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noticiasmagazine
30.AGO.2009
que em Portugal nos embaraçam a vida? Co-mo atulhar os despenhadeiros que por vezesseparam as margens dos nossos rios (...)? Nis-so e mais o holandês é de facto filho mimadodo Senhor. Enquanto nós, verdadeiramenteaflitos, ainda lhe rogamos o pão-nosso de ca-da dia, ele há muito que dispensa o Altíssimopara a cura dessas misérias.»
Livro-espelho
Sem frio nos olhos (como dizem os francesesde quem nada teme), o cronista aventura-se bravamente por domínios idiossincráticos(movediços como o chão dos holandeses) edestapa alguns dos múltiplos véus que co- brem a sociedade holandesa contemporânea de uma insuspeitada estranheza. Nunca a Ho-landa havia sido assim narrada, com a acuti-lância e a justeza de quem afinal a conhece co-mo poucos – Rentes de Carvalho vive e traba-lha lá desde os anos cinquenta. Um país comotodos cheio de contradições, mas a que o olharamoroso do autor confere renovadas proprie-dades – para os seus habitantes, que desde quefoi publicado nos anos setenta esgotam suces-sivas edições deste livro, como para quempouco conhece os holandeses, como esta vos-sa escriba, que apesar de lá ter nascido e vivi-do, ter sido falante do neerlandês, recebido pe-los natais presentes do Sinterklaas e do seuajudante Zwarte Piet, comido arenques cruspelas vielas, passado momentos felizes a pati-nar no gelo e a andar de trenó pelas ruas de Ro-terdão, pouco sabe dos holandeses. Bem medizia a minha portuguesa mãe que não eramde fiar – recordo-me dela a apontar o dedo aosusos e costumes de uma cultura demasiado di-versa da sua, mundo bizarro de gente que ta-pava e voltava a guardar a lata dos biscoitosimediatamente depois de todos terem tiradoo respectivo primeiro... De gente que se deita-va e levantava com as galinhas, e cujas casasreflectiam o aprumo aborrecido das suas vi-das, tão distantes do que uma meridional po-dia conhecer e sem demoras gostar.Um país a que a publicação de
Com os Holan-deses
prestou um serviço de valor inestimável.Livro-espelho, reflector das coisas humana-mente observáveis, através das perplexidadesde um autor cuja escrita saborosa Saramago já recenseara na Seara Nova em 1968, referindo--se a Rentes de Carvalho como alguém quenos dá «o quase esquecido prazer de uma lin-guagem em que a simplicidade vai de par coma riqueza, (...), que decide sugerir e propor, emvez de explicar e impor.» Uma escrita que opróprio, certa vez indagado a propósito, des-creveu como franca, «sem lindezas nem arre- biques, e chamando as coisas pelo seu nome.»Modéstias sobre uma escrita maior do que is-so, cujas qualidades literárias são evidentesnestas crónicas holandesas.
Caução de Balkenende
Com os Holandeses
, um
best-seller
na Holanda desde a sua publicação em 1972, inúmeras ve-zes reeditado naquele país, foi citado pelo pri-meiro-ministro holandês Jan Peter Balke-nende num discurso ao comissário europeuDurão Barroso em que concedeu que «o po-vo holandês não é propriamente conhecidocomo um povo de sonhadores. Podemos verisso claramente na maneira como outros nosdescrevem. Caso do seu conterrâneo, o escri-tor J. Rentes de Carvalho, cujo retrato dos ho-landeses não é lisonjeador». Povo de genteque Balkenende aceita como desprovida da visão iluminada dos sonhadores, esvaziada de ideais exaltados, gente desapaixonada,frugal, conservadora, gente chata, afeita à or-dem e à limpeza imaculada de tudo. «Venhamver Roterdão, Amesterdão, Vlissingen, Kat- wijk-aan-Zee», escreveu Rentes de Carvalho.«Enormes ou minúsculos, pouco importa: omais pequeno parafuso está pintado, não há chaminé por colorir, engrenagem por olear,cabo mal enrolado, convés à espera de esfre-ga, porta que chie, cais a ameaçar ruína. On-de, senão aqui, se encontrarão montes de su-cata alinhados como estes?» Gente cuja úni-ca paixão é a incessante invenção de novasregras. Gente ainda por cima com maneirasque deixam muito a desejar, prosseguiu Bal-kenende. E também sobre a «bruteza» dosholandeses Rentes de Carvalho não poupouem
Com os Holandeses
:«Quem como eu fre-quenta os eléctricos, os autocarros, os com- boios, e de vez em quando se encontra cerca-do de multidão, há-de ter-se dado conta deque o holandês, e, menos previsível, a holan-desa, parecem utilizar o corpo com o mesmofito com que os guerreiros antigos se serviamdas armas de arremesso ou dos aríetes.»
Quanto mais me bates
Curioso exercício de retórica política, o doprimeiro-ministro holandês dirigindo-se aopresidente da Comissão Europeia, a que a perspicácia e o talento do cronista de costu-mes conferiram insuspeitadas qualidades in-trospectivas. Porque, lembrou Balkenende,as pessoas aceitam certas coisas dos escrito-res que jamais aceitariam vindas dos políti-cos. Palavras inesperadas, estas de um gover-nante sobre o seu próprio povo, cuja única ap-tidão redentora será a capacidade para se rirde si próprio. História de amor também, a quehá várias décadas decorre entre Rentes deCarvalho e os holandeses, terna guerra comoa que opõe o gato ao rato, e cujo momento ful-gurante será o instante em que o primeiro re-tira momentaneamente a pata do minúsculodorso do segundo, tal como descreveu BorisVian: «[Nesse instante o rato] fica imóvel, nãoprocurando sequer fugir, e a patada que se se-gue é mais ligeira do que uma carícia – uma carícia de amor, o amor da vítima pelo seu car-rasco, amor de certa forma retribuído.» E na conclusão do espantoso discurso, Balkenen-de volta a citar Rentes de Carvalho a propósi-to de uma entrevista em que o escritor (re)co-nhecido por desancar os holandeses conse-
«É facto, como sucede nos paresmal irmanados,
que o holandês e euvivendo juntos e abaixo do nível do mar (...)continuamos a compreender-nos mal.Não que tenhamos brigas ou nos olhemoscom excessiva desconfiança, bem aocontrário, mas simplesmente porque maugrado alguma boa vontade de parte aparte, parece não querer saltar entre nósaquela faísca que gera as simpatiaspermanentes. – Mas como é issopossível? – imagino-o a perguntar, com asurpresa de um cônjuge que se sentetraído. Eu gosto da Holanda. Não souinsensível ao arrumo, à eficiência, aosdireitos, à correcção, às certezas, confor-tos e seguranças que ela me oferece.Gosto da Holanda mesmo naquilo em queela diametralmente se opõe a outrassimpatias minhas, como por exemplo apaisagem. Homem de montes, não meposso apaixonar pela assustadoraplanura do pólder, onde outros respiramlivremente mas que a mim asfixia. Osmeus olhos precisam de esbarrar contraencostas, alegram-se ao seguir as curvasdas serranias, anseiam por imaginar ohorizonte que se esconde. Devoconfessar que o pólder impressiona, temgrandeza e embora de maneira bemdiferente da das montanhas igualmenteme esmaga com a sua imponência,tornando-me mais diminuto do que sou,mais vulnerável aos mistérios que amea-çam. Se não o fosse tornar-me-ia crenteao caminhar pelas veredas rectilíneas einfinitas que cortam a planura, com umhorizonte que a cada passo mais seafasta, a provar a inutilidade de todas as jornadas, as do corpo como as do espírito.E ao horizonte de terra sucede-se o domar, igualmente sem fim. Existe na línguaportuguesa uma palavra, “saudade”,estranha, intraduzível. Os portugueses,que recebem esse baque logo ànascença, vêem a sua vida regida poresse sentimento, chegando alguns aoextremo de sentir saudade da saudade, oque lhes ocasiona mudanças repentinasde humor, fazendo-os passar sem avisoda alegria intensa à melancolia profunda.Outros, igualmente complicados, nãopodem evitar sofrer já hoje de saudadeque só no futuro deveriam sentir. A essaúltima categoria pertenço eu. E assim meverão palmilhar as ruas de Amesterdãosem razão nem destino, envolto pelaturba que passa, ou meter pelos atalhos eas estradas da província, parando nosmolhes, subindo aos diques, caminhandolongamente pelas praias e pelos bosques.A temer o momento em que, longe daHolanda, ela se torne para mim umasaudade.»
Sem encostas
nem serranias
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