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A mulher negra o cristianismo e o mito da redenção

A mulher negra o cristianismo e o mito da redenção

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05/30/2014

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A mulher negra, o cristianismo e o mito da redenção
 em 08 jan, 2014
 
1 Por Aline Djokic para as Blogueiras Negras O embranquecimento é um problema. Eu que o diga! Semanas atrás tentaram roubar o meu filho, no sentido figurado, mas ainda assim. Uma mulher branca começou a interagir conosco num consultório médico e em poucos segundos, ficou claro que ela aceitava o meu filho, que tem fenótipo predominantemente branco e me rejeitava por ser negra. Foi exatamente nesse momento que se
deu o tal “roubo”. Ela, através de seu comportamento, mostrava que, eu,
mulher negra, ainda que mãe daquele indivíduo, já não tinha direitos sobre ele; por ele não mais se parecer suficientemente comigo. Naquele momento, o
mundo racista, representado por aquela mulher, estava me dizendo: “
Obrigada receptáculo, missão cumprida, o filho da redenção foi aceito. Seu filho será reconhecido como branco e fará a partir de agora parte da nossa liga
“.
 Com esse texto eu gostaria de dar uma resposta
à esse “roubo” e à essa oferta
tão generosa de redenção. Hoje, eu gostaria de dizer: Obrigada, mas não quero. Eu não quero a sua redenção, eu não sou a encarnação da sua fantasia cristã. Eu não sou Maria. Na construção do mito da redenção através da miscigenação, há também uma forte carga de mitologia cristã, como em toda a construção do racismo. O homem branco feito à imagem e semelhança de Deus, e assim, ele mesmo, o próprio Deus; desprovido porém de divindade, que ele recupera ao desumanizar o homem negro. Mas, aprofundar esse assunto daria outro texto, por isso me limitarei à questão da mulher negra e a construção de sua afetividade pelo cristianismo. O cristianismo separa as mulheres em Evas e Marias. Ou seja, em pecadoras ou redentoras. A mulher que questiona as leis de Deus, que ousa tomar decisões sem consultar o homem, que vive sua sexualidade, é considerada uma Eva, a pecadora que é responsável pela queda do homem, pela perda de sua divindade. A maldição que Deus impõe à mulher não é nada justa, ela perde o controle sobre si, sua vontade pertence ao seu marido; e sua sexualidade, representada pela reprodutividade, será para sempre associada à dor. A não aceitação do prazer sexual feminino é uma fantasia cristã. A maldição que pesa sobre o homem é imensamente mais leve, pois pode facilmente ser terceirizada. Quando o homem branco escraviza o homem negro
para viver do “seu suor”, ele reest
abelece sua divindade e livra-se, assim, da maldição imposta.
 
Mas, e a mulher branca? À ela também foi dada a segunda chance, na figura de Maria, a mulher-receptáculo, que se regozija na gravidez involuntária. Quando o anjo aparece à Maria, ele a parabeniza pela gravidez. Ele não diz:
Deus pediu pra perguntar, se você quer parir o redentor 
“. Se Maria ficou
grávida contra a sua vontade, podemos considerar o momento da concepção, um momento de violência, ainda que simbólica. Sim, realmente essa não foi uma b
oa troca… Ao invés da negação do direito ao prazer sexual, a mulher
carrega agora a maldição da violência sexual justificada. Qualquer ligação à obsessão de cristãos em impedir que mulheres violentadas tenham acesso ao aborto, não é mera coincidência. Assim como também não é coincidência a visão de que a miscigenação originada no Brasil, através do estupro de mulheres escravas, tenha na verdade sido algo consensual, e não uma violência. Quando a mulher, através do movimento feminista, começa a questionar sua posição subalterna e sua imagem distorcida na sociedade, ela começa a desconstruir todo esse estigma que lhe fora infligido pelo cristianismo. A mulher negra, porém, não foi incluída nesse processo e vê repousar sobre si toda a estigmatização que antes da escravidão pertencia à mulher branca. Combater o racismo e o sistema que o apoia é assim também uma tarefa do feminismo. A sociedade fundamentada no cristianismo, e que até a chegada da Renascença via Deus como o centro do universo, vê agora o homem como o centro deste. E é aí, onde está o problema, pois esse homem, centro do universo, é o homem branco.

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