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entrevista
Frota Branca
Na Primavera de 1966,o canadiano Wayne Ralphfotografou um grupo de pescadores portugueses cujonavio bacalhoeiro estava atracado no porto de St.John’s,capital da Terra Nova.No final de 2008,essasfotografias foram publicadas na
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e um desses homensdescobriu-se nelas com 18 anos.No Verão de 2009,WayneRalph veio a Portugal expor essas imagens a convitedo Museu Marítimo de Ílhavo e no dia da inauguraçãoreencontrou-se com o pescador.Aqui se narra essereencontro,numa conversa em que foi também questãoa história comum de dois países unidos pelo bacalhau.
ENTREVISTA
Sarah Adamopoulos
¬
FOTOGRAFIA
Rui Coutinho
Contámos parte desta história na
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de 14 deDezembro de 2008, quando publicámos algu-mas das fotos que fez dos pescadores portu-gueses no porto de St. John’s, capital da TerraNova, em 1966. Um deles foi reconhecido porum parente, que lhe ofereceu a revista pelo Na-tal, provocando uma vaga de memórias e emo-ções. Quer contar o que aconteceu entretanto?
Em Janeiro deste ano recebi um
e-mail
do fi-lho desse ex-pescador dizendo-me que o paise tinha visto na revista (nessas imagens eletinha 17 anos) e chorado (o que o filho nun-ca o vira fazer). Nesse
e-mail
o pai agradecia-me por tê-lo fotografado. Eu ignorava atéesse momento o nome desse pescador, co-mo os dos outros que fotografei. O próprionome do navio em que seguiam apenas osoube por essa altura, depois de digitalizaras imagens e de as ampliar de modo a tentarcolher elementos identificativos. António(o pescador de que temos estado a falar) era o elemento mais novo da tripulação do
 Dom Denis
nessa campanha. Tínhamossensivelmente a mesma idade quando o fo-tografei no porto de St. John’s. Eu morava perto do porto, e nesse dia andava por ali a passear. Era um dia de sol, nessa Primave-ra de 1966 (algures entre Abril e Junho) eeu tinha estado a tirar algumas fotografias.Conforme me fui aproximando, os pesca-dores portugueses começaram a repararem mim e um deles sorriu e cumprimen-tou-me gestualmente – e embora não falas-se inglês, convidou-me para subir a bordo.Foi ele o homem que me deu a sua morada,que eu perdi, mas lembro-me de ver escri-to Aveiro. Foi também ele quem me serviude modelo, e subiu ao mastro, para que o fo-tografasse. Havia outros homens, mas es-tavam ocupados, tinham trabalho para fa-zer, alguns estavam a cozinhar o almoço,outros estavam a remendar redes.
Fosse como fosse, estava habituado a ver osportugueses por ali, no porto de St. John’s, anoapós ano – escreveu isso mesmo na narrativade memórias que está a preparar.
Essas memórias que guardei dos portuguesesna Terra Nova só mais recentemente se trans-formaram em textos. Seja como for, prometia esse rapaz de Aveiro que lhe enviaria as fo-tografias, o que nunca cheguei a fazer. Fiqueicom essas imagens para mim – imagens quesempre considerei muito interessantes, portodas as razões, incluindo as técnicas: a luz, oenquadramento, e até a qualidade do filme,que era um Panatomic da Kodak, de exposi-ção longa. Temos de lembrar-nos de que nes-sa altura tudo era feito manualmente, a foca-gem, a medição da luz, tudo.
Nessa altura, quando os portugueses faziamparte da paisagem humana de St. John’s, re-corda-se ou não de ser capaz de distingui-losdos outros pescadores?
 
Não, ignorava tudo isso na altura. Apenas sa-bia que havia acordos internacionais relati-vos aos bancos de bacalhau da Terra Nova.Quando fotografei António e os outros pes-cadores portugueses ainda não havia restri-ções, a lei de protecção do nosso mar ainda não tinha entrado em vigor.
Houve um momento em que as autoridades ca-nadianas pediram ao Estado português queparasse de pescar aquelas quantidades enor-mes de bacalhau nas vossas águas. Mas Sa-lazar fez ouvidos moucos e mediante acçõesdiplomáticas conseguiu continuar a mandaros portugueses ao bacalhau da Terra Nova – eisso durou até 1974.
Eu não sabia nada disso naquela altura. Osportugueses interessavam-me porque a sua frota era inigualável em beleza e romantismo,interessavam-me os navios e os homens, por-que levavam aquela vida duríssima, embora por vezes tivessem a minha idade, e isso toca-va-me. Eu nem sequer sabia que em Portugalvigorava uma ditadura. Apenas nos interessa-vam os astronautas, a ida à Lua, a guerra-fria.Sabia da existência de Franco e da guerra deEspanha porque lera Hemingway. Lera tam-bém os livros de espiões, Ian Flemming, e sa-bia que havia uma cidade chamada Lisboa,uma cidade romântica que albergara espiõesdurante a Segunda Guerra Mundial, e vi o fil-me
Casablanca
. Quando entrevistei pilotos deguerra para um livro meu sobre os aviadoresmilitares da Segunda Guerra Mundial, uma das coisas mais espantosas que todos me con-taram foi que quando estavam a regressar da guerra, vindo pelo Mediterrâneo, iam para Inglaterra por Gibraltar, sobrevoando Lis-boa, e todos achavam incrível que estivesseiluminada de noite, enquanto outras cidadeseuropeias estavam na mais cerrada escuri-dão, que era ao que estavam habituados. Demodo que sobrevoar Lisboa era como passarpor Hollywood, a vossa capital tinha essa au-ra. Há um ensaio num livro que saiu recente-mente sobre os portugueses no Canadá [ 
The Portuguese in Canada – Diasporic Challengesand Adjustment 
, coordenado por Carlos Tei-xeira e Vítor M.P. da Rosa, University of To-ronto Press, 2009] que fala dos portuguesescomo sendo gente da Terra Nova – porquenão eram olhados como os outros estrangei-
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Os navios dos portugueses eram diferentes detodos os outros, eram os únicos que eram ve-leiros, de três ou quatro mastros, enormes,com aquelas velas lindíssimas e aquele char-me que os outros não tinham. E eram bran-cos, por causa da Segunda Grande Guerra, oque eu não sabia à época [os navios bacalhoei-ros portugueses foram mandados pintar debranco pelo Estado-Maior Naval na sequên-cia de ataques alemães a lugres da nação«neutral» no alto-mar]. A White Fleet era úni-ca. Podíamos ver esses navios quando o tem-po estava mau, pois eles procuravam abrigono porto, onde ficavam até o tempo melhorar.Quando a White Fleet chegava íamos todosver os seus navios. Da minha secretária da es-cola conseguia vê-los pela janela.
Até que ponto essas vivências de infância e juventude na Terra Nova explicam as suas es-colhas profissionais? Antes de se tornar umfotógrafo e escritor a tempo inteiro foi piloto--instrutor militar, mais tarde piloto comercial,profissões aventurosas...
Há na minha família uma longa história re-lacionada com as profissões do mar. Na ver-dade, a única excepção foi o meu pai, que setornou militar. E eu cresci num mundocheio de uniformes militares, dominado pe-la possibilidade da guerra. Mas, porque tiveuma educação (ao contrário do meu pai queabandonou a escola, e do meu avô, que era pescador de bacalhau, e dos meus tetravôs,que eram capitães de veleiros), não fui obri-gado a ir para o mar. Tornei-me piloto mili-tar por opção minha. Aos 12 anos sabia queia ser piloto. Mas se o meu pai tivesse sidoum homem do mar é provável que eu tam-bém fosse. António, o ex-pescador que ago-ra reencontrei, foi para o mar com 8 anos. Na Terra Nova há muitas pessoas como ele, pes-soas da minha geração que não estudaram eque foram para o mar ainda quase crianças.Tal como os portugueses que eu via a jogarfutebol em St. John’s, e que ganhavam sem-pre os jogos, eram muito bons jogadores.
BI
Wayne Ralph nasceuem St. John’s, Terra Nova,em Junho de 1946, no seiode uma família de militarese gente do mar. Instrutorde aviação militar na ForçaAérea Canadiana,foi também piloto, editorde publicações especializa-das na área da aviação etransportes aéreos e aindao responsável pela cátedrado Departamento deEstudos Estratégicos deDefesa Nacional da Univer-sidade de Calgary. Biógrafodo mais condecorado avia-dor militar canadianodurante a Segunda GuerraMundial (William Barker,sobre quem escreveu umaobra inúmeras vezespremiada), Wayne Ralphé também o autor de
Aces,Warriors & Wingmen 
,um laborioso trabalhode pesquisa sobre a vidae os feitos de mais de umacentena de veteranos daaviação militar canadiana.Fotógrafo e escritor, temactualmente em mãosum projecto sobre a históriarecente das gentes da TerraNova, no qual os portugue-ses da Frota Brancabacalhoeira serão protago-nistas (
Newfoundlanders – A Native Son in Search of His Past and the New Newfoundland 
).A edição está previstapara 2010.
ve um olhar compreensivo relativamente a esses constrangimentos dos portugueses,que de resto eram muito bem-parecidos e ti-nham muito sucesso com as raparigas. Sabía-mos, ainda, que os portugueses eram os quetrabalhavam com menos condições. A pesca do bacalhau era dura para todos, mas para osportugueses era-o ainda mais. Isso fazia de-les heróis absolutos, tal como vem explicita-do no famoso livro de Alan Villiers [ 
 A Campa-nha do Argus
, uma edição da Cavalo de Ferro].
Sabia, na altura, o contexto em que os portu-gueses eram recrutados para essas pesca-rias na Terra Nova? Sabia que a pesca do ba-calhau na sua terra fazia parte de um programaeconómico de regime? Sabia que a pesca dobacalhau foi o eixo da economia de abasteci-mento nacional dirigida por Salazar?Como os distinguia dos espanhóis ou dos mar-roquinos, que também jogavam futebol quan-do estavam atracados?
Os portugueses tinham roupas distintivas,feitas à mão, os pescadores da Frota Branca vestiam-se de maneira diferente dos outros.E isso é visível também nas minhas fotos de1966 – numa delas há um conjunto de ho-mens vestidos com roupas compradas em lo- jas, blusões como os dos homens da marinha mercante. Os pescadores portugueses nãovestiam roupas dessas. A probabilidade de es-ses homens serem portugueses era baixa.
Gente da Terra Nova
Como explica as relações tão excepcionalmen-te amistosas entre os portugueses da FrotaBranca e os seus conterrâneos?
Quando eu era miúdo e via os portuguesessempre por ali, no porto de St. John’s, eu sabia que tinham sido eles a encontrar-nos, na es-cola aprendi que o primeiro descobridor a en-contrar a Terra Nova foi Gaspar Corte-Real,um português. Por outro lado, sempre foimuito claro para mim que os portugueses queparavam em St. John’s eram os mais pobresde todos. Eram sempre avistados a andar pe-las ruas em grupos, olhando para as montrasdas lojas, hesitando em comprar. Tal como orapaz que eu descrevi na história publicada em Dezembro passado, que não tinha dinhei-ro para comer um
banana-split 
e ficou a ver--me comer o meu. Os portugueses tinhamquando muito dinheiro para beber uma cer-veja, mas não para pagar uma refeição ouuma sobremesa cara. Penso que sempre hou-
Navios
«Os dos portugueseseram diferentes detodos os outros,enormes,com velaslindíssimas e umcharme que osoutros não tinham.E eram brancos.»
Comoção
«Há traumasassociados às viagens.Para António foiemotivo,houve uma quantidade impres-sionante de memórias que emergiram.»
ros. Se for falar com polícias que trabalhavamnessa altura, eles dir-lhe-ão que os portugue-ses eram os que menos conflitos provocavam,os que raramente iam para a prisão. Já os es-panhóis andavam de facas e entregavam-se a lutas que por vezes os levavam para os nossoshospitais. Os únicos portugueses que podía-mos encontrar nos hospitais eram os que ti-nham sido vitimados por incêndios a bordodos navios.
Memórias sentidas
Voltemos a esse encontro inacreditável entresi e o pescador que fotografou na Terra Novaem 1966. Quais são os seus significados, e osdesta sua vinda a Portugal?
Posto de uma forma simples: passei anos eanos a pensar que devia ter enviado as foto-grafias a esse outro pescador, o homem queera de Aveiro e me deu a sua morada. Sempreme senti um pouco culpado por não o ter fei-to, senti remorsos por não ter sido mais con-sequente. Quando o filho de António me dis-se que o pai gostaria muito de me reencon-trar, fiquei a pensar que também eu queria muito esse reencontro. Mas não sabia ondepoderia vir a ter lugar. Foi então que em mea-dos de Junho passado recebi um
e-mail
do di-rector do Museu Marítimo de Ílhavo, ÁlvaroGarrido, a convidar-me para expor em Ílhavoessas fotografias tiradas em 1966. Decidi vir,não só para a inauguração da exposição, mastambém para reencontrar esse antigo pesca-dor, o que aconteceu no dia 8 de Agosto, nomuseu. António apareceu com toda a sua família. Foi um momento inesquecível. AtéJaneiro passado eu nem sequer sabia o no-me dele, ele era apenas alguém que eu foto-grafara 43 anos antes em St. John’s, mas querepresentava todos os portugueses que euconhecera durante a minha infância e ju-ventude na Terra Nova. Ele não fala inglêse eu não falo português, mas isso não teveimportância alguma.
Sei que depois passou alguns dias no local on-de vive o antigo pescador e a sua família.
Passei três dias com a família de António. Ti-ve oportunidade de conhecer outras pes-soas, antigos pescadores nomeadamente,que aliás não acreditavam que tinha sido euo autor daquelas imagens [ 
risos
 ]! Felizmen-
 
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te trouxe os negativos, em que há tambémoutras fotografias, de mim jovem, do meucão na altura, do carro do meu pai, dos meuscolegas de escola... O que mais me impres-sionou foi ver o quanto guardam St. John’sno coração. Todos eles ficam muito senti-mentais quando falam desses tempos na Terra Nova. Lembram de forma muito vívi-da e emotiva essa época em que passavampor vezes vários dias em St. John’s.
Para eles você é a representação da Terra No-va e do seu povo, que os acarinhou ao longo detodos esses anos de campanhas bacalhoeiras.
Exactamente. Alguns ficaram com os olhoscheios de lágrimas, e começaram a falardesses outros homens nas fotografias, inda-gando o que lhes teria acontecido, quem es-taria ainda vivo.
Sei que alguns desses pescadores retratadosnas suas fotografias de 1966 foram reconhe-cidos e que alguns são da mesma zona. Por-que não os encontrou?
Creio que não estavam interessados nessereencontro.
Talvez queiram esquecer. Há uma memória re-calcada desses tempos, seguramente devidoà sua dureza. Tal como acontece com comba-tentes da guerra colonial.
Penso que há traumas associados a essaslongas viagens. Para António foi muito emo-tivo, houve uma quantidade impressionan-te de memórias que emergiram. Talvez es-ses outros homens não quisessem vivenciarisso. Talvez queiram esquecer, sim. Faleicom um capitão aposentado, um homemcom uma grande experiência, que começounos dóris, e ele reafirmou-me a dureza des-sas pescarias. António contou-me que quan-do estavam em St. John’s e chovia se lavavamdebaixo dessa chuva. Nos navios, havia pou-ca água, e eles lavavam-se numa pequena quantidade de água, que servia também pa-ra fazerem a barba, e que no final bebiam! António contou-me que, quando estavamem St. John’s, por vezes iam ao Hotel New-foundland, que era um hotel para homensde negócios, um lugar caro e onde havia umcódigo de indumentária. Os portuguesespor vezes iam lá beber uma cerveja, de gra-vata e com as suas melhores roupas, com osseus fatos a cheirar a naftalina, e bebiamuma cerveja que faziam durar o serão todo.
Saudade das campanhas
O que vai fazer com esta experiência, esta via-gem a Portugal, estes reencontros?
 Ainda não sei. Há mais do que uma dimensãoa considerar, por um lado, uma questão maispessoal, de busca identitária, de querer saberpor que razão quero escrever, ser um escritor.Por outro, há um desejo de documentar uma história que é comum. A vida de António, opescador português que acabei de reencon-trar pessoalmente, é muito diferente da dosseus filhos. Ele passou de uma vida dura co-mo poucas para uma vida pautada pelo con-forto
standard
da actual classe média. A filha de António tem uma formação universitária e o seu filho tem um trabalho especializadofora de Portugal. Isso é também o que fazemos filhos da Terra Nova que querem melho-rar o seu nível de vida: sair do país para traba-lhar. O que quero dizer é que as pessoas dasclasses médias, que agora estão no pico dassuas vidas activas, são todas filhas de um An-tónio. Em quarenta anos, o mundo mudou
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manipulada através de encenações da propa-ganda que os comparavam aos marinheiros deQuinhentos.
Isso reflectia-se na vida das populações. Na terra de António as raparigas sabiam quemeram os melhores pescadores, e era com elesque queriam casar. António era bem visto pe-las mulheres, a sua própria mulher mo disse.Ser um pescador da Frota Branca era o máxi-mo. Em
 A Campanha do Argus
, de Villiers, há uma personagem que é o mau pescador, e to-dos troçam dele, porque todos os dias saía demanhã para a pesca e voltava com cinco ouseis bacalhaus, o que fazia dele um zero à es-querda a todos os níveis. Talvez isso tivesseque ver com o valor da masculinidade, comuma hipermasculinidade. Mas não só, por-que tal como escrevi, eu próprio, que não era português, me achava muito pouco masculi-no, se comparado com os pescadores portu-gueses da minha idade que eu via em St.John’s. Eu não passava de um rapazola, já eleseram claramente homens.
Imagino que olha de outra maneira para isso,hoje em dia.
Não sei até que ponto, porque a verdade éque admiro essas capacidades.
Como é normal num militar.
Exacto. Eu próprio acabei por ter uma vida pautada por um certo heroísmo, à minha es-cala. Fui piloto militar, depois piloto de uma companhia de aviação comercial, aterrei no Árctico, voei debaixo de tempestades, fizmuito, e há muitos paralelismos que po-dem ser estabelecidos entre Portugal e a Terra Nova. A questão é então a de saber oque significa pertencer hoje em dia à clas-se média. António comove-se quando fala da pesca do bacalhau no Atlântico Norte, ediz que tem imensas saudades desse tem-po. Mas de que tem saudades afinal? Eledescreve de forma muito vívida a dureza dessa vida no mar, mas, paradoxalmente,tem saudades dela. Aquilo era uma coisa decariz militar, daí designarem-se essas pes-carias por campanhas de pesca, tal como sediz das campanhas militares.
Fazendo um esforço de entendimento huma-no: de que acha que o ex-pescador António temsaudades?
Talvez da camaradagem entre os homens,num momento que foi decerto muito for-mador do seu carácter. Talvez, também, deum certo heroísmo que estava associado a essa pesca. Um homem era-o tanto maisquanto mais peixe pescasse. Entre os ho-mens e perante as mulheres, também. Osbons pescadores, os que pescavam mais doque os outros, tinham um outro estatuto.
Salazar bebia todos os anos com os melhorespescadores um cálice de vinho do Porto, numacerimónia que precedia a largada da frota pa-ra a campanha. O regime conferia um valor sim-bólico a esses heróis do mar, cuja bravura era
Dureza
«Nos navios,os por-tugueses lavavam--se numa pequenaquantidade de água,que servia tambémpara fazerem abarba,e que no finalbebiam!»
TIPOS PERFEITOS DE RAÇA
Nos Porões da Memória 
é a exposição (a terceira deuma série dedicada à memória da Faina Maior) que oMuseu Marítimo de Ílhavo (MMI) acolhe até 30 de No-vembro próximo. Inaugurada por ocasião do 72.º ani-versário do MMI no passado dia 8 de Agosto, a mostrareúne um texto e um conjunto de 12 fotografias tira-das na Primavera de 1966 no porto de St. John’s daTerra Nova. Fotografias analógicas, a preto e branco,constituem belíssimas evocações de um tempopretérito, porém bem vivo na memória de todosquantos andaram ao bacalhau nos bancos da TerraNova – lugar distante e inóspito para onde o EstadoNovo enviou os rapazes e homens de Portugal entre1936 e 1974. São milhares os portugueses que passa-ram, ano após ano, pelo porto da capital de Newfoun-dland, ali deixando marcas que estas imagensrevelam inesquecíveis, também para os naturais,para quem os portugueses eram, de entre todos ospescadores avistados no porto e pelas ruas de St.John’s, os mais amistosos, bravos e bonitos.«Tipos perfeitos da raça», chamou-lhes BernardoSantareno, médico a bordo do mítico (e mitificado)
Gil Eanes 
, o navio-hospital de apoio à Frota Branca.
Nos Porões da Memória III 
Museu Marítimo de ÍlhavoAv. Dr. Rocha Madahil, 3830-193 ÍlhavoTel.: 234329990museuilhavo@mail.telepac.pt

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