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19.JUL.2009
papel de embrulho, a envolvência da músi-ca tem uma função, a música leva-nos devolta ao tempo, de volta à época de que es-tamos a falar.»
Dar olhos a quem está a ouvir
Um programa gravado nos lugares de quetrata, enchendo-se Vilas-Boas de emoções.Boas, quando por exemplo encontra patri-mónio preservado ou competentementerecuperado. Más quando, ao invés, desco-bre património abandonado, esquecido,incompreensivelmente silenciado. Viajan-do por lugares de boa e má memória, Ma-nuel Vilas-Boas faz na TSF um programa que se quer pedagógico, capaz de levar aogrande público coisas de que não se fala ha-bitualmente na rádio ou que se encontramcircunscritas a universos restritos, acadé-micos por exemplo: «Todos os dias sou sur-preendido pela quantidade de coisas queme são reveladas.» Falando dos programasque já fez como de filhos seus, conta que«aquele que me deu a possibilidade de me-ter o microfone mais fundo» foi o que dedi-cou à Barragem do Picote: «Consentiram-me uma viagem pelo interior e conseguitransportar para a emissão a imensidão,mas também o trágico da existência da bar-ragem, e aquela catedral infinita que está lá por debaixo das águas, tudo isso eu achoque consegui trazer para cima, os ruídos,tudo o que caminha lá por dentro e a que a maioria das pessoas não tem acesso». Umprograma que é tanto mais desafiadorquanto um dos seus pressupostos é justa-mente conseguir traduzir por palavras esons a quantidade avassaladora de imagense emoções de que é feito o nosso patrimó-nio, dando «olhos a quem não vê, ou seja,[propiciando] através da rádio (um meioque não tem o brilho primário da imagem,que não desnuda como faz a televisão, emque é preciso caminhar para dar a ver) uma experiência cultural. Quero que quem meouve possa ver o que eu estou a ver, possa desfrutar do mesmo espectáculo», diz onarrador dos lugares com história que inte-ressam a memória de todos. «Temos tam-bém um estúdio no Palácio da Ajuda, ondetambém gravamos. Mas gostamos de gra-var nos sítios, de restituir os ambientes.»
A casa grande da cultura
Vilas-Boas é um jornalista experimentado.Especialista em temas religiosos, já viajoumuito, nomeadamente a fazer televisão há trinta anos (durante dez), que foi quandodiz ter ficado a conhecer o país. «Isso deu-me uma outra dimensão, uma ideia real dossítios, das coisas, das gentes, das paredes,das pedras, das memórias.» Um jornalista que andou também pelos cinco continen-tes – viagens que lhe deram a ver um mun-
Joel Costa conduz um programa severamente crítico dos costumes e da cultura deste país.
Autor
Questões de Moral
é o programade autor porexcelência.Tudonele é original eassinado,palavrasque se misturamcom música.
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de dar às pessoas o que elas querem. Como sa-bem o que é? É simples: fazem uns estudos demercado (com uns universos que deixammuito a desejar) às portas dos supermercados,em que perguntam às pessoas o que elas gos-tam de ouvir. Sinceramente não acho nada fiá-vel, é uma mentira estatística, onde não cabeum Tom Waits. Porque é preciso ver que o pro-blema das
playlists
é saber o que lá se põe. Uma
playlist
pode ser recheada de muitas manei-ras.» Diversidade e direito à alteridade queprossegue reclamando para a rádio, fazendodo seu programa um lugar de assumido com-bate. Programa que agora se chama
Viriato 25
,um achado (da autoria da sua mulher) queLuís Montez, responsável pela Radar, semprevisionário, reteve numa lista de várias possibi-lidades de nomes para suceder ao tambéminesquecível
A Hora do Lobo
– nome quanto a ele emprestado de um filme de Bergman, na li-nha da elaboração a que desde sempre Antó-nio Sérgio nos habituou.
Trabalhar para a censura
Ciente de que a diferença seria mais impor-tante se feita numa rádio de espectro na-cional (a Radar emite no éter apenas para Lisboa), Sérgio congratula-se ainda assimpelo alcance da emissão
online
, que trans-forma uma rádio local numa emissora deespectro mundial. Outros tempos, estes emque a internet age também sobre a rádio,muito diferentes daqueles que «o Lobo»conheceu quando nos tempos do
Som da Frente
, na Rádio Comercial, «toda a rádioera uma rádio de autor». Vozes que não ti-nham nada que ver com as da geração an-terior, a que Sérgio chama «os clássicos»,fazendo contudo questão de não os con-fundir com os situacionistas do regime deentão. «Eram homens clássicos por causa da educação que tinham tido, mas isso nãose confundia com as ideias, não eram obtu-sos, embora não se exprimissem, porquehavia, como hoje há de novo, um mecanis-mo de autocensura, que de facto os punha a todos a trabalhar para a censura [
risos
].Para não criar problemas, porque os havia mesmo.» Problemas de um tempo em queà censura funcionária instalada na genera-lidade das redacções se sucederia uma ou-tra, vigiada por pessoas cuja missão era manter as emissoras ao serviço dos ideaisrevolucionários em ebulição. E de que éexemplo uma vez em que, em antena na Rádio Renascença, António Sérgio foi acu-sado de estar a passar música fascista, da autoria de Ravi Shankar... «O ridículo tinha mudado de campo e havia o equivalente àsactuais
playlists
.» Hoje a ideologia é outra eresponde antes de mais a custos. Temposem que um realizador de rádio (designaçãooficialmente pretérita) é cada vez mais umluxo. «Os formatos são mais baratos. Os fi-cheiros de áudio são muito pesados, comose sabe, exigem muita memória, mas a me-mória embarateceu muito. Eu posso hojeem dia programar horas e horas de emis-são, e isso custa muito menos dinheiro doque ter pessoas em antena a serem criati-vas. A questão do custo é fundamental. Masé preciso estar atento às consequências desó fazer assim.» Uma delas determina queos mais jovens não ouçam rádio (nos anosoitenta ouviam-no a ele, às tardes, na Co-mercial), apesar de um indicador audiomé-trico recente ter registado um inesperadocrescimento para o meio rádio em Portugal.
O narrador
MANUEL VILAS-BOAS
Encontros com o Património
– TSF, sábados, ao meio-dia,repete à meia-noite. Emissões
online
:http://tsf.sapo.pt/Programas/Programa.aspx?content_id=918070.
Um lugar claramente educador é tambémo programa
Encontros com o Património
, umprojecto do instituto público que no Minis-tério da Cultura se ocupa da gestão do pa-trimónio arquitectónico e arqueológico(IGESPAR), que desafiou a TSF a realizá-loe a pô-lo no ar. Uma parceria que teve a sor-te de poder contar com o talento de um jor-nalista vocacionado para narrar a história,para a arte e para as viagens. Um viajanteaté mesmo das viagens que ainda não fez,permanentemente a postos, na casa da par-tida onde costumam ser avistados os maiscuriosos de todos. Alguém que encara o pa-trimónio de uma maneira suficientementeabrangente para lá pôr dentro, a um tempo,os edifícios, as paisagens, as gentes, as co-res, os sons, os cheiros. Os monumentosedificados, claro, mas também as históriasde significados plurais que as precederamou lhes sucederam. Um programa que já le-va duas séries a falar de coisas tão diferen-tes quanto a Barra do Tejo, a Lisboa utópi-ca – o património que nunca existiu, o es-tilo arquitectónico do Estado NovoPortuguês Suave, o património culturalimaterial, o património escolar, hospitalar,os espaços de prazer na cidade, etc. Uma parceria que se faz também do contributocientífico de historiadores e arquitectos dodepartamento de inventário, estudos e di-vulgação do IGESPAR (coordenados peloarquitecto Manuel Lacerda), que cada se-mana produzem com Manuel Vilas-Boasum guião, que depois o jornalista mistura de música em contexto, de música do tem-po de que se fala: «A música não pode ser
Emoções
«Quero dar olhosa quem não vê,através da rádio.Quero que quem me ouve possa vere sentir o que eu estou a ver e sentir»
Manuel Vilas-Boas, um jornalista vocacionado para contar a história, a arte, as viagens.
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