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Leandro Calbente CâmaraDerrida e o jogo das estruturas
“Há portanto duas interpretações da interpretação, da estrutura do signo e do jogo. Uma procura decifrar, sonha decifrar uma verdade ou uma origem que escapam ao jogo e à ordem do signo, e sente como um exílio a necessidade da interpretação. Aoutra, que já não está voltada para a origem, afirma o jogo e procura superar o homem eo humanismo, sendo o nome do homem o nome desse ser que, através da história daMetafísica ou da onto-teologia, isto é, da totalidade da sua história, sonhou a presençaplena, o fundamento tranqüilizador, a origem e o fim do jogo”
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.Esta frase sintetiza uma das mais importantes críticas ao estruturalismo francêsna década de 1960, quando as idéias estruturais ainda ocupavam uma posição centralnaquele contexto intelectual. Jacques Derrida, o autor do texto, sempre realizou umdiálogo crítico com os autores mais importantes do
momento estruturalista
, comoClaude Lévi-Strauss, Jacques Lacan ou Michel Foucault. Esta postura já podia serobservada em seus primeiros textos, como
Force et Signification
ou
Cogito et histoirede la folie
. Porém, foi em 1966, na ocasião do Colóquio
 As Linguagens Críticas e asciências do homem
na Universidade de Johns Hopkins (Baltimore), que o filósofofrancês realizou seu comentário mais radical e crítico em relação ao estruturalismo.Esta crítica, porém, não significa a completa renuncia daquela “aventura doolhar”
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representada pelo estruturalismo. Na verdade, como defende François Dosse, o
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Derrida,
A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas
, p. 249, doravante citadocomo
ESJ
.
2
Derrida,
Force et signification
, p. 09. No mesmo texto, Derrida fala “comme nous vivons de lafécondité structuraliste, il est trop tôt pour fouetter notre rêve. Il faut songer en lui à ce qu’il
 pourait 
 signifier”, p. 11.
 
 2pensamento derridiano é uma radicalização, um levar ao extremo, uma torção, dosprocedimentos estruturais de leitura e crítica textual
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.Partindo dessa perspectiva, minha proposta nesta reflexão é discutir e comentaro funcionamento desta radicalização operada por Derrida em seus textos. O ponto departida, evidentemente, será o seu texto
 A estrutura, o signo e o jogo no discurso dasciências humanas
, ao qual irei costurar as idéias presentes em outros textos relevantespara a questão.------ x ------Derrida aponta, no início de seu texto, que “a palavra estrutura têm a idade daé
 pistémè
isto é, ao mesmo tempo da ciência e da filosofia ocidentais, e que mergulhamsuas raízes no solo da linguagem comum, no fundo do qual a é
 pistémè
vai recolhê-lospara os trazer a si num deslocamento metafórico”
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. Para o filósofo, o conceito deestrutura é muito anterior ao próprio
momento estruturalista
, ele está profundamenterelacionado com a possibilidade da construção de uma linguagem filosófico e científica,e com isso está filiado naquilo que o autor identifica como tradição metafísica dopensamento logocêntrico ocidental.É preciso entender esta característica com atenção. Para Derrida, nossopensamento é logocêntrico porque busca um princípio, uma origem, um centro, umespaço que garanta uma ordem ao pensamento, um acesso seguro a presença imediata
3
François Dosse,
História do estruturalismo: o canto do cisne
, p. 37. De maneira similar, LeylaPerrone-Moisés explica que “o que foi chamado desconstrução, como ele [Derrida] costuma dizer, é umaleitura minuciosa de textos da tradição ocidental (textos filosóficos e literários), para ‘desconstruir’ seuspressupostos idealistas, dualistas, logocêntricos, etnocêntricos. Nesse sentido de crítica textual, adesconstrução é uma versão mais refinada da ‘desmontagem’ estruturalista, com base filosófica anti-totalitária e anti-idealista”, em
Pós-Estruturalismo e desconstrução nas Américas
, p. 222.
4
 
ESJ
, p. 230.
 
 3do ser. Por isso, a noção de é
 pistémè
, tomada de empréstimo, mas num sentidodeslocado, da obra de Michel Foucault
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, é aquilo que circunscreve o pensamentofilosófico da linguagem comum, que insere este pensamento neste espaço ordenado. Nasua interpretação, este campo epistêmico funciona segundo um sistema de“constrangimentos fundamentais, de oposições conceituais fora das quais ele se tornariaimpraticável”. Pode-se dizer que uma característica importante do pensamentoderridiano é justamente a torção deste sistema de oposições conceituais, como veremosmais adiante
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.Esta filiação da estrutura à é
 pistémè
, no entanto, foi afetada por aquilo queDerrida denomina como um “acontecimento” (événement) na história do conceito. Oacontecimento em questão se refere a possibilidade de pensar o descentramento danoção de estrutura. Até então, “a estrutura, ou melhor a estruturalidade da estrutura,embora tenha sempre estado em ação, sempre se viu neutralizada, reduzida: por umgesto que consistia em dar-lhe um centro, em relacioná-la a um ponto de presença a umaorigem fixa. Esse centro tinha como função não apenas orientar e equilibrar, organizar aestrutura (...) mas sobretudo levar o princípio de organização da estruturar a limitar oque poderíamos denominar
 jogo
da estrutura”
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.A estruturalidade da estrutura é aquilo que possibilita a formação deste centrofixo, capaz de garantir “a determinação do ser do ente como presença”, e por isso trata- 
5
A noção de
épistémè
é importante na primeira fase do pensamento foucaultiano, marcado pela descriçãoarqueológica dos saberes. Em
As Palavras e as Coisas
, Foucault trata dessa noção como “a regiãointermediária entre os códigos fundamentais de uma cultura, os que regem sua linguagem, seus esquemasperceptivos, seus intercâmbios, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas, e as teorias,científicas e filosóficas que explicam todas essas formas de ordem”. Ademais, na sua perspectiva não épossível falar em uma
épistémè
, mas em várias, marcadas por um processo de descontinuidade histórica.Assim, há uma
épistémè
renascentista, uma clássica e uma moderna. Cf. Edgardo Castro,
Vocabulário deFoucault
, p. 139-140.
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Jacques Derrida,
Positions
, p. 14 (tradução minha).
7
 
ESJ
, p. 230.

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