante, talvez, seja percebermos que oshomens criam representações imaginárias sobre tudo: as pessoas, as suas relações, as coisas, a vida, asociedade. Estas representações fazem parte do que chamamos ideologia ou cultura e dão sentido ànossa vida. E o lugar destas representações varia também conforme o pesquisador: para uns ela édeterminada e, portanto, explicada, pela estrutura social (organização social, infra-estrutura econômica,sistema político etc.); para outros ela é determinante da estrutura social, um elemento originário queguarda uma dimensão de autonomia em relação aos demais elementos da vida social.
5)
Para a antropologia interpretativista (de influência fenomenológica e hermenêutica), a cultura seria
“uma rede de significados”
, nos dizeres de Clliford Geertz. Para este antropólogo, os homens criamsignificados e tudo o que fazem, fabricam, comem, sentem, vestem, realizam e pensam tem sentido para eles. Os homens doam sentidos às coisas e estes sentidos ou significados constituem cultura. ParaGeertz, a cultura seria como que um programa de computador que determina e orienta a ação; sem oqual, aliás, o ser humano seria uma monstruosidade, um caos disforme. Para que tenhamos uma idéiaclara da dimensão que o conceito de cultura tomou, lembremos Lévi-Strauss que, questionandoMalinowski (a cultura como resposta a necessidades biológicas), disse que as coisas não são boas para pensar porque são boas para comer, mas ao contrário, são boas para comer porque são boas para pensar. Ao contrário de Weber – que diz que podemos compreender o sentido de toda ação humana porque ela é racional –, Geertz afirma que a ação humana é racional porque tem sentido, isto é, a própria racionalidade possui um sentido para nós. Nesta linha de pensamento, a cultura englobaria tudoe aqui voltamos ao problema levantado por Regina Aída Crespo, o da limitação do conceito de cultura,até para que ele se torne mais útil e produtivo. A discussão é interminável e polêmica: não podemos pretender fazer afirmações ditas científicas e resolvermos o debate de modo simples. Afinal, o grandeenigma do homem é que ele mesmo constrói as realidades imaginárias em que vive e compreendê-las – 
3

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