/  7
 
 1
Leandro Calbente CâmaraDissertação: Rousseau e o Discurso sobre a desigualdade entre os homens
 A proposta dessa dissertação é analisar o “Discurso sobre a origem e os fundamentos dadesigualdade entre os homens” de Jean-Jacques Rousseau, tendo como base um pequeno excerto do trabalhode Luiz Roberto Salinas Fortes
1
.Como se sabe, é nesse discurso, escrito em 1753, que Rousseau constrói, de maneira sistemática, suatese central a respeito da natureza do homem e de sua transformação ao longo da história da humanidade.Nesse sentido, a questão chave da obra é tratar de desfazer uma certa concepção a respeito da moral: oshomens são maus, mas o homem não é essencialmente mau. Seu objetivo é, justamente, demonstrar como sedeu essa passagem. Nesse sentido, é interessante destacar as palavras de Rousseau: “O princípio fundamentalde toda moral sobre a qual raciocinei em todos os meus escritos e que desenvolvi neste último [ 
Emílio ou daeducação
 ] com toda a clareza de que era capaz, é de que o homem é um ser naturalmente bom, amando ajustiça e a ordem; que não há perversidade original no coração humano e que os primeiros movimentos danatureza são sempre retos. (...) Mostrei que todos os vícios que se imputam ao coração humano não lhe sãonaturais; disse a maneira segundo a qual eles nascem; segui, por assim dizer, sua genealogia e fiz ver como,pela alteração sucessiva de sua bondade natural, os homens se tornam afinal o que são”
2
Desse modo, fica clara a importância central que o Discurso ocupa na obra de Jean-JacquesRousseau. É a partir dele que o filósofo constrói sua antropologia do homem moderno e a poderosa críticasocial lançada contra as estruturas sociais dos finais do Antigo Regime. O que interessa aqui é perceber comoesses dois movimentos estão intimamente articulados nessa obra.O Discurso foi elaborado como uma resposta à questão “Qual a origem da desigualdade entre oshomens e será ela permitida pela lei natural?”, elaborada pela Academia de Dijon. O texto está dividido emduas partes, sendo que a primeira trata, de maneira geral, das características fundamentais do homem natural,ainda sem nenhum tipo de modificação imposta pela sociabilidade; a segunda parte, por conseguinte, tratados estágios pelos quais a humanidade foi atravessando ao longo do seu desenvolvimento histórico.Como surge logo no início do prefácio, o nexo fundamental da reflexão de Rousseau é a recuperaçãodo homem despido de todos seus traços sobrenaturais. Isso parece tão essencial quanto pouco realizado.Como explica o filósofo, “o mais útil e o menos avançado de todos os conhecimentos humanos parece-meser o do homem (...) como conhecer a fonte da desigualdade entre os homens, se não se começar a conhecera eles mesmos?”. Para isso, é necessário “separar o que pertence à sua própria essência daquilo que ascircunstâncias e seus progressos acrescentaram a seu estado primitivo ou nele mudaram”
3
. Assim, Jean-Jacques acreditava que a única possibilidade de compreensão da sociedade coetânea erainiciar pela arqueologia do próprio homem, desbastando as múltiplas camadas de temporalidade que foram se
1
O excerto é o seguinte: “O discurso sobre a origem da desigualdade apresenta, ao mesmo tempo, uma concepção dahistória e uma doutrina da sociedade”.
2
Jean-Jacques Rousseau,
Carta a Beaumont
apud FORTES, Luiz Roberto Salinas,
Rousseau: o bom selvagem
. SaoPaulo: Humanitas/Discurso Editorial, 2007, p. 15.
3
Todas as citações em português do Discurso foram extraídas do volume II dos Pensadores consagrados aos textos deRousseau. Para facilitar as citações, doravante irei me referir a esta edição apenas como Discurso. Ver
Discurso
, p. 31.
 
 2
depositando em seus modos, ações e comportamentos, indo até a essência primeva do homem
4
. Com isso,seria possível recuperar um homem “que não mais existe, que talvez nunca tenha existido, que provavelmentejamais existirá”
5
. Somente após atingir esse ponto zero é que se torna possível reconstruir a textura datemporalidade humana até a sociedade atual e todas suas desigualdades e contradições.O problema, como acusa Rousseau, é que a maior parte dos filósofos e homens de letras atribuíramao homem natural características que são exclusivas do homem em sociedade, misturando traços essenciaiscom modificações sociais. Com isso, todos acabaram tratando o homem natural como seres repletos de“necessidade, avidez, opressão, desejo e orgulho”, transportando “para o estado de natureza idéias quetinham adquirido em sociedade; falavam do homem selvagem e descreviam o homem civil”
6
.Para superar esse impasse, o filósofo genebrino utiliza um procedimento metodológico radical: ele seafasta de todos os fatos, das pesquisas e verdades históricas. Afinal, o homem natural é aquele que existe naanterioridade da própria história, é um homem anti-histórico
7
. Para conhecê-lo, portanto, é necessário ignorartudo que Clio nos conta e atentar exclusivamente para os “raciocínios hipotéticos e condicionais”. O filósofodeve agir muito mais como um físico que estuda a origem do mundo do que como um erudito que se dedicaao estudo das sociedades do passado
8
.Como explica Starobinski, a “a história com que Rousseau vai entreter-nos não é aquela de que seocupam os historiadores. Não falará dos impérios nem de seu destino. Ele toma distância; decidiu olhar ascoisas de mais longe. (...) De fato, essa discussão filosófica concerne menos aos acontecimentos da história doque ao processo pelo qual o homem, de início estranho à história, tornou-se progressivamente um serhistórico”
9
. É isso que o filósofo pretende recuperar com seu método hipotético-dedutivo, o nascimento daprópria história só é possível quando esta é negada.O que encontramos quando voltamos nossa atenção para esse tempo primevo: encontramos um serque há pouco saiu das “mãos da natureza”, robusto e capaz de proezas físicas que nossos corpos sociais nãosão mais capazes. Vemos um homem que vive disperso pelo ambiente selvagem, contando apenas com seusrecursos para se defender dos animais e das intempéries da natureza. Vivendo em um ambiente bruto, o homem natural desenvolve em maior grau aquelas faculdadesnecessárias para sua sobrevivência, sua capacidade de atacar suas presas, de se defender dos animais mais
4
Quando falo em uma arqueologia do homem me inspiro nas palavras de STAROBINSKI, Jean.
 A transparência e oobstáculo
. São Paulo: Companhia das Letras, 1991: “
 A primeira fonte do mal é a desigualdade 
, escrevera ele em sua respostaa Estanislau. Agora sente a necessidade de remontar mais longe, de 'cavar até a raiz': essa desigualdade de que provém omal, trata-se agora de ver de onde ela própria procede. Pode-se demonstrar a verdadeira origem do mal apenasexaminando a origem da desigualdade”.
5
 
Discurso
, p. 32.
6
 
Discurso
, p. 39-40.
7
DUCHET, Michèle explica que o homem de Rousseau é um “ser sem história, homem entre os animais e não entre oshomens, para si e não para outrem, sem consciência e sem memória. O estado de natureza exclui o acidental, ohistórico”,
 Anthropologie et Histoire au siècle des lumières
. Paris: François Maspero, 1971, p. 334.
8
 
Discurso
, p. 40. A radicalidade desse procedimento ganha mais força quando se lembra que o contexto de Rousseau éjustamente aquele no qual os procedimentos de pesquisa histórica erudita ganharam um grande destaque. É nessemomento, por exemplo, que as academias de pesquisa histórica começam a compilar e organizar documentos dopassado, bem como a sistematizar uma metodologia de pesquisa mais rigorosa no campo da historiografia. É nessequadro que o rigor da pesquisa começa a se tornar uma idéia chave importante nos trabalhos voltados para o passado.
9
Jean Starobinski,
op cit.
, p. 296.
 
 3
selvagens, de encontrar o abrigo adequado. É um ser que pensa pouco e suas únicas preocupações sãoaquelas voltadas para sua própria conservação. A única diferença entre esse homem natural e os animais é sua capacidade de aperfeiçoar-se, ou seja,a capacidade de com “o auxílio das circunstâncias” desenvolver novas habilidades, conquistar novosrecursos. Em suma, a única diferença é que a
 perfectibilidade
permite ao homem se transformar, abandonarseus traços puramente naturais
.Porém, essa capacidade de se aperfeiçoar quase não se encontra desenvolvida no homem natural. Porisso, as poucas operações da sua alma são aquelas comuns a todos os animais, quais sejam, perceber e sentir,querer e não querer, desejar e temer. Suas únicas paixões são aquelas relativas a suas necessidades:alimentação, reprodução e repouso. Este homem também teme poucas coisas, apenas a dor e a fome. É umhomem de alma tranqüila, quieto e entregue “unicamente ao sentimento da existência atual sem qualquer idéiado futuro”
.Este homem vivia disperso pois não encontrava necessidade de um convívio mais prolongado comoutros homens. Todos os recursos necessários para enfrentar as intempéries, ele encontrava em si próprio.Não havia famílias e nem bandos unidos por intervalos prolongados. Por conta disso, era quase desprovidode qualquer capacidade de comunicação.O homem natural, vivendo apenas segundo seu instinto, desconhece o uso da razão, a fonte dasmaiores paixões e responsável pelo nascimento do sentimento de
amor-próprio
. Por isso, é apenas o desejode conservação que anima suas ações. Este sentimento é chamado por Rousseau de
amor de si.
E dele nasceum outro sentimento natural, a
 piedade
, aquela repugnância inata de ver um semelhante a si sofrer. Acombinação do amor de si com a piedade tornam os atos desse homem o menos prejudicial a qualquer outrohomem. Logo, nesse estado primevo da humanidade quase não havia possibilidade de conflitos edesentendimento.Para Rousseau, o retrato exato desse homem natural era o do ser errante “pelas florestas, semindústrias, sem palavra, sem domicílio, sem guerra e sem ligação, sem qualquer necessidade de seussemelhantes, bem como sem qualquer desejo de prejudicá-los, talvez sem sequer reconhecer alguns delesindividualmente, o homem selvagem, sujeito a poucas paixões e bastando-se a si mesmo, não possuía senãoos sentimentos e as luzes próprias desse estado, no qual só sentia suas verdadeiras necessidades, só olhavaaquilo que acreditava ter interesse de ver, não fazendo sua inteligência maiores progressos do que a vaidade”
. Tendo esse quadro em vista, fica bastante evidente porque Rousseau entende o estado de naturezacomo o momento mais tranqüilo e pacato da existência humana. O conflito, motor da história, era quaseinexistente. Tudo que restava ao homem era seguir sua existência harmoniosa com a natureza e sem qualquer
10
 
Discurso
, p. 47.
11
 
Discurso
, p. 49.
12
 
Discurso
, p. 60-61.

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...