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TERAPIA COMUNITÁRIA 
Ela sorri para a foto e pede quea câmera também enquadre
 seus santinhos, suas flores e os enfeitesque cuidadosamente guarda em cima deuma mesinha. Solta os cabelos, arrumaos diversos colares em volta do pescoçoe segura, como se fossem mágicas, asquatro varas que simbolizam o projetoque a acolheu. Aos 67 anos, a vida dedona Zilma Saturnino é outra, desde quese tornou uma das cuidadoras da oca desaúde comunitária.Ela conta que nasceu perto do AçudeJoão Lopes, no bairro Ellery, periferia deFortaleza. “Era doente até vir me tratarcom doutor Adalberto”. Depois de umperíodo de internamento no HospitalPsiquiátrico Mira y Lopez — de onde fugiu—, Zilma encontrou apoio no Projeto 4Varas, onde pôde exercer a vocação paracura. “Eu era doente porque tinha o dom
 Adriano De Lavor 
Z
ilma, Cleinha e Francisca sãoapenas três dos muitos perfisque comprovam a resolutivi-dade do trabalho de terapiacomunitária realizado há 20 anos naFavela do Pirambu, comunidade queabriga cerca de 50 mil pessoas na pe-riferia de Fortaleza. O responsável pelainiciativa é o psiquiatra e antropólogoAdalberto Barreto. Desde que começoua reunir as pessoas para escutar seusproblemas à sombra de um cajueiro, nomesmo terreno onde agora está insta-lado o projeto, ele defende a parceriaentre o saber científico e o popular notratamento dos transtornos mentais.Hoje, sentado no mesmo local, elefesteja a concretização de um projetoque atende mensalmente 1.200 pessoase enfrenta, ao mesmo tempo, a pato-logia e o sofrimento. “Aqui temos umposto de saúde do PSF, onde se trabalhaa patologia com o médico, o enfermeiroe o dentista, e um espaço onde se tra-balha o sofrimento, com a massagem,a argila com pedras mornas, o banhode ervas e a reza com curandeiros”,resume. Assim é possível aproveitar,de forma complementar, o saber dosespecialistas e a sabedoria popular, queenfrenta o sofrimento “promovendo asaúde e reduzindo danos”.Desde 2006, o projeto — iniciativacom o Departamento de Saúde Comu-nitária e a Pró-Reitoria de Extensãoda Universidade Federal do Ceará(UFC) — recebe apoio da PrefeituraMunicipal de Fortaleza, que tem con-vênio de financiamento e apoio téc-nico para os serviços prestados — porexemplo, o pagamento do salário dosmassoterapeutas. O apoio foi decisivopara a reforma dos equipamentos jáexistentes e para a construção de umaunidade básica de Saúde da Família,
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Ela sorr foto e pede que
Um oásis
para resgate da
auto-estima
 
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que funciona em dois turnos e é moni-torada por equipe que reúne médico,enfermeira, auxiliar de enfermagem,agente comunitário de saúde, dentistae auxiliar de consultório dentário.O atendimento do posto de saúdechega aos domicílios cadastrados noentorno — cerca de 1.000 residências,segundo a Secretaria Municipal de Saú-de — e presta serviços de imunização,aerossolterapia (terapia por nebuliza-ção) e prevenção de câncer do colo doútero. Adalberto destaca a parceriaentre as duas instâncias: as pessoastanto são encaminhadas da unidadede saúde às terapias complementares,como podem ser orientadas nos servi-ços comunitários a procurar apoio deespecialistas, quando necessário.Além da unidade de saúde, ocomplexo 4 Varas conta hoje com aoca de saúde comunitária, para as mas-sagens, os banhos e as rezas, a tendadas sessões de terapia comunitária ede resgate da auto-estima, a farmáciaviva — onde são cultivadas ervas medi-cinais, cuja venda auxilia na autonomiafinanceira do projeto —, o ateliê dearte-terapia e a casa de acolhimento,onde se hospedam pesquisadores visi-tantes e são recebidas as pessoas quenecessitam de repouso.Também fazem parte da estruturafísica local a Casa da Memória — quedispõe de acervo de fotos, áudio evídeos sobre a história da terapia co-munitária, do projeto e da comunidade—, uma escola que atende cerca de 100crianças carentes da favela e o grupode teatro Zé e Maria, que reúne 30jovens da comunidade.Parece um oásis, encravado numadas comunidades mais violentas da ca-pital cearense, cercado de coqueiros eoutras árvores frutíferas, salpicado deverde nos canteiros com ervas medicinaise nos jardins que emolduram os prédios.As construções utilizam materiais locais,
A massoterapeuta CléiaRodrigues Monteiro chegou
ao projeto há nove anos, também àprocura de ajuda. Relata, sorridente,à porta da sala que ocupa na ocade saúde comunitária, que sofriade depressão desde jovem e re-clamava de um
entalo
. “QuandoCleinha se curou, começou amandar pessoas pra cá”, recorda Adal-berto, que identificou naquela senhoraa capacidade de mobilização na comu-nidade. “Vi que ela tinha capilaridade,conseguia formar uma rede de suportee de apoio social”, lembra. No iníciorelutante, fez o curso de massagem.“Você cuida muito bem dos outros,venha aprender a cuidar melhor”, diziaAdalberto para convencê-la.Situação semelhante viveu donaFrancisca, que chegou à casa “ne-oleptizada, babando, inclusive im-pregnada”. Adalberto conta que atéela se surpreendeu pela maneiracomo foi recebida: “Disseram que asenhora é rezadeira. Meus remédiossozinhos não dão conta de tantoestresse e sofrimento. Vou precisarde gente como a senhora”, disse omédico. “O senhor acha que vou ficarboa?”, duvidou Francisca. “A senhoranasceu assim? Não! Não se preocupeque vou te tratar”.e não sabia”, diz. Foinuma das sessões deterapia comunitáriaque ela se (re)desco-briu rezadeira.O doutor Adal-berto relembra.“Dona Zilma era doidade pedra. Mas quandochegou aqui, não olheia patologia: disseramque era curandeira.Um dia, uma pessoapassou mal, segundoela era um encosto.Ela foi lá, rezou e,depois que terminou,as pessoas começa-ram a pedir que elarezasse aqui e ali.Não deu mais tempode endoidar”.
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e nãos
   F   O   T   O   S  :   A   D   R   I   A   N   O    D   E   L   A   V   O   R

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