Não, ignorava tudo isso na altura. Apenas sa-bia que havia acordos internacionais relati-vos aos bancos de bacalhau da Terra Nova.Quando fotografei António e os outros pes-cadores portugueses ainda não havia restri-ções, a lei de protecção do nosso mar ainda não tinha entrado em vigor.
Houve um momento em que as autoridades ca-nadianas pediram ao Estado português queparasse de pescar aquelas quantidades enor-mes de bacalhau nas vossas águas. Mas Sa-lazar fez ouvidos moucos e mediante acçõesdiplomáticas conseguiu continuar a mandaros portugueses ao bacalhau da Terra Nova – eisso durou até 1974.
Eu não sabia nada disso naquela altura. Osportugueses interessavam-me porque a sua frota era inigualável em beleza e romantismo,interessavam-me os navios e os homens, por-que levavam aquela vida duríssima, embora por vezes tivessem a minha idade, e isso toca-va-me. Eu nem sequer sabia que em Portugalvigorava uma ditadura. Apenas nos interessa-vam os astronautas, a ida à Lua, a guerra-fria.Sabia da existência de Franco e da guerra deEspanha porque lera Hemingway. Lera tam-bém os livros de espiões, Ian Flemming, e sa-bia que havia uma cidade chamada Lisboa,uma cidade romântica que albergara espiõesdurante a Segunda Guerra Mundial, e vi o fil-me
Casablanca
. Quando entrevistei pilotos deguerra para um livro meu sobre os aviadoresmilitares da Segunda Guerra Mundial, uma das coisas mais espantosas que todos me con-taram foi que quando estavam a regressar da guerra, vindo pelo Mediterrâneo, iam para Inglaterra por Gibraltar, sobrevoando Lis-boa, e todos achavam incrível que estivesseiluminada de noite, enquanto outras cidadeseuropeias estavam na mais cerrada escuri-dão, que era ao que estavam habituados. Demodo que sobrevoar Lisboa era como passarpor Hollywood, a vossa capital tinha essa au-ra. Há um ensaio num livro que saiu recente-mente sobre os portugueses no Canadá [
The Portuguese in Canada – Diasporic Challengesand Adjustment
, coordenado por Carlos Tei-xeira e Vítor M.P. da Rosa, University of To-ronto Press, 2009] que fala dos portuguesescomo sendo gente da Terra Nova – porquenão eram olhados como os outros estrangei-
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Os navios dos portugueses eram diferentes detodos os outros, eram os únicos que eram ve-leiros, de três ou quatro mastros, enormes,com aquelas velas lindíssimas e aquele char-me que os outros não tinham. E eram bran-cos, por causa da Segunda Grande Guerra, oque eu não sabia à época [os navios bacalhoei-ros portugueses foram mandados pintar debranco pelo Estado-Maior Naval na sequên-cia de ataques alemães a lugres da nação«neutral» no alto-mar]. A White Fleet era úni-ca. Podíamos ver esses navios quando o tem-po estava mau, pois eles procuravam abrigono porto, onde ficavam até o tempo melhorar.Quando a White Fleet chegava íamos todosver os seus navios. Da minha secretária da es-cola conseguia vê-los pela janela.
Até que ponto essas vivências de infância e juventude na Terra Nova explicam as suas es-colhas profissionais? Antes de se tornar umfotógrafo e escritor a tempo inteiro foi piloto--instrutor militar, mais tarde piloto comercial,profissões aventurosas...
Há na minha família uma longa história re-lacionada com as profissões do mar. Na ver-dade, a única excepção foi o meu pai, que setornou militar. E eu cresci num mundocheio de uniformes militares, dominado pe-la possibilidade da guerra. Mas, porque tiveuma educação (ao contrário do meu pai queabandonou a escola, e do meu avô, que era pescador de bacalhau, e dos meus tetravôs,que eram capitães de veleiros), não fui obri-gado a ir para o mar. Tornei-me piloto mili-tar por opção minha. Aos 12 anos sabia queia ser piloto. Mas se o meu pai tivesse sidoum homem do mar é provável que eu tam-bém fosse. António, o ex-pescador que ago-ra reencontrei, foi para o mar com 8 anos. Na Terra Nova há muitas pessoas como ele, pes-soas da minha geração que não estudaram eque foram para o mar ainda quase crianças.Tal como os portugueses que eu via a jogarfutebol em St. John’s, e que ganhavam sem-pre os jogos, eram muito bons jogadores.
BI
Wayne Ralph nasceuem St. John’s, Terra Nova,em Junho de 1946, no seiode uma família de militarese gente do mar. Instrutorde aviação militar na ForçaAérea Canadiana,foi também piloto, editorde publicações especializa-das na área da aviação etransportes aéreos e aindao responsável pela cátedrado Departamento deEstudos Estratégicos deDefesa Nacional da Univer-sidade de Calgary. Biógrafodo mais condecorado avia-dor militar canadianodurante a Segunda GuerraMundial (William Barker,sobre quem escreveu umaobra inúmeras vezespremiada), Wayne Ralphé também o autor de
Aces,Warriors & Wingmen
,um laborioso trabalhode pesquisa sobre a vidae os feitos de mais de umacentena de veteranos daaviação militar canadiana.Fotógrafo e escritor, temactualmente em mãosum projecto sobre a históriarecente das gentes da TerraNova, no qual os portugue-ses da Frota Brancabacalhoeira serão protago-nistas (
Newfoundlanders – A Native Son in Search of His Past and the New Newfoundland
).A edição está previstapara 2010.
ve um olhar compreensivo relativamente a esses constrangimentos dos portugueses,que de resto eram muito bem-parecidos e ti-nham muito sucesso com as raparigas. Sabía-mos, ainda, que os portugueses eram os quetrabalhavam com menos condições. A pesca do bacalhau era dura para todos, mas para osportugueses era-o ainda mais. Isso fazia de-les heróis absolutos, tal como vem explicita-do no famoso livro de Alan Villiers [
A Campa-nha do Argus
, uma edição da Cavalo de Ferro].
Sabia, na altura, o contexto em que os portu-gueses eram recrutados para essas pesca-rias na Terra Nova? Sabia que a pesca do ba-calhau na sua terra fazia parte de um programaeconómico de regime? Sabia que a pesca dobacalhau foi o eixo da economia de abasteci-mento nacional dirigida por Salazar?Como os distinguia dos espanhóis ou dos mar-roquinos, que também jogavam futebol quan-do estavam atracados?
Os portugueses tinham roupas distintivas,feitas à mão, os pescadores da Frota Branca vestiam-se de maneira diferente dos outros.E isso é visível também nas minhas fotos de1966 – numa delas há um conjunto de ho-mens vestidos com roupas compradas em lo- jas, blusões como os dos homens da marinha mercante. Os pescadores portugueses nãovestiam roupas dessas. A probabilidade de es-ses homens serem portugueses era baixa.
Gente da Terra Nova
Como explica as relações tão excepcionalmen-te amistosas entre os portugueses da FrotaBranca e os seus conterrâneos?
Quando eu era miúdo e via os portuguesessempre por ali, no porto de St. John’s, eu sabia que tinham sido eles a encontrar-nos, na es-cola aprendi que o primeiro descobridor a en-contrar a Terra Nova foi Gaspar Corte-Real,um português. Por outro lado, sempre foimuito claro para mim que os portugueses queparavam em St. John’s eram os mais pobresde todos. Eram sempre avistados a andar pe-las ruas em grupos, olhando para as montrasdas lojas, hesitando em comprar. Tal como orapaz que eu descrevi na história publicada em Dezembro passado, que não tinha dinhei-ro para comer um
banana-split
e ficou a ver--me comer o meu. Os portugueses tinhamquando muito dinheiro para beber uma cer-veja, mas não para pagar uma refeição ouuma sobremesa cara. Penso que sempre hou-
Navios
«Os dos portugueseseram diferentes detodos os outros,enormes,com velaslindíssimas e umcharme que osoutros não tinham.E eram brancos.»
Comoção
«Há traumasassociados às viagens.Para António foiemotivo,houve uma quantidade impres-sionante de memórias que emergiram.»
ros. Se for falar com polícias que trabalhavamnessa altura, eles dir-lhe-ão que os portugue-ses eram os que menos conflitos provocavam,os que raramente iam para a prisão. Já os es-panhóis andavam de facas e entregavam-se a lutas que por vezes os levavam para os nossoshospitais. Os únicos portugueses que podía-mos encontrar nos hospitais eram os que ti-nham sido vitimados por incêndios a bordodos navios.
Memórias sentidas
Voltemos a esse encontro inacreditável entresi e o pescador que fotografou na Terra Novaem 1966. Quais são os seus significados, e osdesta sua vinda a Portugal?
Posto de uma forma simples: passei anos eanos a pensar que devia ter enviado as foto-grafias a esse outro pescador, o homem queera de Aveiro e me deu a sua morada. Sempreme senti um pouco culpado por não o ter fei-to, senti remorsos por não ter sido mais con-sequente. Quando o filho de António me dis-se que o pai gostaria muito de me reencon-trar, fiquei a pensar que também eu queria muito esse reencontro. Mas não sabia ondepoderia vir a ter lugar. Foi então que em mea-dos de Junho passado recebi um
e-mail
do di-rector do Museu Marítimo de Ílhavo, ÁlvaroGarrido, a convidar-me para expor em Ílhavoessas fotografias tiradas em 1966. Decidi vir,não só para a inauguração da exposição, mastambém para reencontrar esse antigo pesca-dor, o que aconteceu no dia 8 de Agosto, nomuseu. António apareceu com toda a sua família. Foi um momento inesquecível. AtéJaneiro passado eu nem sequer sabia o no-me dele, ele era apenas alguém que eu foto-grafara 43 anos antes em St. John’s, mas querepresentava todos os portugueses que euconhecera durante a minha infância e ju-ventude na Terra Nova. Ele não fala inglêse eu não falo português, mas isso não teveimportância alguma.
Sei que depois passou alguns dias no local on-de vive o antigo pescador e a sua família.
Passei três dias com a família de António. Ti-ve oportunidade de conhecer outras pes-soas, antigos pescadores nomeadamente,que aliás não acreditavam que tinha sido euo autor daquelas imagens [
risos
]! Felizmen-
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