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A LUA E A CONSCIÊNCIA MATRIARCAL
 Erich Neumann
Capítulo 2 do livro “Pais e Mães”, organizado por James Hillman. Na historia dos primórdios da consciência podemos discernir fases sucessivas doenvoltório inconsciente, ou seja, a situação original urobórica e por fim, ao termino do processo, tendo-se tornado o centro da moderna consciência Ocidental, confronta-se com oinconsciente como um sistema separado dentro da psique. No decorrer desse desenvolvimento,que conduz a liberação da ascendência do inconsciente, o consciente e simbolicamentemasculino, enquanto o inconsciente, na medida em que se opõe a emancipação do ego, efeminino, como aprendemos na mitologia e no simbolismo do inconsciente coletivo.A fase em que a consciência de ego é ainda infantil, isto é, depender da relação com oinconsciente, é representada no mito pelo arquétipo da Grande Mãe. A constelação dessasituação psíquica, assim como suas formas de expressão e projeção, foi por nos chamada de “matriarcado “ e, em contraposição, falaremos da tendência do ego de se libertar do inconscientee dominá-lo como a “ ênfase patriarcal “ no desenvolvimento da consciência.Em conseqüência, matriarcado e patriarcado são estágios psíquicos caracterizados por diferentes desenvolvimentos do consciente e do inconsciente, especialmente por diferentesatitudes de um em relação a outro. Matriarcado não significa apenas predomínio do arquétipoda Grande Mãe, mas, de modo geral, uma situação psíquica total em que o inconsciente ( e ofeminino ) o predominantes e a consciência ( e o masculino ) o atingiram ainda
autoconfiança
e independência. ( “ Masculino “ e “ Feminino “ são aqui grandezas simbólicas,não devendo ser identificados como “ homem “ e “ mulher “ como portadores de característicassexuais especificas ). Nesse sentido, um estagio psicológico, uma religião, uma neurose, etambém um estagio no desenvolvimento da consciência, podem ser chamados “ matriarcais “ ; epatriarcal não significa o comando sociológico dos homens, mas o predomínio daconsciência masculina que consegue separar os sistemas do consciente e do inconsciente, e quee relativamente estabelecida de maneira firme em oposição e independentemente doinconsciente. Por essa razão, a mulher moderna, deve tamm atravessar todos essesdesenvolvimentos que conduzem a formação da consciência patriarcal, que agora e típica etomada como certa na situação consciente ocidental sendo dominante na cultura patriarcal. No entanto, juntamente com essa “ consciência patriarcal “ existe uma “ consciênciamatriarcal “, cuja eficácia e oculta mas significativa. A “ consciência “ matriarcal “ pertence aosubstrato matriarcal da psique que formou a civilização nos primórdios da historia humana.Caracteriza a natureza espiritual da mulher - independentemente da sua contribuição cultural para a consciência patriarcal - mas também tem papel importante na vida do homem. Quando aconsciência não esta patriarcalmente liberada do inconsciente, a “ consciência matriarcal “domina: ou seja, nos primórdios da historia humana e, ontogeneticamente, nas correspondentesfases da infância. O mesmo acontece no homem em que ocorre acentuada atividade por parteda
anima
, o lado feminino de sua psicologia, tanto em crises psicológicas como nos processoscriativos.Antes de procurar alcançar uma compreensão mais profunda da consciência matriarcal,nos deteremos num
“ intermezzo
etimológico sobre a lua “ , que nos dirá algo sobre a estrutura
 
do arquétipo lunar. Veremos que o aspecto psicológico de um arquétipo pode proporcionar uma relação interior e central entre raízes ate então não consideradas como tendo conexõeslingüisticasA Etimologia tentou separar duas raízes: de um lado a raiz-lua que, com
men
( lua ) e
mensis
( mes ) pertence a raíz
ma
do sacrifício
mas;
e de outro, a raiz sânscrita
manas,
commenos ( grego ),
mens
( latim ) etc., que representa o espirito por excelência.Da raiz-espírito brota uma ampla ramificação de sentidos espirituais significativos:
menos,
espirito, coração, alma, coragem, ardor;
menoinan,
considerar, meditar, desejar;
memona,
ter em mente, pretender;
mainomai
, pensar e também perder-se em pensamentos edelirar, a qual pertence
mania
, loucura, possessão e também
manteia, profecia.
Outros ramosda mesma raiz-espírito são
menis, menos,
raiva
 , menuo,
indica
r,
revelar;
meno,
 permanecer,demorar-se,
manthano,
aprender;
menini,
lembrar; e
mentiri,
mentir. Todas essas raízes-espíritooriginam-se de uma raiz original sânscrita
Mati-h,
que significa pensamento, intenção.Em nenhum lugar, seja ele qual for, essa raiz foi colocada em oposição a raiz-lua,
men,
lua;
mensis,
mes;
mas,
que e ligado a
ma,
medir. Dessa raiz origina-se não só
matra-m,
medida,mas também
metis
, inteligência, sabedoria;
matiesthai,
meditar, ter em mente, sonhar; e, maisainda, para nossa surpresa, verificamos que essa raiz-lua, pretensamente oposta a raiz-espírito,e da mesma maneira derivada da raiz sânscrita
mati-h,
significando medida, conhecimento.Em conseqüência, a única raiz arquetípica subjacente a esses significados e espírito-lua,que se expressa em todas as suas ramificações diversificadas, revelando-nos assim sua naturezae seu significado primordial. O que emana do esrito-lua e um movimento emocionalrelacionado de perto com as atividades do inconsciente. Na erupção ativa e um espirito igneo:coragem, cólera, possessão e ira; sua auto-revelação conduz a profecia, cogitação e mentira,mas também a poesia. Junto com essa produtividade ignea, no entanto, coloca-se outra atitudemais “ medida “ que medita, sonha, espera e deseja, hesita e se retarda, que se relaciona com amemória e o aprendizado, e cujo efeito e a moderação, a sabedoria e o significado.Discutindo o assunto em outro lugar, mencionei, como uma atividade primaria doinconsciente, o
 Einfall,
isto e, o pressentimento ou o pensamento que “ estala “ na cabeça. Oaparecimento de conteúdos espirituais que penetram na consciência com suficiente forca persuasiva para fascina-la e controla-la, representa provavelmente a primeira forma deemergência do espirito no homem. Enquanto numa consciência ampliada e num ego mais forteesse fator emergente e introjetado e concebido como uma manifestação psíquica interna, ncomeço parece atingir a psique “ de fora “, como uma revelação sagrada e uma mensagemnuminosa dos “ poderes “ ou deuses. O ego, ao experimentar esses conteúdos como vindos defora, mesmo quando os chama de intuitos ou inspirações, recebe o fenômeno espiritualespontâneo com a atitude característica do ego da consciência matriacal. Porque ainda everdade, como sempre foi, que as revelações do espírito-lua são recebidas mais facilmentequando a noite anima o inconsciente e provoca a introversão do que a luz brilhante do dia. Naturalmente a consciência matriarcal não e restrita as mulheres. Existe também noshomens, na medida em que sua consciência e uma consciência-
anima.
Isso e particularmenteverdadeiro em pessoas criativas; a consciência de todas as pessoas depende da atividade doinconsciente para a inspiração e “ palpite “, assim como para o funcionamento dos íntimos e a “
 
 provisão de libido “ para a consciência. Todas essas coisas são regidas pela Lua, portantorequerem uma harmonia com ela, um ajustamento a ela, isto e, um culto da Lua. No culto da lua o papel desta como medida do tempo e de importância capital. Mas otempo não e o tempo abstrato e quantitativo da consciência patriarcal e cientifica. E um tempoqualitativo que muda, e ao faze-lo, assume qualidades diferentes. O tempo lunar tem períodos eritmos, cresce e mingua, e favorável ou desfavorável. Como o tempo que rege o cosmos, regetambém a terra, todas as coisas vivas e o feminino.A lua crescente e mais do que uma medida do tempo. E um símbolo, tal como a luzminguante, a lua cheia e a lua nova, de uma qualidade interna e externa da vida e dahumanidade. Podemos claramente associar o carretar arquetípico das fases da lua a forcamutável de suas radiações. Pois estas são centros de ondas de vibração, correntes de poder que, dentro e fora, pulsam através do mundo, permeando a vida psicobiológica. O tempo lunar condiciona também a vida humana. A lua nova e a lua cheia foram os primeiros tempossagrados. A lua nova, como vitoria do dragão da noite escura foi o primeiro tempo típico daescuridão e da maldade. Alem disso, a semeadura e a colheita, o crescimento e a maturação, oêxito e o malogro de todo empreendimento e de toda ação, também dependiam da constelaçãodo tempo lunar cósmico.Obviamente e no feminino que a natureza e a periodicidade da lua se manifestam demaneira particular, e portanto a mente masculina continua a identificar o feminino com a Lua.O feminino, embora não mais dependente do Periodo lunar externo, não esta ligado a Luaapenas de maneira física através da mudança mensal, mas a própria “ mentalidade “ femininatotal e determinada pela Lua, e sua forma de espiritualidade lhe e impressa pelo arquétipo lunar,como a epitome da consciência matriarcal.A periodicidade da Lua, com seu pano de fundo noturno, e símbolo de um espirito quecresce e mingua, conforme os processos obscuros do inconsciente. A consciência lunar, como poderia ser chamada a consciência matriarcal, nunca e divorciada do inconsciente, porque e elamesma uma fase, uma fase espiritual, do próprio inconsciente. O ego da consciência matriarcalnão tem liberdade, ou atividade própria independente; espera passivamente, afinado com oimpulso espiritual que lhe foi trazido pelo inconsciente.O tempo e “ favovel “ ou “ desfavorável “, conforme a atividade espiritualdeterminada pelo inconsciente se volte em direção ao ego e se revele, ou então se distancie,escureça e desapareça. Nesse estagio da consciência matriarcal, a tarefa que cabe ao ego eesperar e observar o tempo favorável ou desfavorável, por-se em harmonia com a lua mutável, propiciar uma consonância, um uníssono com o ritmo de suas emanações.Em outras palavras, a consciência matriarcal depende do estado de espirito e daharmonia com o inconsciente. Essa depenncia da Lua pode ser tomada como umainstabilidade ou capricho; no entanto, por outro lado, produz uma retaguarda que atua comocaixa de ressonância, dotando a consciência matriarcal de um caráter especial e positivo. Suaresposta ao ritmo, seus tempos, e suas fases crescentes e decrescentes a aproximam da musica.Em conseqüência, musica e dança, por causa de seu ritmo destacado, exercem um papelimportante na criação e na ativação da consciência matriarcal e no estabelecimento de umaconsonância do ego com a feminilidade e seu regente, o espirito lunar.
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