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11 - A REDISTRIBUIÇÃO PÓS MODERNA DO SEXO - A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE DE FOUCAULT REVISITADA'

11 - A REDISTRIBUIÇÃO PÓS MODERNA DO SEXO - A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE DE FOUCAULT REVISITADA'

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11
Sobre a redistribui
çã
o p
ó
s-moderna do sexo: a
Hist 
ó 
ria da sexualidade,
de Foucault, revisitada
A “revolução educacional” que acompanhou o nascimento da sociedade moderna teve lugar na Europaocidental, entre os séculos XVI e XVIII, embora precisasse de um século mais para que seus frutosamadurecessem plenamente. A revolução consistiu em três desvios fundamentais: primeiro, em separar umacerta parte do processo da vida individual como o estágio da “imaturidade”, isto é, uma fase repleta de perigos, mas também caracterizada por necessidades especiais e que requer, assim, um ambiente, um regime e processo todo seu; segundo, na separação espacial daqueles que precisam de tal tratamento peculiar e na suasubmissão ao cuidado de especialistas deliberadamente instruídos; e, terceiro, em conferir à família especiaisresponsabilidades de supervisão no processo de “amadurecimento”.Como foi observado por Philippe Ariès,’ não exatamente as telas populares de Breughel, mas todos ostestemunhos iconográficos salientam que, até aproximadamente o século XVI, as crianças, na Europa, eramtratadas de modo não muito diferente do que “adultos de tamanho menor”. Diferiam do resto das pessoasmeramente por terem os músculos e o juízo mais fraco. Não havia nenhuma noção de acomodações para ascrianças ou de separação dos quartos dos pais; nem havia jogos especificamente de criança ou de adulto: avida adulta não detinha nenhum segredo para as crianças. A cegueira peculiar para com as distinções degeração também se expressava simbolicamente: não havia quaisquer sinais culturalmente reconhecidos quantoà roupa, demarcando um especial
“status
da infância”em regra, as crianças usavam roupas grandes demais ou abandonadas
177 
178o mal-estar da pós-modernidade
 por irmãos mais velhos ou pelos pais e, mesmo se novos trajes eram encomendados para elas, seguiam as modas dosadultos da época.Tudo isso começou a mudar com a aurora do século XVII. Primeiro no topo, e depois gradualmente
 —
através da osmose,um efeito obtido gota a gota, por emulação ou competição de
 status
 — ,
também em estratos sociais sempre mais baixos.Partes das casas familiares foram separadas e reservadas para as atividades dos adultos e declaradas “áreas proibidas” àscrianças abaixo de certa idade; um regime separado e atividades especiais foram concebidas para as crianças; e, paramarcar isso simbolicamente, seus trajes foram desenhados para acentuar-lhes o
 status
inferior ou “incompleto”, a princípio imitando as roupas usadas pelas classes mais baixas ou, no caso dos meninos, os trajes das mulheres.Segundo Ariès e outros estudiosos dos hábitos populares2, a mudança no tratamento das crianças veio juntamente com a“descoberta” da criança como uma criatura por si mesma e de um tipo um tanto diferente, dotado de atributos peculiares.Esta descoberta estava intimamente ligada à nova
 —
e moderna
 —
 percepção da realidade social, que apresentava a carreirados indivíduos humanos como o processo de “amadurecimento”, algo que não aconteceria por si mesmo, sem ajuda e não-supervisionado, não podendo ser deixado à mercê da sabedoria da natureza. Para assistir ao processo e assegurar-lhe ofluxo regular, é preciso um ambiente especial e orientado para a criança, isolado dos rombos acidentais do mundo doscrescidos. Quanto mais tempo durasse o fechamento das crianças nesse ambiente especial, melhor: juntamente com a idéia positiva do amadurecimento, uma idéia negativa da “criança precoce” apareceu, trazendo um aroma decididamente patológico. A criança era considerada um ser frágil, que requer estreita e constante vigilância e interferência; um ser inocente mas que, pela própria razão de sua inocência, vivia sob uma constante ameaça de ser “estragada”, incapaz deevitar e combater os perigos por sua conta. O que para os adultos era um desafio a combater ou arrostar, para a frágilcriança era um engodo a que ela não podia resistir ou uma armadilha em que ela só podia cair. A criança precisava daorientação e do controle do adulto: uma supervisão refletida e cuidadosamente planejada, calculada para desenvolver arazão da criança como uma espécie de fortificação deixada pelo mundo do adulto dentro da personalidade da criança. Asnecessidades de orientação e controle convergiram para a idéia de um ambiente especialmente projetado em que o processo de crescimento devia acontecer.
a redistribuição pós-moderna do sexo
 
179
Idealmente, cada etapa do desenvolvimento da criança devia ter seu ambiente próprio e feito sob medida.Joseph Kett3 descobriu que, exceto para a aristocracia e para os mais ricos das classes médias empreendedoras, ascondições ambientes das crianças de todos os estratos sociais, no começo do século XIX, eram ainda acidentais edestituídas de estrutura, em vez de planejadas e reguladas. Esse estado de coisas veio a ser compreendido, contudo, comode frouxidão inadmissível, potencialmente perigoso e que exigia urgentes reformas. Colocar previ amente crianças “não-supervisionadas” (isto é, crianças das classes mais baixas) sob o olho vigilante de capatazes de fábrica foi amplamenteconsiderado, sob tais circunstâncias, um desvio educacional salutar; a única tarefa que restava era excogitar os meios decontrolar o comportamento das crianças durante as horas em que estivessem fora do alcance da vista do capataz. Daí aforça rapidamente mobilizadora do movimento pelas escolas paroquiais de domingo, introduzidas em todo o país com ofim, ostensivo, de proporcionar de outra maneira a instrução que faltasse, mas inspirada, em primeiro lugar, pelo desejo demanter a criança longe da travessura durante seu tempo “livre”, isto é, não-supervisionado.Havia uma categoria de adultos que ocupava uma posição potencialmente capaz de facilitar o controle contínuo, ubíquo emeticuloso de cada aspecto da vida das crianças
 —
os pais. A responsabilidade dos pais pelo desenvolvimento das criançasestá hoje na boca de todo o mundo, e seu papel essencial no “amadurecimento” da criança parece ser um fato da natureza.Mas, no começo do século XIX, isso estava longe de ser óbvio: não era uma realidade, mas uma sonhada solução para os problemas da realidade, tarefa para legisladores, para os defensores e pregadores da moral. Afinal, em tempos ainda nãomuito distantes, quando a corporação
 —
a paróquia, a casa senhorial, a propriedade ou a guilda
 —
cuidava da integraçãosocial e da ordem, enquanto a ubíqua vigilância dos vizinhos era o meio mais importante (e suficiente) de controle social,não se confiava particularmente na família. As crianças da nobreza eram iniciadas nas habilidades secretas da vida nobreservindo em cortes de outros nobres, enquanto os filhos dos artesãos passavam seus dias de aprendizado nas casas deoutros amos, freqüentemente muito afastadas da residência dos pais. A partir do século XVIII, professores contratados,academias para os jovens nobres e colégios internos para os filhos dos endinheirados começaram a tomar o lugar dascortes de outras pessoas, oficinas e escritórios, mas essa mudança de outro modo dramática ainda não dispunha a
180 o mal-estar da pós-modernidadea redstribuição pós-moderna do sexo
família no centro do esforço educacional. E havia outros desvios, paralelos, que pressionavam numa direção precisamenteoposta: a separação da casa dos negócios mantinha os pais longe do lar por uma parte maior do dia e, mais adiante,empobreceu os contatos face a face das crianças com os pais. Enquanto para as classes mais baixas, pobres ounecessitadas, dificilmente se podia falar de qualquer vida familiar. Tanto o pai como a mãe passavam a maior parte dotempo longe da casa familiar (se havia uma casa familiar), ganhando a vida; o mesmo se esperava das próprias crianças,que principiavam a partir de uma idade mais tarde considerada tenra e de modo algum adequada às rudes condições dotrabalho assalariado.O fechamento da família na casa familiar 
 —
afastando a residência da vigilância dos vizinhos, tecendo uma rede intricadade ligações intensas, mútuas, emocionalmente saturadas com os pais e irmãos
 —
e a elevação da famflia à posição decontroladora no processo da educação da criança não eram o resultado de um processo natural e espontâneo. Odesenvolvimento das famílias no papel dos “canais capilares” do sistema societário de controle mediante vigilância,descrito pormenorizadamente por Michel Foucault, carecia de um profundo esforço legislativo, de ação social coordenadae intensa propaganda dos novos padrões de coabitação íntima. A reorganização do espaço social e a remodelação dasrelações sociais movimentaram muitos fatores não-coordenados anteriormente, numerosos demais para serem aquirelacionados. Concentrar-me-ei, portanto, justamente num dos muitos fatores da reorganização total (emboraindubitavelmente um dos mais eficientes): na redefinição do sexo e das práticas sexuais. Em sua introdução à
 Históriada sexualidade,
Michel Foucault sustentou convincentemente que, em todas as suas manifestações, quer aquelasconhecidas desde tempos imemoriais, quer as que foram descobertas ou denominadas pela primeira vez, o sexo serviu àarticulação dos novos
 —
e modernos
 —
mecanismos do poder e do controle social.Os discursos médico e educacional do século XIX também construíram, entre outras noções, o fenômeno da sexualidadeinfantil, a ser convertido mais tarde,
ex post facto,
na pedra angular da psicanálise. O papel central, nessa articulação, foidesempenhado pelo pânico criado em torno da propensão da criança a se masturbar 
 —
considerada simultaneamente umainclinação natural e uma doença, um vício impossível de se erradicar e um perigo com incalculável potencial de dano. Eratarefa dos pais e professores defender as
181
crianças desse perigo mas, com o fim de tornar a proteção eficaz, era necessário abrir os olhos da criança parao problema, espreitar sua presença em toda mudança de comportamento, todo gesto e expressão facial,submeter toda a ordem das vidas das crianças à necessidade de tornar impossível a mórbida prática,interpretar todos os direitos e deveres das crianças com referência a sua fatal inclinação. Em torno da luta
 
interminável contra a ameaça da masturbação, foi construído um sistema completo de fiscalização e vigilânciados pais, médica e pedagógica. Nas palavras de Foucault, o “controle da sexualidade infantil esperava atingi-la através de simultânea propagação do seu próprio poder e do objeto sobre o qual se aplicava”. O inabalávele impiedoso controle dos pais precisava ser justificado em função da universalidade e insistência do vícioinfantil.Onde quer que houvesse a oportunidade [de a tentaçãoj poder aparecer, mecanismos de vigilância eraminstalados; eram preparadas armadilhas para confissões irresistíveis; discursos incansáveis e corretivos eramimpingidos; pais e professores eram alertados, deixados com a suspeita de que todas as crianças são culpadas,e com o medo de estarem eles próprios errados se suas suspeitas não fossem suficientemente fortes; erammantidos em prontidão diante do perigo que se repetia; sua conduta era prescrita e sua pedagogiarecodificada; um completo regime médico-sexual se apoderava do meio familiar. O “vício” da criança não eratanto um inimigo como um apoio...Permitam-nos observar que o tipo de poder de supervisão posto em prática e continuamente revigorado pelo pânico que cercava o fenômeno da masturbação infantil trazia a ressonância da tendência geral de poder  panóptico, tipicamente moderno. Sintetizava todos os traços cruciais deste último, a um grau que permite seutratamento como um espécime clinicamente puro, através do qual as características de um padrão institucionalmais amplo podem ser mais bem examinadas.Mais do que os antigos tabus, essa forma de poder exigia presenças constantes, atentas e curiosas para seuexercício; pressupunha proximidades; agia por meio do exame e observação insistente; requeria uma troca dediscursos, através de perguntas que extorquiam confissões, e confidências que estivessem além das perguntasque eram feitas. Isso implicava uma proximidade física e a ação recíproca de intensas sensações...
o
 poder que, desse modo, tomava conta da sexualidade se
182 o mal-estar da p 
ó 
s-omodemimidade 
a redistribuição pós-moderna do sexo 183
punha a
estabelecer contato com o corpo, acariciando-o com os olhos, intensificando áreas, eletrificando superfícies,dramatizando momentos agitados. Ele envolvia o corpo sexual em seu abraço.O sexo era mais apropriado a essa finalidade do que qualquer outro aspecto do corpo e da alma humana; natural, aindaeriçado de tentações inaturais, iniludível ainda que cheio de perigos e acima de tudo onipresente e partilhado por todos osseres humanos, o sexo era como que feito sob medida para o poder total e que em tudo penetrasse, concentrado naadministração do corpo e do espírito humanos
 —
um espírito são num corpo são... Oferecia tudo o que tal poder podia ter  precisado para se estabelecer e reproduzir, simultaneamente, seu mecanismo e seu objeto. Foucault falou da “utilização”do sexo como um apoio da hierarquia do poder; às vezes, ele recorreu a uma metáfora militar, falando do“desenvolvimento” de várias noções construídas no curso do discurso médico-pedagógico, nas etapas sucessivas daarticulação dos modernos poderes panópticos.4O sexo foi desenvolvido na construção de numerosos segmentos da estrutura social moderna. Seu papel, no entanto, foi particularmente grande na edificação das famílias modernas, essas extensões capilares que alcançam mais longe, e quetudo penetram, do sistema de poder panóptico, total. As células da famíla eram reconhecidamente diminutas e não particularmente profícuas, mas decisivas para o sucesso global do empreendimento como um todo, sendo as únicasinstituições que conduziam a pressão combinada do sistema panóptico até cada simples membro da sociedade.(Especialmente aqueles indivíduos que escapavam à pua disciplinadora das duas mais poderosas das instituições panópticas
 —
a fábrica e o exército.)Antes e acima de tudo, na verdade, a família foi o único terreno para o aprendizado e disciplina para as mulheres e ascrianças; que seu papel em relação ao homem, “cabeça da família”, provedor do pão e dono da casa, não fosse senãosecundário confirmava o modo pelo qual a sexualidade masculina fora articulada. Se a predisposição natural das mulheres para a histeria e das crianças para a masturbação requeria seu fechamento no espaço estreitamente vigiado da casa dafamília, onde estariam sempre disponíveis para a inspeção, e justificavam a exigência contínua de confissão, fiscalização ecuidado médico, a noção da tendência natural do homem para a poligamia e intercurso sexual com mais de uma mulher demandava, ao contrário, um espaço mais amplo do que o da casa familiar, bem como o direitoao sigilo e a um espaço privativo não controlado por outros membros da família. Dentro dessas paredes, o papel do donoera análogo ao do capataz na fábrica ou do sargento no exército.Segundo a sugestão contida em
Making of the Modern Family,
de Edward Shorter, em alguma fase do meio desteséculo, o mundo ocidental entrou na “segunda revolução sexual”. Essa segunda revolução consiste, aproximadamente, nodesmantelamento de tudo o que a primeira revolução, resumida acima, construiu. Testemunhamos hoje uma gradual, masaparentemente inexorável, desintegração (ou, ao menos, considerável enfraquecimento) do outrora sacrossanto e

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