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depositando em seus modos, ações e comportamentos, indo até a essência primeva do homem
. Com isso,seria possível recuperar um homem “que não mais existe, que talvez nunca tenha existido, que provavelmentejamais existirá”
. Somente após atingir esse ponto zero é que se torna possível reconstruir a textura datemporalidade humana até a sociedade atual e todas suas desigualdades e contradições.O problema, como acusa Rousseau, é que a maior parte dos filósofos e homens de letras atribuíramao homem natural características que são exclusivas do homem em sociedade, misturando traços essenciaiscom modificações sociais. Com isso, todos acabaram tratando o homem natural como seres repletos de“necessidade, avidez, opressão, desejo e orgulho”, transportando “para o estado de natureza idéias quetinham adquirido em sociedade; falavam do homem selvagem e descreviam o homem civil”
.Para superar esse impasse, o filósofo genebrino utiliza um procedimento metodológico radical: ele seafasta de todos os fatos, das pesquisas e verdades históricas. Afinal, o homem natural é aquele que existe naanterioridade da própria história, é um homem anti-histórico
. Para conhecê-lo, portanto, é necessário ignorartudo que Clio nos conta e atentar exclusivamente para os “raciocínios hipotéticos e condicionais”. O filósofodeve agir muito mais como um físico que estuda a origem do mundo do que como um erudito que se dedicaao estudo das sociedades do passado
.Como explica Starobinski, a “a história com que Rousseau vai entreter-nos não é aquela de que seocupam os historiadores. Não falará dos impérios nem de seu destino. Ele toma distância; decidiu olhar ascoisas de mais longe. (...) De fato, essa discussão filosófica concerne menos aos acontecimentos da história doque ao processo pelo qual o homem, de início estranho à história, tornou-se progressivamente um serhistórico”
. É isso que o filósofo pretende recuperar com seu método hipotético-dedutivo, o nascimento daprópria história só é possível quando esta é negada.O que encontramos quando voltamos nossa atenção para esse tempo primevo: encontramos um serque há pouco saiu das “mãos da natureza”, robusto e capaz de proezas físicas que nossos corpos sociais nãosão mais capazes. Vemos um homem que vive disperso pelo ambiente selvagem, contando apenas com seusrecursos para se defender dos animais e das intempéries da natureza. Vivendo em um ambiente bruto, o homem natural desenvolve em maior grau aquelas faculdadesnecessárias para sua sobrevivência, sua capacidade de atacar suas presas, de se defender dos animais mais
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Quando falo em uma arqueologia do homem me inspiro nas palavras de STAROBINSKI, Jean.
A transparência e oobstáculo
. São Paulo: Companhia das Letras, 1991: “
A primeira fonte do mal é a desigualdade
, escrevera ele em sua respostaa Estanislau. Agora sente a necessidade de remontar mais longe, de 'cavar até a raiz': essa desigualdade de que provém omal, trata-se agora de ver de onde ela própria procede. Pode-se demonstrar a verdadeira origem do mal apenasexaminando a origem da desigualdade”.
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Discurso
, p. 32.
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Discurso
, p. 39-40.
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DUCHET, Michèle explica que o homem de Rousseau é um “ser sem história, homem entre os animais e não entre oshomens, para si e não para outrem, sem consciência e sem memória. O estado de natureza exclui o acidental, ohistórico”,
Anthropologie et Histoire au siècle des lumières
. Paris: François Maspero, 1971, p. 334.
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Discurso
, p. 40. A radicalidade desse procedimento ganha mais força quando se lembra que o contexto de Rousseau éjustamente aquele no qual os procedimentos de pesquisa histórica erudita ganharam um grande destaque. É nessemomento, por exemplo, que as academias de pesquisa histórica começam a compilar e organizar documentos dopassado, bem como a sistematizar uma metodologia de pesquisa mais rigorosa no campo da historiografia. É nessequadro que o rigor da pesquisa começa a se tornar uma idéia chave importante nos trabalhos voltados para o passado.
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Jean Starobinski,
op cit.
, p. 296.
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