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noticiasmagazine
19.JUL.2009
António Sérgio faz parte de uma geração de «realizadores de rádio» agora substituídos por «animadores».
Olobo da frente
ANTÓNIO SÉRGIO
Viriato 25 
–Radar [Lisboa 97.8FM], de segunda a sexta-feira, das 23h00 à01h00. Emissões
online 
:www.radarlisboa.fm.
Dos escritores sugere-se por vezes que escre-vem sempre o mesmo livro, como se se vis-sem de facto impedidos de escrever um ou-tro, suficientemente diferente para que nin-guém desse pela obsessão que os anima.Talvez seja este um padrão (até certo pontoinconsciente), não especificamente literário,mas ainda assim próprio dos autores. Antó-nio Sérgio não pareceu embaraçado com a possibilidade de também ele se dedicar desdesempre a fazer o mesmo programa de rádio.Vamos começar por chamar-lhe
Som da Fren-te
,porque era esse o nome do programa míti-co que nos anos oitenta do século passadotransformou a rádio portuguesa num lugarde vanguarda – mas também porque a músi-ca de que ainda hoje se ocupa é inquestiona-velmente um som que nada deveànostalgia.«Não é o “vira o disco e toca o mesmo”, masacaba de facto por haver uma linha de orien-tação que é sempre a mesma.» Um bolo (as-sim mesmo lhe chama) que aprendeu a con-feccionar, mudando-lhe os ingredientes, deuma forma que,com alguma humildade,con-sidera talvez «um pouco menos científica» doque aquela usada por outros nomes paradig-máticos da sua geração, caso de Ricardo Salóou de Aníbal Cabrita, este último «desperdi-çado» para a continuidade numa TSF domi-nada pelos formatos-espartilho a que Antó-nio Sérgio aponta justamente o dedo.
Direito à diferença
Uma forma cuja ciência reside numa curiosi-dade que não o larga e que noutros tempos fezque fosse «a primeirapessoa a trazer da Ho-landa um exemplar em vinil do
 Boy
dos U2».Um amor pela rádio que se confunde com oamor pela música e que faz que jamais consi-ga ter um disco novo sem querer divulgá-lo.Sentido de missão a que, no espírito do tempo,gosta de chamar
 peer-to-peer,
tal como se dizda tecnologia de partilha de ficheiros atravésda internet. «Claro que a net vulgarizou issomas nos anos oitenta tocar os The Curena rá-dio era uma coisa importante.» Gosta da mú-sica com referências literárias, a que «povoa osonho», a que se faz também do verbo,quecontinua a usar como forma de enriquecer a emissão, de «enriquecer o ouvinte», precisa.Nome maior de uma geração de então deno-minados «realizadores de rádio» – anterioresaos animadores que «não animam ninguém,que aliás desanimam francamente qualquerouvinte minimamente atento e exigente», António Sérgio faz da rádio um sacerdócio deresistência contraos espartilhos «excessivos»que a desvirtuam. «O que as pessoas que advo-gam as
 playlists
defendem (na estrita linha daspolíticas das administrações, claro) é que têm
RÁDIO
Fomos à procura dos«dias da rádio» que resistem aos formatos (amiú-de de génese televisiva) que hoje em dia povoam o espectro radio-fónico,fazendo da rádio uma coisa até certo ponto indistinta da te-levisão e obrigando-nos a todos a ouvir a mesma coisa.
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Ou impe-dindo-nos de ouvir rádio.
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Mundo um pouco paralelo,o dos ouvintesdos quatro programas de autor que honram a história da rádio fei-ta em português.
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Mundo afinal rico de possibilidades – musicais,educativas,culturais,criativas.
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Eaque a internet tornou o aces-so possível a partir de qualquer computador.
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Combate
Hoje,AntónioSérgio faz da rádio um sacerdóciode resistência contra os espartilhos«excessivos» que a desvirtuam.
Heróis
noAr
TEXTO
Sarah Adamopoulos
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FOTOGRAFIA
Rui Coutinho
 
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papel de embrulho, a envolvência da músi-ca tem uma função, a música leva-nos devolta ao tempo, de volta à época de que es-tamos a falar.»
Dar olhos a quem está a ouvir
Um programa gravado nos lugares de quetrata, enchendo-se Vilas-Boas de emoções.Boas, quando por exemplo encontra patri-mónio preservado ou competentementerecuperado. Más quando, ao invés, desco-bre património abandonado, esquecido,incompreensivelmente silenciado. Viajan-do por lugares de boa e má memória, Ma-nuel Vilas-Boas faz na TSF um programa que se quer pedagógico, capaz de levar aogrande público coisas de que não se fala ha-bitualmente na rádio ou que se encontramcircunscritas a universos restritos, acadé-micos por exemplo: «Todos os dias sou sur-preendido pela quantidade de coisas queme são reveladas.» Falando dos programasque já fez como de filhos seus, conta que«aquele que me deu a possibilidade de me-ter o microfone mais fundo» foi o que dedi-cou à Barragem do Picote: «Consentiram-me uma viagem pelo interior e conseguitransportar para a emissão a imensidão,mas também o trágico da existência da bar-ragem, e aquela catedral infinita que está lá por debaixo das águas, tudo isso eu achoque consegui trazer para cima, os ruídos,tudo o que caminha lá por dentro e a que a maioria das pessoas não tem acesso». Umprograma que é tanto mais desafiadorquanto um dos seus pressupostos é justa-mente conseguir traduzir por palavras esons a quantidade avassaladora de imagense emoções de que é feito o nosso patrimó-nio, dando «olhos a quem não vê, ou seja,[propiciando] através da rádio (um meioque não tem o brilho primário da imagem,que não desnuda como faz a televisão, emque é preciso caminhar para dar a ver) uma experiência cultural. Quero que quem meouve possa ver o que eu estou a ver, possa desfrutar do mesmo espectáculo», diz onarrador dos lugares com história que inte-ressam a memória de todos. «Temos tam-bém um estúdio no Palácio da Ajuda, ondetambém gravamos. Mas gostamos de gra-var nos sítios, de restituir os ambientes.»
A casa grande da cultura
Vilas-Boas é um jornalista experimentado.Especialista em temas religiosos, já viajoumuito, nomeadamente a fazer televisão há trinta anos (durante dez), que foi quandodiz ter ficado a conhecer o país. «Isso deu-me uma outra dimensão, uma ideia real dossítios, das coisas, das gentes, das paredes,das pedras, das memórias.» Um jornalista que andou também pelos cinco continen-tes – viagens que lhe deram a ver um mun-
Joel Costa conduz um programa severamente crítico dos costumes e da cultura deste país.
Autor
Questões de Moral
é o programade autor porexcelência.Tudonele é original eassinado,palavrasque se misturamcom música.
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de dar às pessoas o que elas querem. Como sa-bem o que é? É simples: fazem uns estudos demercado (com uns universos que deixammuito a desejar) às portas dos supermercados,em que perguntam às pessoas o que elas gos-tam de ouvir. Sinceramente não acho nada fiá-vel, é uma mentira estatística, onde não cabeum Tom Waits. Porque é preciso ver que o pro-blema das
 playlists
é saber o que lá se põe. Uma 
 playlist 
pode ser recheada de muitas manei-ras.» Diversidade e direito à alteridade queprossegue reclamando para a rádio, fazendodo seu programa um lugar de assumido com-bate. Programa que agora se chama 
Viriato 25
,um achado (da autoria da sua mulher) queLuís Montez, responsável pela Radar, semprevisionário, reteve numa lista de várias possibi-lidades de nomes para suceder ao tambéminesquecível
 A Hora do Lobo
– nome quanto a ele emprestado de um filme de Bergman, na li-nha da elaboração a que desde sempre Antó-nio Sérgio nos habituou.
Trabalhar para a censura
Ciente de que a diferença seria mais impor-tante se feita numa rádio de espectro na-cional (a Radar emite no éter apenas para Lisboa), Sérgio congratula-se ainda assimpelo alcance da emissão
online
, que trans-forma uma rádio local numa emissora deespectro mundial. Outros tempos, estes emque a internet age também sobre a rádio,muito diferentes daqueles que «o Lobo»conheceu quando nos tempos do
Som da Frente
, na Rádio Comercial, «toda a rádioera uma rádio de autor». Vozes que não ti-nham nada que ver com as da geração an-terior, a que Sérgio chama «os clássicos»,fazendo contudo questão de não os con-fundir com os situacionistas do regime deentão. «Eram homens clássicos por causa da educação que tinham tido, mas isso nãose confundia com as ideias, não eram obtu-sos, embora não se exprimissem, porquehavia, como hoje há de novo, um mecanis-mo de autocensura, que de facto os punha a todos a trabalhar para a censura [ 
risos
 ].Para não criar problemas, porque os havia mesmo.» Problemas de um tempo em queà censura funcionária instalada na genera-lidade das redacções se sucederia uma ou-tra, vigiada por pessoas cuja missão era manter as emissoras ao serviço dos ideaisrevolucionários em ebulição. E de que éexemplo uma vez em que, em antena na Rádio Renascença, António Sérgio foi acu-sado de estar a passar música fascista, da autoria de Ravi Shankar... «O ridículo tinha mudado de campo e havia o equivalente àsactuais
 playlists
.» Hoje a ideologia é outra eresponde antes de mais a custos. Temposem que um realizador de rádio (designaçãooficialmente pretérita) é cada vez mais umluxo. «Os formatos são mais baratos. Os fi-cheiros de áudio são muito pesados, comose sabe, exigem muita memória, mas a me-mória embarateceu muito. Eu posso hojeem dia programar horas e horas de emis-são, e isso custa muito menos dinheiro doque ter pessoas em antena a serem criati-vas. A questão do custo é fundamental. Masé preciso estar atento às consequências desó fazer assim.» Uma delas determina queos mais jovens não ouçam rádio (nos anosoitenta ouviam-no a ele, às tardes, na Co-mercial), apesar de um indicador audiomé-trico recente ter registado um inesperadocrescimento para o meio rádio em Portugal.
O narrador
MANUEL VILAS-BOAS
Encontros com o Património 
– TSF, sábados, ao meio-dia,repete à meia-noite. Emissões
online 
:http://tsf.sapo.pt/Programas/Programa.aspx?content_id=918070.
Um lugar claramente educador é tambémo programa 
 Encontros com o Património
, umprojecto do instituto público que no Minis-tério da Cultura se ocupa da gestão do pa-trimónio arquitectónico e arqueológico(IGESPAR), que desafiou a TSF a realizá-loe a pô-lo no ar. Uma parceria que teve a sor-te de poder contar com o talento de um jor-nalista vocacionado para narrar a história,para a arte e para as viagens. Um viajanteaté mesmo das viagens que ainda não fez,permanentemente a postos, na casa da par-tida onde costumam ser avistados os maiscuriosos de todos. Alguém que encara o pa-trimónio de uma maneira suficientementeabrangente para lá pôr dentro, a um tempo,os edifícios, as paisagens, as gentes, as co-res, os sons, os cheiros. Os monumentosedificados, claro, mas também as históriasde significados plurais que as precederamou lhes sucederam. Um programa que já le-va duas séries a falar de coisas tão diferen-tes quanto a Barra do Tejo, a Lisboa utópi-ca – o património que nunca existiu, o es-tilo arquitectónico do Estado NovoPortuguês Suave, o património culturalimaterial, o património escolar, hospitalar,os espaços de prazer na cidade, etc. Uma parceria que se faz também do contributocientífico de historiadores e arquitectos dodepartamento de inventário, estudos e di-vulgação do IGESPAR (coordenados peloarquitecto Manuel Lacerda), que cada se-mana produzem com Manuel Vilas-Boasum guião, que depois o jornalista mistura de música em contexto, de música do tem-po de que se fala: «A música não pode ser
Emoções
«Quero dar olhosa quem não vê,através da rádio.Quero que quem me ouve possa vere sentir o que eu estou a ver e sentir»
Manuel Vilas-Boas, um jornalista vocacionado para contar a história, a arte, as viagens.
 
lhão torrencial de palavras escritas para se-rem ditas pelo próprio - parecem cantadas,e em certa medida são-no, porque JoelCosta é, como gosta de dizer, «um funcio-nário vocal» do coro do Teatro de São Car-los. Palavras misturadas com música mui-tas vezes absolutamente referenciada, es-colhida a dedo pelo autor-demiurgo,homem culto formado na grande música, eque não gosta que lhe chamem locutor– reivindicação legítima de quem, porqueé um autor, não será efectivamente um lo-cutor ( 
Questões de Moral
é o programa deautor por excelência, tudo nele é autoral –original e assinado). Escolhas musicais emque toma as liberdades de quem emite na estação erudita, usando Tristão e Isolda para falar de droga ou Don Pasquale para falar do Viagra – «é a história de um velhoque quer casar com uma rapariga nova...»
Uma moral para hoje
Programas esdrúxulos, de um autor-escri-tor «sem confraria» (não pertencendo se-quer à chamada «irmandade da rádio»),surpreendentemente bem escritos, por al-guém habituado a manejar as palavras e a pensar nelas. «Tudo começou com a pala-vra 
Questões
. Eu já tinha feito um outroprograma, chamado
Questões de Família
,que girava em torno das óperas – um dia deipor mim a pensar que a maior parte dashistórias das óperas (e não só, também asdas tragédias, as do teatro, como por exem-plo a de
 Hamlet)
eram todas questões de fa-mília. Nas óperas de Verdi também é assim,ele tem aliás uma fixação nas questões en-tre os pais e as filhas. Um dia esse programa acabou e pediram-me que fizesse outro.Pensei então que precisava de um concei-to em que coubesse tudo, e foi assim quecheguei à palavra 
Moral
. Mas não a moraldos costumes, antes a moral entendida co-mo ética, sim. Porque todas as questões sãoquestões de moral. A lei cobre muita coisa,mas e os aspectos éticos? Os do BPN estãocobertos pela legalidade, mas estarão pela moral? Uma moral para hoje», eis no quetentou centrar-se o autor de um programa verdadeiramente fora do baralho, por to-das as razões: as estéticas, que definem umprograma realmente diverso dos formatosradiofónicos a que estamos habituados,mas também as éticas, que determinaramque Joel Costa se detivesse demoradamen-te na elaboração do seu programa, consi-derando no processo a questão da nature-za daquilo a que hoje em dia chamamosmoral. Uma moral dinâmica, aliás cada vezmais, considerou, «com a alteração de uma lógica económica e financeira que enfor-mava o nosso
modus vivendi
», e que trans-formou «os gestores, os administradores,os banqueiros, os ministros, os políticos,
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Escolhas
«Posso usarTristãoe Isolda parafalar de droga ouDon Pasquale parafalar do Viagra – ahistória de um velhoque quer casarcom uma jovem...»
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do muito maior e mais rico de possibilida-des do que aquelas que podemos entreverda nossa localidade. Viagens que lhe ensi-naram que «a cultura é uma casa grande,que não pode ser afunilada, reduzida», eque não deve jamais ser esquecida. «Essa casa grande também é dos jornalistas, ape-sar de por vezes parecer que olham para ela como uma casa ressequida, desprovida defuturo. O que quero dizer com isto? Que os jornalistas, nas redacções, estão menosatentos, que há menos olhos, menos gentevirada para a cultura. É como se a cultura ti-vesse saído das redacções, que estão actual-mente demasiado preocupadas em cum-prir as agendas da actualidade. Mas é pre-ciso que sejamos capazes de surpreender,de mostrar o que não está à vista, de mos-trar o que não se vê. Um programa de rádiocomo este é mais do que comunicaçãooral.» Informação com espessura, que re-quer tempo e pesquisa laboriosa para po-der ser aprofundada, e assim tocar o públi-co. Informação que nada tem que ver como enorme saco das irrelevâncias para ondea marcha veloz do mundo tudo remete,severamente crítico, dizendo na Antena 2 oque muitos pensam. Mas nem só, porque a Joel Costa interessa o mundo inteiro e tu-do o que nele acontece. E por isso, para além de assuntos como as amarguras deMarcelo Caetano no exílio, os autos da PIDE ou «o viver fascista», o autor tambémse atarda amiúde sobre questões que inter-pelam o comum dos humanos, qualquerum mesmo se não português. Questões co-mo «A economia e as finanças como gran-des produtores mundiais de ironia», porexemplo. Coisas ditas na rádio num turbi-num registo de superfície que nada deveàquela que é sem dúvida uma das funçõesdo jornalismo: narrar o seu tempo comouma realidade mais vasta, feita também dememória: «A cultura é vista como um pa-rente pobre, algo que fica à margem. Quan-do a crise financeira aperta, a cultura é umdos primeiros alvos a abater.»
Desassombro
JOEL COSTA
Questões de Moral 
– RDPAntena 2, segunda-feira, às 13h15 e às 23h00.Emissões
online 
: http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?prog=1091.
28 de Maio de 1926: um golpe militar ins-taurava em Portugal uma ditadura que du-raria quase meio século e transformaria um pequeno país europeu num lugar ana-crónico, marcado pela estranheza, indife-rente à marcha do mundo. País actual ain-da profundamente contaminado por prin-cípios a que alguns chamam «quistosos»(como o chico-espertismo, a que o filósofoJosé Gil vem de dedicar um livro), inscri-tos na cultura da sua sociedade, e a que JoelCosta, autor e apresentador do programa de rádio
Questões de Moral
dedica um olhar
Moral
«Precisava de umconceito em quecoubesse tudo echeguei à palavra“moral”.Mas não ados costumes,antesa que é entendidacomo ética.»

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