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Calligaris - Coisa de Homens

Calligaris - Coisa de Homens

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02/19/2013

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CONTARDO CALLIGARISCoisa de homensOs atiradores parecem agir na tentativa desesperada de se levarem a sérioDUAS notícias na Folha de quinta passada. Em Wendlingen, Alemanha, Tim Kretschmer, 17,saiu de casa com uma Beretta 9 mm e 200 cartuchos. O pai do jovem colecionava armas,todas legais e bem guardadas, salvo a fatídica pistola, que estava na gaveta de um cria- domudo.Kretschmer matou 15 pessoas, no colégio do qual ele tinha sido aluno, ao longo da estrada enuma revenda de carros, onde ele, enfim, suicidou-se. Em sua grandíssima maioria, os alvoseram femininos. Kretschmer não tinha um rancor especial pela escola onde se formara e,campeão de tênis de mesa, não era marginalizado socialmente.Em Kinston, Alabama, EUA, Michael McLendon, 28, matou dez pessoas, começando pelamãe. McLendon (com dois fuzis, uma pistola e uma espingarda) eliminou uma lista deparentes que, aparentemente, ele detestava. As autoridades declararam: "Ele não tinha sidodemitido, não houve rompimento amoroso. Ele não tinha ficha criminal nem história dedistúrbios mentais". Os assassinatos em massa já são uma tradição nos EUA (desde omassacre de Columbine, em 1999) e na Alemanha (desde o massacre de Erfurt, em 2002).Mas a epidemia começou na Escócia, em 1996, com a morte de 16 crianças e um professor(mais o assassino, suicida).E houve duas manifestações na Finlândia (nove mortos em 2007 e 11 em 2008). Isso semcontar o Iêmen, em 1997, com a morte de seis crianças e dois adultos. Claro, a mídia facilitaa identificação por contaminação: de país em país, o comportamento extremo de alguém setorna "exemplar" para outros. Mas isso não nos diz a razão da série, apenas explica suapossibilidade.A cada vez, a gente se pergunta o que pode levar alguém a sair matando. Uma patologia?Um evento inadmissível? A sensação de uma exclusão irremediável? A história de cadaatirador é diferente. Alguns eram de classe média, outros de classes menos favorecidas.Alguns pareciam ter um brilhante futuro, outros acabavam convencidos de que o mundo nãoera lugar para eles. Entre esses, havia os que execravam sua exclusão e os que a curtiamcomo se fosse um privilégio. Alguns sofriam de depressões ou transtornos mais graves, masnão todos.Será, então, que a série de horrores corresponde a um traço cultural? E lá vamos nós,reinventando banalidades sobre o "horror" moderno. Seja como for, diante dos massacres, édifícil não procurar denominadores comuns. Por exemplo, esses gestos homicidas e suicidassão propositalmente públicos. Não se trata de alvejar os passantes a partir de uma janelaescondida: a matança é teatral.Como se, para os atiradores, encarnar o anjo da morte (dos outros e deles mesmos) fosseuma demonstração, uma prova, que deve valer aos olhos de todos. Uma prova de quê? Poisé, os atiradores são sempre homens. O que eles querem provar? A identidade da gente é umtecido de imagens incertas; nesse jogo de espelhos, há poucos atos "reais", que possamdizer a que viemos sem que seu sentido dependa do olhar dos outros.Como dizia um psicanalista famoso, é possível que haja só dois atos dessa qualidade: dar àluz e morrer. Claro, para os "meninos" só sobraria morrer. Mas acrescento: morrer e, talvez,matar. Atrás da singularidade de suas razões, os atiradores parecem agir numa tentativadesesperada de se levarem a sério e de serem, enfim, levados a sério. Algo assim: "O mundome desprezará, mas, diante de meu ato, não poderá negar que sou um "macho derespeito'".Faz décadas que a masculinidade está doente: sofre de uma incerteza aguda sobre o que ademonstraria de maneira irrefutável. As máscaras masculinas herdadas do século 19 (doprovedor de paletó ao garimpeiro) não bastam mais. Qual é a nova fronteira que é precisodesbravar para "ser" homem?

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