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Apenas 5% das crianças em abrigos, ou“orfanatos” são, de fato, órfãs, o resto de-las está nesta situação por maus-tratos ounegligência por parte dos pais. Para estascrianças, a situação de abrigamento deve-ria ser apenas transitória, até a restituiçãona família ser autorizada pelo conselhotutelar, ou serem adotadas.“Toda criança ou adolescente tem di-reito a ser criado e educado no seio da suafamília e, excepcionalmente, em famíliasubstituta, assegurada a convivência fa-miliar e comunitária.” Este é o artigo 19da lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.Ainda hoje, 18 anos depois, ainda não hácondições de respeitá-la.A vara da infância e da juventude deFlorianópolis conta com apenas duasassistentes sociais, cada uma delas, nomomento, acompanha em média 50 pro-cessos. Sobrecarregadas, dão preferênciapara as crianças em situação de risco. Épor este motivo que os processos de des-tituição familiar, que liberariam as crian-ças à adoção, ou reintegração à família,arrastam-se por meses, ou até mesmoanos, o que faz com que as crianças vi-vam por período indeterminado em lo-cais com estrutura provisória.Os menores vão para a escola e a partirdos 16 anos são estimulados, além disso,
a fazerem cursos prossionalizantes. Se
-gundo Fernanda, assistente social da CasaLar Pai Herói. Incentivar os menores éessencial, pois é rara a adoção de crian-ças maiores de seis anos. Algumas destaspermanecem nas instituições até comple-tarem 18, depois disso são obrigadas porlei a desligarem-se das instituições.As crianças têm teto, alimentação,acesso a saúde e educação. Mas paraMunique, psicóloga, perdem uma grandereferência para a formação de caráter: aconvivência com uma família.
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UATRO
Universidade Federal de Santa CatarinaCurso de JornalismoJornal Laboratório da disciplina de
 REDAÇÃO IV 
Florianópolis, dezembro de 2008
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Editor-chefe: Jorge K. Ijuim
Crianças em abrigos provisóriosesperam anos por decisão judicial
INFÂNCIA:
Das 80 mil crianças que vivem em abrigos no Brasil, 87% não estão disponíveis para adoção e a maioria não volta à sua família por já ter sofrido maus tratos pelos pais
Páginas 10 e 11
>>
TransporteProstituiçãoContrastesCemitériosMulher
Nosso controversoespetáculo diárioTrabalho que rendedebate e história
Enquanto a mãe natureza se encarregoude separar as belezas naturais de Floria-nópolis em ilha e continente, a popula-ção criou padrões para os que moram“do outro lado da ponte”. Os morros eseus moradores também são alvos dediscriminação, problema maquiado emmeio à folia do carnaval. Cruzamos aponte e subimos o morro. L á se vão ospreconceitos.
6 a 8>>
Com os cemitérios de Florianópolislotados, famílias em luto possuemmenos opções para enterrar seusparentes. Quem pode paga até R$ 8mil por um terreno no cemitério par-ticular Jardim da Paz. A população debaixa renda conta com o auxílio daPrefeitura, que fornece caixão, velórioe uma vaga por quatro anos nas gave-tas do São Francisco de Assis.
16>>
Preconceito quecega e excluiEspeculação crescepor falta de espaço
Faz três anos que Roseli não liga para omarido e nove meses que Ana Paula nãovê a mãe. Elas estão ilhadas no PresídioFeminino de Florianópolis assim comoa adolescente grávida Suzi e mais 159mulheres. Todas perderam a liberdadede ir e vir, mas suas expectativas e preo-cupações não se mantêm imóveis. Elasamam, riem e sofrem enquanto esperamo tempo passar.
21>>
Muros e grades portodos os lados
A prostituição narrada a partir do perl de
duas mulheres que trabalham na capital.Detalhes de suas histórias e da rotina quelevam em casa e nos locais de trabalho,uma luxuosa casa de shows e uma whiske-ria no centro da cidade. Um outro olhar
sobre essa prossão que, ainda não legali
-zada no Brasil, gera polêmica, projetosde lei e divide opiniões entre a sociedade,legisladores e trabalhadoras da classe.
12>>
Com quantos ônibus se atravessa Floria-nópolis? Nos cinco anos do Sistema Inte-grado de Transporte Coletivo, o Quatrovisita os seis terminais da cidade, conhe-cendo mais de perto este personagem que,entre mocinho e vilão, participa do nosso
cotidiano. Conra a viagem de seis horas,
nove ônibus e 167 km do nosso repórter,assim como as propostas dos órgãos pú-blicos para a melhoria do sistema.
4
>>
Fernanda Espíndola
 
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UATRO
Florianópolis, dezembro de 2008
M
ais
 
gente. Mais pes-soas. Mais sereshumanos. O Quatronasceu dessa premis-sa, relembrada a cadareunião de pauta desta edição. A busca deum jornalismo mais humanizado, sempreconceitos e com responsabilidadeguiou a produção do jornal. Nos dedica-mos a romper as fronteiras do jornalismoobjetivo e dono de uma única verdade.Temos consciência de que o tratamen-to que damos às matérias pode mudar asconcepções de mundo, noções do senso-comum, visões de cultura. Ou consolidá-las. E aqui nos preocupamos não apenasem mostar a versão mais próxima do real,mas também a versão mais palpável ecompreensível dos fatos. Para isso, o sis-tema de ônibus de Florianópolis vira umapeça teatral; uma crônica-reportagem,
cenas de lme e a realidade de um pre
-sídio feminino é descrita com antíteses e
guras de linguagem.
Mais que um bom texto, nossos esfor-ços focaram-se em eleger bons temas efazer boas apurações. Reconhecemos quese despir do “pré-conceito” não é tarefafácil. Falar sobretabus como pros-tituição, morte, oumesmo classes so-ciais requer muitamaturidade pesso-al e jornalística, asquais fomos incen-tivados a desenvol-
ver nesse desao
de fazer um jornal-laboratório.É claro que nãochegamos lá ainda. Sabemos que temosmuito a aprender. É possível e prová-vel que muitos de nossos textos aindacarreguem uma visão preconceituosa etalvez até provinciana. Que na escolhade palavras cometamos algum deslize.Ainda assim, é reconfortante percebero quanto melhoramos como repórterese pessoas durante essa caminhada nabusca da humanização do jornalismo ede nós mesmos. Sempre com incentivode nosso
sensei
- o mestre japa - JorgeKanehide Ijuim.Incentivados também por nossa von-tade de escrever mais. Produzir matériasmais longas, mais textos autorais, maisreportagens, commais profundida-de. Não queremosser os “especialis-tas-em-nada”. Nãoqueremos apenasproduzir cápsulas deinformação. Quere-mos contextualizar,entender os aconte-cimentos não comofatos isolados, masencadeados em umaconjuntura social.Queremos nos inserir no cenário dereportagens que narram e não apenasdescrevem ou simplesmente noticiam.Queremos ser contadores de histórias.Queremos fazer simbiose entre o jorna-lismo e a arte.Não temos a pretensão de que os lei-tores vejam o mundo com nossos olhos.Só queremos despertar algum sentimen-to. Estamos conscientes das diversas in-terpretações que um texto pode ter. Sãoessas as possibilidades que nós procu-ramos. Queremos fugir das versões ide-alizadas da dicotomia do bem e do mal.Viver é mais complexo que isso. O jorna-lismo também deveria ser.
OPINIÃO & DEBATE
Editorial
Manifesto da redação por jornalismo mais humano
Da redaçãoUFSC alagada
Comemos barriga
 Jorge Kanehide Ijuim
“C
omer barriga”no jornalis-
mo signica
perder a opor-tunidade decobrir um fato relevante. Nesse sentido,temos que admitir que o Quatro comeubarriga ao não trazer nessa edição qual-quer matéria sobre a tragédia que asso-
lou o Estado no nal de novembro.
Mas foi algo consciente. O jornalestava em fase de fechamento quandoas fortes chuvas estavam caindo (no ge-rúndio, mesmo!).Somos um jornallaboratório, de 4ªfase de um curso deJornalismo. Comotal, àquela altura nãotínhamos mais tempohábil, infra-estrutura,mobilidade e agilida-de para deslocar umaequipe e realizar umtrabalho minimamen-te satisfatório. Se essanão é uma boa justi-
cativa, ao menos
expõe nossa decisão,baseada na consciên-cia de nossas limita-ções.E, apesar dessas limitações enquanto jornal laboratório, a equipe do Quatro ésolidária à população catarinense e – in-dividualmente e a sua maneira – estáfazendo tudo que pode para minimizaro desconforto dos seres humanos atin-gidos por essa catástrofe.***Mesmo “comendo barriga”, vale aquifazer alguns comentários sobre certosmovimentos ligados ao fato principal.Os governos, em suas várias esferas,corresponderam com certa rapidez às si-nalizações da calamidade. Mobilizaramgente e recursos para o atendimento dasvítimas. A instituição imprensa tambémrespondeu ao socorro do Vale do Ita- jaí. Empresas jornalísticas deslocaramequipes para a cobertura – repórteresespeciais, correspondentes, até âncoras.
Alguns zeram o que se pode conside
-rar um bom trabalho. Outros nem tan-
to. Vale reetir se a mobilização desses
órgãos de imprensa (e seus jornalistas)teve por motivação a solidariedade àsdores universais, ou simplesmente por-que “tragédias são sempre notícia”.A discussão sobre o que chamamosde “valores-notícia” é pertinente porqueas abordagens de alguns jornais e seus jornalistas denunciam a falta de umaperspectiva humanista. Pelas imagensde TV ou pelas fotos de jornais – e atécapa de revistas – houve quem privile-giou a máxima: “- Quanto mais gentechorando, melhor!”. Nesses casos, oapelo às dores do outro, beirou ao sen-sacional. A faltade compreensãodo quanto é com-plexa a questãodos fenômenos – físicos e sociais – levou alguns jornais e jornalis-tas a adotarem apostura de “profe-ta do acontecido”,apresentando ver-sões simplistas ereducionistas. Talpostura trouxe apúblico matériascom o discurso:“todos sabiam do que poderia aconte-cer, mas ninguém fez nada”.Cabe à imprensa investigar, criticar,elucidar. Mais que apontar a irresponsa-bilidade deste ou daquele, é fundamen-tal ter como ponto de partida a com-preensão de que tragédias como a quevivenciamos é conseqüência da açãominha, sua, de todos. Portanto, talvez aculpa não seja só da “autoridade” quedescumpriu seu dever de antever, nemtampouco do “irresponsável e turrão”que construiu sua morada em área derisco. A responsabilidade é de todos os
lhos desta “Terra-Pátria”.
Estas linhas não são críticas à im-prensa, mas autocrítica, pois tambémsou jornalista. Como tal, tenho queaprender com erros e acertos, para po-der compartilhar as experiências commeus alunos – jornalistas em formação.É meu dever mais que ensinar técnicas,
suscitar o debate sobre a prossão e so
-bre as ações humanas.
Santa Catarina ainda não estava na primeira página dos jor-nais do Brasil quando esta foto foi tirada, em 13 de novem-bro, mas Florianópolis já estava cercada de água. Após diasseguidos de chuva forte, eis que aparece o sol. E andava tãosumido que era possível ver outros fotógrafos perambulando
pela universidade para registrar o fm da chuvarada daquele
dia. Teve até arco-íris.
Sobre o fotógrafo:
Felipe Machado
é estudante de Jornalismona UFSC e cursa o quinto semestre. Paraentrar em contato com ele, envie e-mail paraemaildomachado@yahoo.com.br
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Expediente
Reportagem, edição ediagramação:
 Andressa Dreher, Angieli Maros,Bibiana Beck, Camila Chiodi,Cecília Cussioli, Felipe Machado,Fernanda Espíndola, FláviaSchiochet, Gabriel Esteves,Gabriel Luís Rosa, Gabriela Bazzo,Gabriela Cabral, Gustavo Naspolini,Isis Martins, Jessé Torres, JéssicaCamargo, José Monteiro Jr, JúlioEttore, Larissa Cabral, LetíciaArcoverde, Luísa Konescki,Marcelo Andreguetti, MarinaRocha, Mayara Schmidt Vieira,Michel Siqueira, Paulo Rocha,Pedro Dellagnelo, Rogério Moreira,
Sarah Westphal, Soa Franco.
Projeto gráfco:
Flávia SchiochetMarcelo Andreguetti
Colaboração:
 Clóvis Geyer, Matheus Nolli,Manuela Soares, Samuel Casal
Supervisão:
 Jorge Kanehide Ijuim
Impressão:
 Imprensa Universitária - UFSC
Tiragem:
 1500 exemplares
Ano 1 Número 2dezembro 2008Jornal da Disciplina deRedação IVCurso de JornalismoUniversidade Federalde Santa CatarinaTrindadeFlorianópolis - SC
O apelo às doresdo outro beirouao sensacional.Alguns adotarama postura do“profeta doacontecido”Queremos contarhistórias. Romperas fronteiras daobjetividade e daverdade única.
Equipe de Redação
Florianópolis foi o cenário para a apuração dos 30 repórteres do
Quatro
 
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Florianópolis, dezembro de 2008
ESPAÇO GONZO
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sse camarote é meu!- Isso é um cama-rote?- Eu sou aniversa-riante e meu pai pa-gou esse camarote pra mim!- E qual é seu nome?- Gabriela Bo...
Não que eu não queira identicar
a menina, mas ela estava tão bêbadaque não conseguiu falar o própriosobrenome.
- Como? Não entendi seu nome.- Saaaaaai do meu sofá que euquero deitar!
 – grita histérica a me-nina com um agudo mais irritanteque Mariah Carey.Eu levanto. Ela desaba no sofá.Sua calcinha é branca. Mas ela pa-rece ter vindo pronta para mostrá-la,com sua cinta liga aparecendo coma meia branca, logo após o vestidi-nho xadrez que só cobre a bunda.Bunda? Ela é tão nova que aindanão desenvolveu bunda nem peitos.Nem juízo.Mas estou aqui a trabalho... Cadêa Bia? Por isso a música estava tãodiferente. Onde que ela se meteu? Jáfoi um parto chegar aqui. Tenho queconseguir essa entrevista de qual-quer jeito.
Prefácio
- Você está bem longe.- Ah é? Mas é pra lá ou pra lá? Eu me perdi nas ladeiras.
Sim, eu estava perdida no centrode Floripa, às onze da noite de umsábado chuvoso. A chuva já não é
mais novidade depois de 12 nais
de semana sem sol.Chego à boate onde vou encon-trar a minha entrevistada: Bia Wen-dhausen, DJ aos sábado e
hostess
nas quintas. Combinei com ela porum depoimento no site de relacio-namentos Orkut. “Adorarei fazer aentrevista”. Essa foi a resposta, se-guida de MSN e telefone.
- Tem nome na lista?- Tenho. Andressa. Está na listaVIP. Eu falei com a Bia.- Não. A Bia não me passou nada. Está na “lista amiga”. Muy
amiga, pensei. Vim até aquisozinha nesse sábado à noite só praentrevistar a mulher. E ainda ter quepagar quinze reais por uma festacom estilo musical da qual não soufã?É possível ouvir a música quetoca lá dentro. É boa. É uma mulhercantando em português numa levadamixada estilo Vanessa da Mata.
- É a Bia que tá tocando? Tudobem, vou entrar do mesmo jeito.
O hall é pequeno e a moça quecobra as comandas no caixa pareceentediada. Sigo o som da músicaescada acima. O bar é grande. Naverdade é pequeno. Mas comparadoà pista, parece gigante. Dedos tocamritmicamente os botões da mesa desom ao lado do telão onde passamclips de música black. Não condizcom as baladinhas que a loira estátocando.O ambiente é luxuosamente de-corado: além do estêncil douradonas paredes, dois sofás gigantescosde couro e cortinas de veludo no janelão. Tudo vermelho. Na fren-te do janelão – quase uma paredetransparente – estáum grupo de adoles-centes. Parecem ter16 anos. Eles tiramfotos, fazem poses,dão beijos na boca.Meninas e meninos.Mas o que chamamais a atenção sãoseus berrinhos e risi-nhos de hiena. Prin-cipalmente quandochega mais uma be-bida colorida. Ficoperto de uma colu-na, para observarBia, a DJ que vimentrevistar. Ao meulado há uma mesa,e nela uma morena.Meus pés estão mematando.
- Posso sentar?- Claro, eu ia mes-mo te convidar. Es-tou esperando umaamiga que está nobanheiro. Que coi-sa horrível aquiloali, menina! Mulhercom mulher até vai,agora homem comhomem não dá, né?
 – a morena apontaos adolescentes nocanto da boate.
- Aqui tem sempreessa pirralhada?- Não sei. É a se-gunda vez que venhoaqui. Hoje é noite“Candy”. É pro público femininomesmo. Só vem amulherada. Mascomeça a enchersó à meia-noite. A morena é mui-to risonha. E cla-ro, simpática porme agregar à suamesa.- Ai, menina. Agente tá bebendochampagne desdeo almoço.
Sai uma loira daporta do banheiro.Ela parece estar emuma passarela, péante pé até a mesa. Masela não é tão simpáticaquanto a morena. Lembra minha an-tiga chefe. Senta, cumprimenta. Nãosorri. Fala mal do lugar, do almoço,do marido, de si mesma. Tudo comum sotaque estranhíssimo de que-ro-ser-carioca-chique-dos-anos-90.Bréeega. A cidade, as boates, as pes-soas. Tudo pra ela é Bréega. Não um“brega” qualquer. Um “brega” comum “B” fortemente pronunciado,que sai acompanhando um movi-mento discreto de cima para baixocom a cabeça e com o abrir e fechardos olhos.Daqui eu não consigo mais verBia. Há uma divisória entre esseambiente com mesas e sofás e a pis-ta. Mas adoro o repertório. SixpenceNone the Richer, Amy Winehouse,Blondie.Aline, a garota da porta e amigada Bia, da morena e da loira, apre-senta um cara que é prontamenteagregado à mesa pela morena. Elecumprimenta todas e me olha comdúvida:
- Você é...?- Andressa.- Mas você não é gay não, né?- Hmm, não. Porquê?- É porque hoje é noite das mu-lheres. A Aline é. Ela tenta me con-vencer de que sou também, enquan-to eu tento convencer ela de que é hetero como eu. Mas você já pegoumenina, né?- É, mais ou menos.- Todo mundo já beijou uma ami-ga e todo cara já co-meu um colega de es-cola. – 
brada a morenacom voz rouca em tomescrachado.
- Que horror! – 
co
escandalizada ao ima-ginar criancinhas dapré-escola fazendosexo. Mas acho quenão era a esses cole-gas de escola que elase referia.
- Todo mundo já ex- perimentou. Vai dizerque não?
– continua amorena – 
 Mas os ho-
mens cam com ver
-gonha de admitir.- Eu nunca experi-mentei coisa nenhuma
  – se antecipa o agre-gado.Ouve-se BritneySpears e gritinhos ain-da mais irritantes deadolescentes deban-dando para a pista.Enquanto a loiraatende o marido nocelular, a morena e oagregado conversamao pé do ouvido. A loi-ra avisa que o maridoestá vindo.
- Sério que vocêsduas transam? Mas porque você trai seumarido? Falta algumacoisa na relação?- Falta muita coisana relação!- Nada! É porqueaqui o sexo é bommesmo! – 
reponde amorena com sua vozrouca.Todos riem.
- Que tipo de ba-ladas tu freqüenta?
Pergunta-me a loira.
- Eu prero bar
- zinho, tipo o Blues. Em balada, eu voumais na Devassa. En-graçado, acabo fre-qüentando as baladasditas “alternativas”,mesmo sendo hetero.
- Pois eu prero que
não venham. Os hete-rossexuais comentam.
 Eles vêm só pra 
-car olhando, repa-rando pra depoiscomentar. Em São Paulo não é assim.
 Lá ninguém ca fa
-lando da tua vida. Aquieu tenho que ir em puteiro. Emesmo assim tem que ser dos bons.Teve um onde o dono me falou “seumarido tem nome na cidade. Você
não tem medo de car falada?” Eu
faço o que eu quero!
 – diz indigna-da a loira
 – Não são eles que pagamminhas contas. Aliás não sou eutambém. Não tô trabalhando.- Passa a tarde toda vendo TV com a empregada – 
debocha a mo-rena.-
Sim. Assistindo Márcia Golds-chimdt com a faxineira. Uma gordadesse tamanho. Vamos ali no sofá?- Acho que tá reservado pros pir-ralhos
 – fala o agregado.
- Como se ela se importasse
– re-truca a morena que já está atrás daloira, em direção ao “camarote”.
Posfácio
Reencontro os três na pista lotada,depois de ser enxotada do sofá e deuma entrevistada que parecia um tú-mulo.
- Você já tomou bala?
– perguntao agregado.
- Não.- E doce?- Nunca.- Vamos tomar? Um amigo meu tátrazendo. É 35 o doce.
A morena tenta me convencer,mas não há jeito. Duas doses deSmirnoff já me deixaram aérea,imagine coisa mais forte. E com
ninguém em quem cono por perto
pra me salvar se eu precisar?
- Uma vez tomei nove balas emuma balada só.
– ri freneticamenteo agregado junto com a morena. Osdois parecem ter bebido muito naminha ausência.
- Que risada é essa?
– pergunta amorena
 – tu é viado sim!- Não sou não. Já falei que gostode mulher.
Só agora percebo que a loira estácom um homem mais velho, ao nos-so lado, perto do bar. Deve ser omarido. Continuo dançando. Chegaa bala. Morena e agregado vão parao banheiro. O marido da loira segueos dois com um olhar indecifrável.Quando voltam ela pára ao meulado, bate quadril com quadril, en-laça minha cintura e dispara para oagregado:
- Adoro mulher grande!- Já começou a pegar a bala?
 – pergunta o agregado para a morena,enquanto a loira me fuzila com osolhos e o marido sorri.
- Ele sabe?
– pergunto à morena.
- É claro que sabe. Ele só quer
car olhando.
- Já volto.
O banheiro está lotado. Entra umguri - deve ter entre 17 e 18 anos –,maquiado, junto com uma amiga
- Ai, eu vou aqui. Eles não me
querem no outro mesmo. Anal, eu
sou menina.
Lembrei de uma professora dafaculdade, antropóloga, falando so-bre gêneros: “Quando vão acabarcom essa palhaçada de banheiromasculino e feminino? Até pareceque as pessoas não sabem se com-portar”.Volto para a pista para me despe-dir dos amigos desta noite. São duasda manhã.
- Tchau menina, vou indo
– falopara a morena.
- Não! Fica com a gente. A gentete leva.- Não posso. Meu pé está me ma-tando
– essa desculpa sempre fun-ciona.
- Então me passa teu telefone.
Eu passo, ela anota. Eu peço o
perl do Orkut dela, ela me passa.
Digo tchau pra loira, pro marido.Na saída, passo pelo sofá onde agarota continua desmaiada. Ela per-deu a própria festa de aniversário.
Andressa Dreher
A noite é de
sexo, algemas e cinta-liga
Ou, do sábado em que uma repórter em busca de uma entrevista caiu de pára-quedas em uma noite
Candy
    M   a   n   u   e    l   a    S   o   a   r   e   s
of 00

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