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Lilith Balanganda - uma análise da poesia de Elisa Lucinda - Marciano Lopes

Lilith Balanganda - uma análise da poesia de Elisa Lucinda - Marciano Lopes

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LILITH BALANGANDÃ: FEMINISMO E NEGRITUDE NA POESIA DE ELISA LUCINDA (Uma leitura de Eu te amo e outras estréias e O semelhante) -
Marciano Lopes e SILVA (UEM)
LILITH BALANGANDÃ: FEMINISMO E NEGRITUDE NA POESIA DE ELISA LUCINDA (Uma leitura de Eu te amo e outras estréias e O semelhante) -
Marciano Lopes e SILVA (UEM)

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656
LILITH BALANGANDÃ:FEMINISMO E NEGRITUDE NA POESIA DE ELISA LUCINDA
(Uma leitura de
 Eu te amo e outras estréias
e
O semelhante
)Marciano Lopes e SILVA (UEM)
i
 
1.
 
INTRODUÇÃO
Ponho o lenço do pescoço na cabeçaMolho os cabelos com calmaUma mulher é uma espécie de alma com enfeiteChega diante do espelhoadorna-se como uma árvore de natalnem é natalmas ela vai dar bolaÀs vezes não varre o quintalmas pinta as maçãsblushes rugesÀs vezes não costuramas realça as cortinascílios rimel lápisÀs vezes não conserta as portasmas pinta as bordas das janelaspálpebras delineador sombraMulher é uma Eva encantadade espalhar-se por foraem paraísobatom cintura tesão juízopulseiras brincos balangandãssão seus sonhos de fachadaque repetem o de dentroque rondam a porta da casaInvento de princesaDurante todas as primaverasum cardume de cinderelasainda insiste dentro dela.(LUCINDA, 2006, p. 61-62)O poema acima – cujo título é “Lilith balangandã” – representa muito bem astensões e estratégias que caracterizam a construção poética da identidade feminina enegra na poesia de Elisa Lucinda.Analisando o título, vemos que este apresenta um alto potencial subversivo, poissugere uma identidade feminina rebelde, contestadora do poder masculino e cristão,assim como etnicamente negra. O primeiro aspecto se encontra presente na menção aLilith, e o segundo na palavra “balangandãs”, substantivo de origem africana que, nopresente caso, funciona como adjetivo. No entanto, essa identidade feminina subversiva
 
 
657e negra que se anuncia no título é muito atenuada – ou até mesmo dissolvida – notranscorrer do poema por um discurso impregnado por imagens características de umromantismo ingênuo, típico de conto de fadas, visto tratar a mulher como “Evaencantada”, “princesa” e “Cinderela” – imagens que constroem uma identidadefeminina branca e dócil, castiça e cristã. Em outras palavras: o potencial subversivo daeleição de Lilith como modelo feminino se desfaz numa retórica ingênua quedesconhece a dimensão filosófica existente no seu mito, ou que então tenta tornar-seaceitável para o leitor mediano através da ocultação do seu caráter blasfematório,reduzindo a contestação política ao poder patriarcal, branco e cristão, a uma atitude desimples liberação sexual da mulher na sociedade burguesa. Mas o problema não é tãosimples assim. Tal conclusão seria correta e aplicável à sua poesia se nos limitássemosexclusivamente ao poema “Lilith balangandã”, mas quando começamos a remexer comatenção em seus demais textos, vemos que nem sempre a autora escreve uma poesia tãobem comportada e que a necessidade de torná-la um produto mercadologicamenteviável (e, portanto, vendável) nem sempre termina por negar a identidade sugerida notítulo em questão.
2. LILITH E A AFIRMAÇÃO DA SEXUALIDADE FEMININA
No atual cenário da poesia brasileira, a poesia de Elisa Lucinda encontra-se nacontramão da tendência aparentemente dominante, em que os poetas parecem estar maispreocupados em demonstrar virtuosismo no domínio de técnicas e estilos jáconsagrados, sem compromisso com qualquer bandeira estética ou política, conforme jáapontaram Heloísa Buarque de Hollanda (1998), na introdução a
 Esses poetas – umaantologia dos anos 90
, e Maria Iumma Simon.
Distante da “poesia de invenção”,vertente em que predomina a pesquisa estética, a autora volta toda a sua emoção ecriatividade para os motivos cotidianos – destacando-se os temas do amor e dasexualidade – e para a elaboração de uma linguagem simples, extremamente coloquial efluida, possível de ser compreendida pelo mais humilde leitor. Ao fazer essa opção,coloca-se ao lado de autoras como Cora Coralina, Martha Medeiros, Alice Ruiz eAdélia Prado, poeta por quem Elisa apresenta uma simpatia declarada e cuja afinidadese pode sentir na leitura de sua poesia, pois ambas constroem uma identidade femininaque alia tradição e ruptura especialmente através da tensão entre religiosidade eerotismo.De maneira semelhante ao que acontece na poesia de Adélia, que em algunsmomentos de sua obra erotiza o amor pela natureza e por Cristo, a de Elisa tambémafirma uma identidade feminina cuja religiosidade assume uma dimensão panteísta e seencontra permeada de sensualidade. Nela, o amor é um sentimento cósmico que semanifesta não somente através da elevação da alma, mas em todos e por todos ossentidos transborda dos poros, é Eros explodindo em toda a sua dimensão sensorial e,portanto, carnal. O que faz sem nenhum pudor (é importante observar que nisso ela sedistancia de Adélia, que é muito mais sutil na expressão da sensualidade). Exemplodessa atitude de ruptura com o cristianismo é o poema “Na salada da noite”. Nele, oespaço da cozinha é duplamente profanado, pois o poema não somente menciona o atosexual de modo explícito como também faz uso de palavras vulgares (“xoxota” e “cu”):Eu te amoentre chicória e feijão-fradinho
 
 
658(...)Beijo a torre de sua igreja,subo no seu tronco,minha viril árvore(...)Eu arrisco, meu petisco,Escuto teu verbomesmo quando arisco(...)Meu corpo, meu peitominha xoxota, meu cu,eu te amo entre chuchus.Eu te amoem pepino, cebola, ameixae alface.Amo em nóso amor sem disfarce.(LUCINDA, 2006, p. 212 a 214)Não creio que seja necessário gastar muita tinta e saliva para demonstrar que opoema citado é uma ofensa à moralidade cristã. Lembremos: é na cozinha onde se faz ese reparte o pão (alimento sagrado), é na cozinha onde se reúne a família, é na cozinhaonde se encontra – em quase toda a casa popular – uma cópia do quadro da
Santa Ceia
 de Leonardo da Vinci. Não digo que muitos não façam ou pensem tais coisas em tallocal, mas como se sabe, pensar é uma coisa, mas falar e publicar é outra bem diferente.“Livre pensar, só pensar” – como escrevia o Millôr se não me engana a memória.Eva agora é a mãede uma primeira geraçãoAdão fértilAdão negãoAdão cagão(....)Para mim Eva não teve nunca pecado originalnão é a primeirae nem será a últimaEva relutamas não consegue evitarDoa-se.(...)Eva é o nome da minha gatae habita de frutos o universoVida miaEva agora habita meu verso.(LUCINDA, 2006, p. 59)

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