Estranheza infinita da vida
«Meu caro amigo,» dizia Sherlock Holmes, estávamos nós sentados de cadalado da lareira, nos seus aposentos em Baker Street, «a vida é infinitamentemais estranha do que qualquer coisa que a mente do homem possa inventar.Nós nem nos atreveríamos a conceber as coisas que são, na verdade, meroslugares-comuns da existência. Se pudessemos voar daquela janela, de mão dada,planar sobre esta grande cidade, remover cuidadosamente os telhados eespreitar as coisas singulares que se estão a passar, as estranhas coincidências,os planos, os projectos contrários, as espantosas cadeias de acontecimentosoperando através de gerações e levando aos resultados mais
outré
, isso fariacom que toda a ficção, com as suas convenções e conclusões previstas, ficasse omais insípida e não-lucrativa.» ARTHUR CONAN DOYLE, «A Case of Identity»,
The Adventures of Sherlock Holmes
, Harmondsworth, Penguin, 1994, p.55.
Carta de um louco
Meu caro doutor, ponho-me nas suas mãos. Faça de mim o que quiser. Vou falar-lhe, bem francamente, do meu estranho estado de espírito, e o senhorapreciará se não valerá mais tomar conta de mim por algum tempo numa casa-de-saúde, do que deixar-me sujeito às alucinações e aos sofrimentos que meatormentam.Eis a história, longa e exacta, do mal singular da minha alma.Eu vivia como todo o mundo, olhando a vida com os olhos abertos e cegos dohomem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais,como vivemos todos, cumprindo todas as funções da existência, examinando ecrendo ver, crendo saber, crendo conhecer o que me rodeia, quando, um dia, meapercebi que tudo é falso.Foi uma frase de Montesquieu que iluminou bruscamente o meu pensamento.Ei-la: «Um orgão a mais ou a menos na nossa máquina far-nos-ia uma outrainteligência....Enfim, todas as leis estabelecidas sobre o facto da nossa máquina ser de umacerta maneira, seriam diferentes se a nossa máquina não fosse desta maneira.»Reflecti sobre isto durante meses, e meses, e meses, e, a pouco e pouco, uma
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