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04/19/2013

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Módulo 01 - Professora Mary Del Priore
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 Vídeo Aula 1
  A Infância como Construção Histórica – Séc. XVI, XVII e XVIII 
O Estatuto da Criança e do Adolescente vai completar vinte anos e muitosprofessores, pensadores e educadores devem estar se perguntando, neste momento,para que serviu este Estatuto e qual é a situação da criança brasileira hoje.Eu, na qualidade de historiadora, gostaria de lembrar que esta situação quenós vivemos hoje, foi construída ao longo de mais de quinhentos anos de história.Assim, a nossa receptividade ou a nossa pouca simpatia ao Estatuto, passa, também,por estes quinhentos anos de história que nos ensinaram e que modelaram a maneirada gente ver a criança brasileira.Seria bom começar lembrando, por exemplo, que falar em criança ou falar eminfância é assunto realmente muito atual. Durante quase 550 anos, a criança não foipreocupação nem das autoridades, nem dos médicos e muito menos dos professores.Se nós quiséssemos olhar realmente para trás, ao longo da nossa história, nosperguntando por que foi assim, eu começaria com as primeiras embarcações dascarreiras das Índias, que traziam portugueses para o nosso litoral e passavam por aqui, antes de se dirigirem às Índias. Nestas embarcações, entre 10% a 20% datripulação era formada por crianças abandonadas, que eram recolhidas nas cidadesportuárias portuguesas e que trabalhavam de graça, ou seja, faziam um trabalhoquase escravo no seio destas embarcações.É interessante que nós temos neste fato uma certa perspectiva de que estadessensibilização nasce do entrelaçamento de algumas situações que percorrem anossa história, e que são feitas de três fatores:
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Mary Del Priore
é historiadora com doutorado em História Social e pós-doutorado em Históriada América e do Brasil.
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Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o textoescrito.
 
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1. O trabalho infantil,2. A ausência ou pouca valorização da educação (do professor ou daescola),3. O abandono de crianças.Estas crianças vinham no bojo destas embarcações, porque eramabandonadas, e muitas delas foram recrutadas logo no início, pelos primeiroseducadores que nós tivemos no Brasil que eram os padres jesuítas.Os jesuítas resolveram misturar a colonização do Brasil com o processo decatequização e para isso precisavam fundar escolas. Para cada igreja construída, umaescola, mesmo que fosse de palhoça e capim ao lado da igreja. Estas criançasportuguesas abandonadas, que vinha para cá, tinham que funcionar como oschamados “meninos língua”. Esta expressão vinha do fato de que estes meninos, por serem jovens, crianças pequenas, aprendiam muito rapidamente o falar Tupi, eramcapazes de se comunicar com as crianças indígenas e atraíam estas criançasindígenas para as escolas jesuíticas.Uma escola que obviamente repetia um pouco toda a agenda educacional daEuropa naquele momento, ou seja, uma alfabetização por “decoreba”, com umaprofunda preocupação com a educação moral das crianças.Podemos ver que abandono e trabalho já marcam de forma emblemática arelação que se tinha com crianças. Some-se a isso outro problema muito importanteque nós vamos ter, que é a questão da escravidão no Brasil. Poucos professoressabem, mas dos viajantes africanos que atravessavam o Atlântico e que desciam numporto importante como o do Rio de Janeiro, sendo vendidos no Mercado do Valongo,4% eram população infantil. Eram crianças com menos de dez anos e ao longo de umano estas crianças eram imediatamente separadas dos seus pais, e aos quatro oucinco anos, tão logo elas se pusessem de pé, eram intimadas a fazer pequenosserviços, sendo rapidamente iniciadas no trabalho.Para se ter uma idéia de como a escravidão foi dura com as crianças escravas,aos oito, nove ou dez anos estas crianças já aparecem nos testamentos ou inventáriosque nós temos, do século XVIII ou XIX, com uma profissão definida. “Maria –costureira”, “João – Pastor”, “Benedito - Aprendiz de Alfaiate”... O próprio aprendizadoda criança escrava para o trabalho também foi uma constante. Logo depois que afamília real portuguesa vem para o Rio de Janeiro e ai se instala, nós temos umaproliferação da fundação de escolas para crianças de elite, e também a proliferação deescolas cuja finalidade era ensinar a criança escrava algum tipo de aprendizado ouprofissão. Era uma espécie de embrião da escola técnica, que fizesse com que esteescravo ganhasse mais dinheiro e remunerasse melhor o seu senhor.
 
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Além das crianças escravas, das crianças que não tinham educação e vinhamtrabalhar em escolas jesuíticas, ou das que participaram de todas as viagensultramarinas, junta-se à história de nossas crianças um outro fenômeno que nós temostambém no período colonial, e que é muito impressionante, que é o de abandono oudisposição de crianças enjeitadas.As Santas Casas de Misericórdia tiveram um papel fundamental nesta questãoe eu tenho certeza que muitos professores, sobretudo nas grandes capitais comoRecife, Salvador, Rio de Janeiro ou São Paulo, conhecem as famosas rodas queficavam nos muros das Santas Casas onde as crianças eram colocadas. Havia umsininho do lado de fora, que a mãe badalava, ela virava a roda para o interior da SantaCasa e as crianças eram recolhidas do outro lado.Dom Pedro I, numa das visitas que fez à Santa Casa de Misericórdia do Rio deJaneiro, ficou absolutamente impressionado com o número de crianças enjeitadas,que eram ali colocadas, e com o nível de sobrevivência dessas crianças, que erabaixíssimo.Eu diria que esta dessensibilização que nós temos em relação à criançabrasileira nasce não só desse passado de muito trabalho, de muito abandono e defalta de educação, mas também de um fenômeno que muitos educadores quetrabalham no interior conhecem bem, que são os altos índices de mortalidade infantil.Essa presunção de que a criança morrendo muito pequenina iria se transformar num anjo, e nós temos vários viajantes do século XIX, que mostram enterros deanjinhos, com as crianças todas paramentadas, deitadas em bandejas, adornadascom fitas e flores, essa presunção consolava as mulheres que tinham famílias muitograndes e que viam os seus filhos partirem em muito baixa idade, levados pela morte,ou muitas vezes levados pelo trabalho, pois as crianças eram deslocadas paratrabalhar em outras regiões.O século XIX foi um século importante, porque foi um século onde a educaçãopassou a ter alguma importância no Brasil, sobretudo entre as elites. A vinda dafamília real, volto a dizer, multiplicou o interesse pela educação, sobretudo pelaeducação feminina.Nós vamos ver que muitos estrangeiros, sobretudo imigrantes franceses eingleses, fugindo das guerras européias, ou porque eram adeptos de Napoleão quehavia caído, migram para o Brasil e tentam instalar aqui estabelecimentos queoferecessem uma agenda mais diversificada, para meninos e meninas brasileiros, masera exclusivamente para as crianças da elite.Um viajante que passou pelo Rio de Janeiro em 1820, tem uma frase muitointeressante sobre a educação feminina. Ele diz que “as meninas brasileiras iam paraa escola aprender piano, a falar um pouquinho de francês, a fazer alguns passos das

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