Q
UATRO
Florianópolis, dezembro de 2008
ESPAÇO GONZO
E
sse camarote é meu!- Isso é um cama-rote?- Eu sou aniversa-riante e meu pai pa-gou esse camarote pra mim!- E qual é seu nome?- Gabriela Bo...
Não que eu não queira identicar
a menina, mas ela estava tão bêbadaque não conseguiu falar o própriosobrenome.
- Como? Não entendi seu nome.- Saaaaaai do meu sofá que euquero deitar!
– grita histérica a me-nina com um agudo mais irritanteque Mariah Carey.Eu levanto. Ela desaba no sofá.Sua calcinha é branca. Mas ela pa-rece ter vindo pronta para mostrá-la,com sua cinta liga aparecendo coma meia branca, logo após o vestidi-nho xadrez que só cobre a bunda.Bunda? Ela é tão nova que aindanão desenvolveu bunda nem peitos.Nem juízo.Mas estou aqui a trabalho... Cadêa Bia? Por isso a música estava tãodiferente. Onde que ela se meteu? Jáfoi um parto chegar aqui. Tenho queconseguir essa entrevista de qual-quer jeito.
Prefácio
- Você está bem longe.- Ah é? Mas é pra lá ou pra lá? Eu me perdi nas ladeiras.
Sim, eu estava perdida no centrode Floripa, às onze da noite de umsábado chuvoso. A chuva já não é
mais novidade depois de 12 nais
de semana sem sol.Chego à boate onde vou encon-trar a minha entrevistada: Bia Wen-dhausen, DJ aos sábado e
hostess
nas quintas. Combinei com ela porum depoimento no site de relacio-namentos Orkut. “Adorarei fazer aentrevista”. Essa foi a resposta, se-guida de MSN e telefone.
- Tem nome na lista?- Tenho. Andressa. Está na listaVIP. Eu falei com a Bia.- Não. A Bia não me passou nada. Está na “lista amiga”. Muy
amiga, pensei. Vim até aquisozinha nesse sábado à noite só praentrevistar a mulher. E ainda ter quepagar quinze reais por uma festacom estilo musical da qual não soufã?É possível ouvir a música quetoca lá dentro. É boa. É uma mulhercantando em português numa levadamixada estilo Vanessa da Mata.
- É a Bia que tá tocando? Tudobem, vou entrar do mesmo jeito.
O hall é pequeno e a moça quecobra as comandas no caixa pareceentediada. Sigo o som da músicaescada acima. O bar é grande. Naverdade é pequeno. Mas comparadoà pista, parece gigante. Dedos tocamritmicamente os botões da mesa desom ao lado do telão onde passamclips de música black. Não condizcom as baladinhas que a loira estátocando.O ambiente é luxuosamente de-corado: além do estêncil douradonas paredes, dois sofás gigantescosde couro e cortinas de veludo no janelão. Tudo vermelho. Na fren-te do janelão – quase uma paredetransparente – estáum grupo de adoles-centes. Parecem ter16 anos. Eles tiramfotos, fazem poses,dão beijos na boca.Meninas e meninos.Mas o que chamamais a atenção sãoseus berrinhos e risi-nhos de hiena. Prin-cipalmente quandochega mais uma be-bida colorida. Ficoperto de uma colu-na, para observarBia, a DJ que vimentrevistar. Ao meulado há uma mesa,e nela uma morena.Meus pés estão mematando.
- Posso sentar?- Claro, eu ia mes-mo te convidar. Es-tou esperando umaamiga que está nobanheiro. Que coi-sa horrível aquiloali, menina! Mulhercom mulher até vai,agora homem comhomem não dá, né?
– a morena apontaos adolescentes nocanto da boate.
- Aqui tem sempreessa pirralhada?- Não sei. É a se-gunda vez que venhoaqui. Hoje é noite“Candy”. É pro público femininomesmo. Só vem amulherada. Mascomeça a enchersó à meia-noite. A morena é mui-to risonha. E cla-ro, simpática porme agregar à suamesa.- Ai, menina. Agente tá bebendochampagne desdeo almoço.
Sai uma loira daporta do banheiro.Ela parece estar emuma passarela, péante pé até a mesa. Masela não é tão simpáticaquanto a morena. Lembra minha an-tiga chefe. Senta, cumprimenta. Nãosorri. Fala mal do lugar, do almoço,do marido, de si mesma. Tudo comum sotaque estranhíssimo de que-ro-ser-carioca-chique-dos-anos-90.Bréeega. A cidade, as boates, as pes-soas. Tudo pra ela é Bréega. Não um“brega” qualquer. Um “brega” comum “B” fortemente pronunciado,que sai acompanhando um movi-mento discreto de cima para baixocom a cabeça e com o abrir e fechardos olhos.Daqui eu não consigo mais verBia. Há uma divisória entre esseambiente com mesas e sofás e a pis-ta. Mas adoro o repertório. SixpenceNone the Richer, Amy Winehouse,Blondie.Aline, a garota da porta e amigada Bia, da morena e da loira, apre-senta um cara que é prontamenteagregado à mesa pela morena. Elecumprimenta todas e me olha comdúvida:
- Você é...?- Andressa.- Mas você não é gay não, né?- Hmm, não. Porquê?- É porque hoje é noite das mu-lheres. A Aline é. Ela tenta me con-vencer de que sou também, enquan-to eu tento convencer ela de que é hetero como eu. Mas você já pegoumenina, né?- É, mais ou menos.- Todo mundo já beijou uma ami-ga e todo cara já co-meu um colega de es-cola. –
brada a morenacom voz rouca em tomescrachado.
- Que horror! –
co
escandalizada ao ima-ginar criancinhas dapré-escola fazendosexo. Mas acho quenão era a esses cole-gas de escola que elase referia.
- Todo mundo já ex- perimentou. Vai dizerque não?
– continua amorena –
Mas os ho-
mens cam com ver
-gonha de admitir.- Eu nunca experi-mentei coisa nenhuma
– se antecipa o agre-gado.Ouve-se BritneySpears e gritinhos ain-da mais irritantes deadolescentes deban-dando para a pista.Enquanto a loiraatende o marido nocelular, a morena e oagregado conversamao pé do ouvido. A loi-ra avisa que o maridoestá vindo.
- Sério que vocêsduas transam? Mas porque você trai seumarido? Falta algumacoisa na relação?- Falta muita coisana relação!- Nada! É porqueaqui o sexo é bommesmo! –
reponde amorena com sua vozrouca.Todos riem.
- Que tipo de ba-ladas tu freqüenta?
Pergunta-me a loira.
- Eu prero bar
- zinho, tipo o Blues. Em balada, eu voumais na Devassa. En-graçado, acabo fre-qüentando as baladasditas “alternativas”,mesmo sendo hetero.
- Pois eu prero que
não venham. Os hete-rossexuais comentam.
Eles vêm só pra
-car olhando, repa-rando pra depoiscomentar. Em São Paulo não é assim.
Lá ninguém ca fa
-lando da tua vida. Aquieu tenho que ir em puteiro. Emesmo assim tem que ser dos bons.Teve um onde o dono me falou “seumarido tem nome na cidade. Você
não tem medo de car falada?” Eu
faço o que eu quero!
– diz indigna-da a loira
– Não são eles que pagamminhas contas. Aliás não sou eutambém. Não tô trabalhando.- Passa a tarde toda vendo TV com a empregada –
debocha a mo-rena.-
Sim. Assistindo Márcia Golds-chimdt com a faxineira. Uma gordadesse tamanho. Vamos ali no sofá?- Acho que tá reservado pros pir-ralhos
– fala o agregado.
- Como se ela se importasse
– re-truca a morena que já está atrás daloira, em direção ao “camarote”.
Posfácio
Reencontro os três na pista lotada,depois de ser enxotada do sofá e deuma entrevistada que parecia um tú-mulo.
- Você já tomou bala?
– perguntao agregado.
- Não.- E doce?- Nunca.- Vamos tomar? Um amigo meu tátrazendo. É 35 o doce.
A morena tenta me convencer,mas não há jeito. Duas doses deSmirnoff já me deixaram aérea,imagine coisa mais forte. E com
ninguém em quem cono por perto
pra me salvar se eu precisar?
- Uma vez tomei nove balas emuma balada só.
– ri freneticamenteo agregado junto com a morena. Osdois parecem ter bebido muito naminha ausência.
- Que risada é essa?
– pergunta amorena
– tu é viado sim!- Não sou não. Já falei que gostode mulher.
Só agora percebo que a loira estácom um homem mais velho, ao nos-so lado, perto do bar. Deve ser omarido. Continuo dançando. Chegaa bala. Morena e agregado vão parao banheiro. O marido da loira segueos dois com um olhar indecifrável.Quando voltam ela pára ao meulado, bate quadril com quadril, en-laça minha cintura e dispara para oagregado:
- Adoro mulher grande!- Já começou a pegar a bala?
– pergunta o agregado para a morena,enquanto a loira me fuzila com osolhos e o marido sorri.
- Ele sabe?
– pergunto à morena.
- É claro que sabe. Ele só quer
car olhando.
- Já volto.
O banheiro está lotado. Entra umguri - deve ter entre 17 e 18 anos –,maquiado, junto com uma amiga
- Ai, eu vou aqui. Eles não me
querem no outro mesmo. Anal, eu
sou menina.
Lembrei de uma professora dafaculdade, antropóloga, falando so-bre gêneros: “Quando vão acabarcom essa palhaçada de banheiromasculino e feminino? Até pareceque as pessoas não sabem se com-portar”.Volto para a pista para me despe-dir dos amigos desta noite. São duasda manhã.
- Tchau menina, vou indo
– falopara a morena.
- Não! Fica com a gente. A gentete leva.- Não posso. Meu pé está me ma-tando
– essa desculpa sempre fun-ciona.
- Então me passa teu telefone.
Eu passo, ela anota. Eu peço o
perl do Orkut dela, ela me passa.
Digo tchau pra loira, pro marido.Na saída, passo pelo sofá onde agarota continua desmaiada. Ela per-deu a própria festa de aniversário.
Andressa Dreher
A noite é de
sexo, algemas e cinta-liga
Ou, do sábado em que uma repórter em busca de uma entrevista caiu de pára-quedas em uma noite
Candy
M a n u e l a S o a r e s
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