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Urbanização e transformação social: As estruturas populacionais dosBairros Rurais Paulistanos no início do século XIX
 
 
Leandro Calbente Câmara
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Palavras-chave: São Paulo; demografia; bairros rurais; história.
Resumo
O presente trabalho tem por objetivo estudar as transformações nas estruturaspopulacionais dos bairros rurais paulistanos, especialmente em Nossa Senhora do Ó e Penha,decorrentes do processo de urbanização da cidade de São Paulo, no início do século XIX.Daremos atenção especial às modificações nas estruturas de posse de cativos e seus reflexosna economia e na população local. Para tal, trabalharemos com os maços de população dosanos de 1827 e 1836, assim como com descrições de viajantes e memorialistas, documentaçãoque apresenta informações bastante ricas sobre o movimento populacional dessas regiões.
 
Texto de 2004
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Graduando em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e bolsista PIBIC-CNPqcom o projeto
São Paulo: 1827, uma análise demográfica, Penha, Nossa Senhora do Ó e Santana.
 
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Urbanização e transformação social: As estruturas populacionais dosBairros Rurais Paulistanos no início do século XIX
 
 
Leandro Calbente Câmara
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Saint-Hilaire, que visitou São Paulo no início do século XIX, ficou espantado com aletargia das vilas e cidades do Brasil. Assim, constatou:
No interior do Brasil [...] a população permanente das vilas e cidades éescassa; a maioria de suas casas pertencem a agricultores, que nas mesmas sópermanecem aos domingos e dias santos, para assistirem às solenidades religiosas,conservando-as fechadas durante os demais dias do ano, sendo pois, a bem dizer,inteiramente supérfluas, completamente inúteis (SAINT-HILAIRE, 1972, p. 70)
No entanto, suas impressões sobre a capital da província foram bastante diferentes. Emsuas ruas, Saint-Hilaire encontrou:
Funcionários de todas as ordens, operários de diversas categorias, umgrande número de mercadores, proprietários de casas urbanas, proprietários de bensrurais que, ao contrário dos de Minas Gerais, não moram em suas fazendas [...] secontam também várias pessoas que vivem da venda de legumes e frutas cultivadasem suas próprias chácaras (SAINT-HILAIRE, 1972, p. 154)
E continua:
A situação de São Paulo é encantadora e é puro o ar que ali se respira. Vê-se um grande número de lindas casas e as ruas
não são desertas
como as de VilaRica; os edifícios públicos são bem conservados e não se tem a cada passo, como emgrande parte das cidades e vilas de Minas Gerais, a vista impressionada pelo aspeto[sic] de abandono e ruínas. (SAINT-HILAIRE, 1972, p. 155, grifo meu)
 A idéia de uma São Paulo urbanizada, detectada pelo famoso viajante, tambémaparece nos dados das listas nominativas. Em 1836, existiam 1863 fogos (contra 1069 em1802) na cidade e apenas 10% destes ainda dependiam fundamentalmente de atividadesagrícolas para sustento de seus domicílios
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(KUZNESOF, 1986, p. 97 e 123). Estes fogosgeralmente eram menores e menos complexos que aqueles encontrados nas zonas rurais dacidade
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:
Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú-MG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004.
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Graduando em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e bolsista PIBIC-CNPqcom o projeto
São Paulo: 1827, uma análise demográfica, Penha, Nossa Senhora do Ó e Santana.
 
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Sabemos que é preciso ter um pouco de cuidado com tais dados, já que as listas nominativas não eram muitoprecisas na divisão profissional dos fogos. Contudo, tal número pode expressar com bastante intensidade astransformações urbanas já que, usualmente, estas fontes privilegiavam as atividades agrícolas frente as demais.BACELLAR (2001) e ARAÚJO (2003) discutem o problema das listas e suas divisões profissionais.
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Entendemos núcleo central pelas freguesias da Sé, Santa Efigênia e do Brás. Por outro lado, temos os bairrosrurais compostos pelas freguesias da Nossa Senhora do Ó e Nossa Senhora da Penha. A cidade ainda era
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 Tabela 1Tipologia dos Fogos Urbanos
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Tipologia dos fogos Zona urbana
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Zona rural
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Singular 12%06%Desconexa 33%13%Nuclear 29%50%Extensa 01%04%Aumentada 24%27%Fraterna 01%0%
Fonte:
1
 
SAMARA (1989, p.34);
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CEDHAL, Maços de População, Capital, 1836.
Os dados da Décima Urbana
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de 1809 e 1829 reforçam a sensação de um adensamentodas regiões consideradas urbanas. Nestes dados é possível perceber que asruas da freguesiade Santa Efigênia já estavam sendo incorporadas à região central da cidade
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.Este movimento de crescimento articula-se com a necessidade de estabelecer redes deabastecimentopara a cidade. A construção e a ampliação das Casinhas, ao longo do final doséculo XVIII
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, é um exemplo da necessidade de agilizar e tornar mais efetivo o comércio nacidade. A importância deste mercado fica evidente no relato de Saint-Hilaire:
Não há em São Paulo rua mais freqüentada do que a das Casinhas. A gentedo campo ali vende suas mercadorias aos comerciantes, em cujas mãos osconsumidores vão adquiri-las. Durante o dia nota-se ali acúmulo de negros, deroceiros, de muares, de arrieiros; de noite a cena é outra: os animais de carga e oscompradores cedem lugar a verdadeiras nuvens de prostitutas de baixa classe,atraídas pelos camaradas (servidores livres) e pelos roceiros, que elas tentam pescarem suas redes. (SAINT-HILAIRE, 1972, p. 163)
Outro importante ponto de troca era a Rua da Quitanda, onde mulheres pobresrealizavam um comércio miúdo de alimentos e produtos diversos. Ao contrário das Casinhas,este tipo de atividade era clandestino e fortemente repreendido pela Câmara da cidade. Noentanto, era fundamental para a manutenção das camadas menos favorecidas da população(DIAS, 1995, p.26-28).O papel administrativo da cidade também tinha grande relevância. Ao longo do séculoXVIII e início do século XIX, a Câmara da cidade se afirmou como um dos órgãosfundamentais para arbitrar as diversas tensões sociais que surgiam junto desta urbanização.Suas instâncias de ação eram múltiplas, sendo uma instituição fundamental para o
composta por outras freguesias e bairros, entretanto não fazem parte do escopo desta pesquisa. Para umadiscussão sobre o assunto conferir KUZNESOF (1986) e MARCÍLIO (1973).
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Aqui utilizamos a tipologia e os dados encontrados por SAMARA (1989, p. 34). Os dados não incluem afreguesia do Brás. Na parte rural, trabalhamos apenas com as freguesias da Penha e Nossa Senhora do Ó
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A Décima Urbana foi criada em 27 de junho de 1808, cobrando 10% do rendimento liquido de prédios urbanoshabitados, na corte, cidade, vilas e lugares notáveis do litoral para a fazenda real (GLEZER, 1992, p.89).
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A criação da freguesia data apenas de 1809, mostrando que o crescimento da cidade nesta nova direçãoacontecia com uma certa rapidez.
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As primeiras seis Casinhas ficaram prontas em 1774. No entanto, estas não bastaram e logo foi preciso ampliá-las. Já em 1787, o Senado da Câmara mandava aumentá-las pois estas não podiam mais acomodar asnecessidades da cidade. Conferir TAUNAY (1951, p.133-135).
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