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Catadores de Lixo - Nildo Viana

Catadores de Lixo - Nildo Viana

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CATADORES DE LIXO:RENDA FAMILIAR, CONSUMO E TRABALHO PRECOCE
 Nildo Viana
A utilização de trabalho precoce, isto é, da força de trabalho de menores de dezoitoanos, pelas famílias de catadores de lixo, tem como causa fundamental a necessidade decomplemento da renda familiar, elemento indispensável para se realizar o consumo de bensnecessários para a sobrevivência da família. O trabalho precoce é necessário devido ao fato deque na relação despesa-consumo se cria a necessidade de aumentar a renda para compensar adespesa representada pelos indivíduos menores de idade. Isto tem entre outras conseqüências,como veremos mais adiante, um uso elevado de trabalho precoce. Mas existem diversasoutras conseqüências, tal como o caso da desescolarização dos menores de dezoito anos quevivem nestas famílias.
Unidade Doméstica, Proletarização e Lumpemproletarização
Por qual motivo determinadas famílias se tornam coletoras de lixo? O que engendraessa forma de buscar adquirir os meios de sobrevivência? Isto ocorre devido ao fato de queem nossa sociedade, desde a Revolução Industrial, criou-se uma separação entre trabalhadorese meios de produção. Sem meios de produção, ou seja, sem ter como produzir os seus meiosde sobrevivência, não resta outra saída a não ser vender sua força de trabalho em troca de umsalário. Porém, o mercado de trabalho não absorve toda a força de trabalho disponível. Destaforma surge ao lado do proletariado (força de trabalho efetivamente empregada e submetidaao salariato), o lumpemproletariado (força de trabalho potencial, sub-utilizada ou não-utilizada)
1
.O lumpemproletariado precisa, então, criar estratégias de sobrevivência. Isto decorre dofato de que na sociedade capitalista ocorre uma “mercantilização de tudo” (Wallerstein),inclusive dos meios de consumo
2
. A alimentação, o vestuário etc., se transformam em
1
A definição de lumpemproletariado não é consensual. O conceito surgiu com Marx e ganhou diversas significações posteriores. Tal conceito vem sendo retomado na França, principalmente a partir do final da década de 80 (cf. M
OREAU DE
B
ELLAING
, Louis.
 La Misère Blanche
. Paris, L’ Harmattan, 1988). Aqui o significado deste conceito é equivalente ao deexército industrial de reserva, tal como este último termo foi definido por Marx (cf. M
ARX
, Karl.
O Capital 
. Vol. 2, 3
a
 edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988; cf. também discussão sobre este termo apresentada por N
UN
, José.
Superpopulação Relativa, Exército Industrial de Reserva e Massa Marginal 
. In: P
EREIRA
, Luiz (org.).
 PopulaçõesMarginais
. São Paulo, Duas Cidades, 1978).
2
Cf. W
ALLERSTEIN
, Imannuel.
O Capitalismo Histórico
. São Paulo, Brasiliense, 1984.
 
2
mercadorias e a única forma (dentro dos padrões convencionais, ou seja, excetuando-se o casodo roubo) de adquiri-las é através da compra efetivada por intermédio do dinheiro. Esta é umalógica bem diferente da existente nas sociedades pré-capitalistas, principalmente as de caráter rural. Nestas sociedades, a unidade doméstica era simultaneamente unidade de produção eunidade de consumo, ou seja, se fundamentava na produção de valores de uso, na auto-subsistência.Esta identidade entre unidade de produção e unidade de consumo na unidade domésticarompe-se com a ascensão do modo de produção capitalista. A produção mercantil exige nãosó a separação entre trabalhador e meios de produção como também entre unidade de produção e unidade de consumo
3
.A produção mercantil capitalista possui a seguinte lógica: D-M-D (dinheiro-mercadoria-dinheiro), onde se usa o dinheiro para comprar mercadoria e vendê-la por umvalor superior ao que foi gasto. Desta forma, a produção capitalista visa a reproduçãoampliada do capital
4
. Ao lado da produção mercantil capitalista persiste existindo a produçãomercantil simples, que, por sua vez, possui outra lógica: M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria), onde se produz uma mercadoria para adquirir dinheiro para comprar outramercadoria (que não é produzida nesta unidade doméstica). Isto quer dizer que a produçãomercantil simples também precisa de garantir uma renda monetária para possibilitar a comprade mercadorias não produzidas na sua própria esfera. Porém, esta unidade doméstica é, ainda,unidade de consumo e unidade de produção, embora não seja auto-suficiente, ou seja, não produz tudo que necessita para consumir e por isso precisa produzir um excedente paraadquirir dinheiro com sua venda e assim comprar as mercadorias que necessita.Assim, com exceção da produção mercantil simples subordinada à produção mercantilcapitalista, a distinção entre unidade de consumo e unidade de produção se generaliza em todaa sociedade capitalista. Mas tanto a produção mercantil simples quanto a produção mercantilcapitalista já foram objetos de extensas análises e estudos. Curiosamente, o mesmo nãoaconteceu com a unidade de consumo separada da unidade de produção, separação estainstituída pela produção mercantil capitalista. Poucos autores se dedicaram ao problema do
3
Mas é necessário dizer que isto não ocorreu de forma imediata, pois foi um produto da paulatina constituição docapitalismo (cf. M
OTTA
, Fernando P.
O Que é Burocracia
. São Paulo, Brasiliense, 1985).
4
Cf. M
ARX
, Karl.
O Capital 
. Vol. 1, 3
a
edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.
 
3
consumo em si mesmo
5
e menos ainda se dedicaram ao que denominamos unidade deconsumo
6
. Se a lógica da unidade de produção capitalista é D-M-D, resta saber qual é a lógicada unidade de consumo.Alguns aspectos da unidade de consumo são fáceis de se delimitar. A unidadedoméstica deixou de ser uma unidade de produção para os agentes envolvidos na produçãomercantil capitalista
  
a classe capitalista e a classe operária
  
, para o conjunto dostrabalhadores assalariados improdutivos e para aqueles que só possuem sua força de trabalhomas que não conseguem vendê-la no mercado de trabalho formal. Porém, a unidade domésticacontinuou sendo uma unidade de consumo. Ora, se não é unidade de produção e é unidade deconsumo, então sua lógica é D-M (dinheiro-mercadoria). Em outras palavras, as unidadesdomésticas são apenas unidades de consumo e para o consumo se efetivar é necessário umarenda monetária. Este caso é mais grave no que diz respeito àqueles que possuem como única propriedade a sua força de trabalho e são constrangidos a buscar adquirir uma rendamonetária para garantir sua sobrevivência. Numa sociedade onde tudo (ou quase tudo) setransformou em mercadoria e que, por conseguinte, possui um valor de troca, então torna-senecessário para adquiri-las ter acesso ao meio de troca universal, ou seja, ao dinheiro. Neste sentido, a sobrevivência da unidade doméstica
que se transformou em umaunidade exclusivamente de consumo
depende da renda familiar. A renda familiar é o que permite o funcionamento da unidade doméstica enquanto unidade de consumo. A rendafamiliar é o total em dinheiro adquirido pelo conjunto dos membros da família, embora elatambém possa ser adquirida por apenas um membro ou por uma parte deles. Porém, esta rendamonetária adquirida é revertida para o conjunto da família, independentemente de quantos participam da sua formação.Os membros da família que não participam da formação da renda familiar desempenham outras atividades delimitadas por uma divisão social do trabalho na qual os quese dedicam à tarefa de adquirir renda monetária geralmente não participam (com exceção dealgumas funções tais como consertos, construção e reforma de casa etc.). Estas atividades
5
Um dos raros autores que se dedicou ao problema específico do consumo foi o economista norte-americano ThorsteinVeblen (Cf. V
EBLEN
, Thorstein.
 A Teoria da Classe Ociosa
. Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1980) e taltema vem recebendo atenção dos que se dedicam à questão da sociedade de consumo.
6
Uma das raras exceções encontra-se em textos orientados por uma preocupação feminista sobre o trabalho feminino nasfamílias proletárias (cf. H
ARRISON
, John; S
ECCOMBE
, Wally; G
ARDINER 
, Jean.
 El Ama de Casa Bajo el Capitalismo
.Barcelona, Anagrama, 1975).

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