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23.AGO.2009
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vães do Douro e logo ali acreditou no «tre-mendo potencial» que tinha à sua frente.É preciso ver as fotografias iniciais para per-ceber que estamos perante um homem de fé.Durante mais de um ano, veio do Porto para acompanhar a equipa encarregada da re-construção, que de vez em quando lá volta pa-ra mostrar a outros a obra feita. A recuperaçãodo património edificado é um dos motivospor que está no Douro: «Queria deixar aquialguma coisa que perdurasse no tempo.»Obteve investimento financeiro junto deum casal francês residente em Macau e en-tregou o projecto a um arquitecto de Vila Real, Vivaldo Carrilho da Fonseca. Assim nas-ceu uma casa de campo disposta em socalcos,na confluência da traça rural com as linhas eos atractivos contemporâneos. Distinta, semchegar a ser luxuosa, não lhe faltam comodi-dades como o sistema Hi-Fi, DVD e SportTV,sendo também notório o culto dos pormeno-res. Do périplo pelas lojas e feiras de antigui-dades e velharias, Francisco Abrunhosa trouxe objectos que merecem agora honrasde exposição. Na parede, em molduras envi-draçadas, há envelopes de antigas casas co-merciais: Thiago Augusto Alberto de Almei-da, «especialidades em enchidos e paio dolombo»; Amorim, Coelho & Feio, Lda., «todosos artigos de confeitaria». Uma delícia. Assistida por uma governanta incansável,que tem a seu cargo os pequenos-almoços eoutras refeições a pedido, o que falta à Casa de Gouvães é reconhecido pelo seu mentor:«O Douro precisa de um alojamento de qua-lidade, não massificado, que providencie umconjunto de serviços além da simples dormi-da. Eu não tenho estrutura para muito mais,mas estou preocupado com os meus hóspe-des. Enviei muitos
e-mails
e cartas a entida-des da região que fazem animação turística enão me responderam.» Uma das quintas, queprefere não nomear, deu-lhe como troco a lista de vinhos à disposição para venda ao pú-blico. «Falta atitude e consideração», subli-nha, «e é também por causa de respostas des-te género que o Douro tem um problema sé-rio de divulgação.» De vez em quando, senteo voto de desconfiança lançado a quem vemde fora, «uma característica marcante dotransmontano». A juntar ao «individualismoportuguês», tem como resultado o que está à vista: uma falta de informação articulada quedesorienta o turista e concorre para o des-perdício de recursos a todos os níveis.Um atalho leva-nos de Gouvães a Prove-sende, aldeia histórica que atingiu o apogeuno século
XVIII
e mantém até hoje um gran-de número de casas brasonadas. Os fundosda Comissão de Coordenação e Desenvolvi-mento Regional do Norte serviram para uma operação de requalificação nas ruas enas fachadas dos edifícios, mas há fios eléc-tricos a irromper das paredes e varandas degranito polido que desfiguram o conjunto.Os acabamentos irão alguma vez ser acaba-dos? De Provesende, regressaremos ao Pi-nhão com os enchidos das Papas Zaide emboa memória: o presunto, o salpicão raiado,a carne de porco curada e fumada… Por serdomingo, não havia pão fresco na Padaria Fátima, casa de 1940 onde existe, contam--nos, o maior forno de lenha do concelho deSabrosa e do distrito de Vila Real. Tambémpor ser domingo, estava fechado o posto deturismo, um problema nacional, exemplo tí-pico de como a lógica institucional funciona ao contrário das vulgares expectativas deum cidadão em férias.
Aldeias nem sempre em festa
Provesende, Barcos, Favaios, Salzedas, Tre-vões, Ucanha. O portal das Aldeias Vinhatei-ras do Douro continua
online
, mas as notíciasdo festival que há dois anos animou as seisterras integrantes do projecto não tiveramcontinuidade. Talvez este ano regresse, senão faltarem os fundos comunitários. Na Ucanha, onde chegámos depois de cruzadoo rio para a margem esquerda, há quem selembre bem da festa que trouxe dança e ar-tes circenses às ruas, puxando o brio da po-pulação, logo ali animada para mostrar o seumelhor. No caso de Maria Adelaide Costa, a Delaidinha, são doces, geleias e compotasque dantes se diziam «caseiros» e hoje são«biológicos». Uma montra onde cabem osabugueiro, o medronho, a maçã bravo-de--esmolfe, o pêssego, o damasco, a pêra, a la-ranja e outros frutos retirados aos seus po-mares. Vende saquinhos de pano e de se-rapilheira, e também chás e infusões para vários males: oliveira para a hipertensão,hortelã-mouriscada para as dores de cabe-ça, carqueja para digestão e para o arroz decoelho, que uma coisa até ajuda a outra. Adelaide Costa é uma mulher de armas.Casou-se ainda aos 16 e enviuvou dez anosdepois de um homem que «foi um pai, umamigo e uma paixão». Não é preciso maisnada para se ser feliz e nada foi com o que fi-cou, exceptuando duas filhas pequenas, en-tregues a um colégio no Porto antes de emi-grar para França. Aprendeu francês «com osolhos», quando a patroa abria os armários elhe soletrava o nome das coisas. Lembra-sedaquela vez em que lhe pediu arroz para o jantar, e ela, aflita, sem saber o que era «o ri,o ri», pensou que a patroa queria vê-la a rir--se, vá lá perceber-se porquê. De volta a Por-tugal, sobreviveu a um segundo marido e a uma doença cancerosa, e então pôs-se a fa-zer doces como terapia. Aos 65 anos, refor-mada, afirma: «Não estou aqui para ganharpara comer, estou aqui por causa da minha doença. Gostava de morrer e ver que as pes-
O Aquapura Douro Valley,o restaurante DOC e aQuinta do Seixo foram osvencedores
ex aequo
dos prémios do Turismode Portugal para melhorprojecto privado. Antigamansão ligada à Quintada Pacheca, o AquapuraDouro Valley renovou osinteriores, numa linhaentre a sobriedade es-candinava e um certoexotismo oriental.Insere-se num conceitode hotelaria de luxo emque o
spa
é a grandemais-valia, estandoacessível a hóspedes eao público em geral, talcomo o restaurante.Nesta matéria, o DOCcontinua a ser o trunfoimbatível da região,conciliando uma cozinhade inspiração regionalcom a visão de autor do
chef
Rui Paula, à frentede uma equipa jovemque surpreende peladescontracção. Desde oDOC, ir à Folgosa passoua ser um capricho com justificação óbvia. Maisperto do Pinhão, e aindana famigerada EN 222,encontra-se a Quintado Seixo, propriedadeda empresa líder domercado nacional devinhos do Porto,a Sogrape. Não se tratade alojamento emespaço rural, mas de umprojecto de enoturismocontemporâneo eestilizado. Durante asvindimas, a visita guiadaconduz aos lagares emactividade, antes determinar numa sala deprovas que é umautêntico
belvedere
sobre o Douro.
Reorganização do Turismo do DouroUm pódio para três:DOC, Aquapura e Quinta do Seixo
Responsável pela promoção turística de 19municípios, de Mesão Frio a Freixo de Espa-da à Cinta, António Martinho preside, desdeJaneiro de 2009, ao que era antes uma in-compreensível manta de retalhos. Com areorganização iniciada em 2008, o Turismodo Douro é hoje «o resultado da junção deduas ex-regiões de turismo, Douro Sul e Ser-ra do Marão, da Junta de Turismo de Caldasde Moledo e ainda de três municípios da re-gião do Nordeste Transmontano. Agregou--se a estes o município de Foz Côa, que nãointegrava nenhuma região de turismo, infe-lizmente, e por isso a dinâmica à volta dasgravuras nunca se consolidou». AntónioMarinho ainda não teve tempo de pôr emprática um plano de
marketing
capaz deproduzir os folhetos e mapas que rareiamem todo o lado, mas considera uma vitória aabertura dos postos de turismo aos domingos em Vila Real, Régua e Lamego. Comoprioridades, refere a sinalização e a reconversão da EN 222 em estrada panorâmi-ca, dois estudos adjudicados pela Estrutura Missão Douro em fase de conclusão.Até ao final do mandato, em 2013, quer atingir o objectivo de trazer ao Douro meiomilhão de dormidas anuais, o dobro da cifra actual. Para muito breve, entre 9 e 13 deSetembro, prepara-se o primeiro festival de cinema internacional, Douro Film Har-vest (www.dourofilmharvest.com), que terá lugar em Vila Real, Lamego, Moncorvo eSanta Marta de Penaguião. «Estamos a pensar levar depois os filmes vencedores aoutras localidades, preparando o festival seguinte», afirma. «Se a população é rare-feita, não podemos esperar muita gente, mas é bom que as pessoas de cá tenhamqualidade de vida e acesso à cultura. Os públicos fazem-se.»
Quinta do Seixo, um complemento às tradicionais caves da Sandeman.O Aquapura Douro Valley manteve a arquitectura exterior da antiga quinta e integrou novos edifícios sem prejudicar o conjunto.
soas se deitassem a fazer qualquer coisa, co-mo eu fiz. A vida agora está melhor para unse pior para outros, mas as pessoas queixam--se na mesma.» As casas recuperadas da rua mais íngremeda Ucanha, cores garridas e paredes de lou-sa em escamas, escondem uma pobreza en-vergonhada. Não há muito para fazer, aqui,e o recurso voltou a ser emigrar, como acon-teceu com Arlete, de quem nos falhou a no-ta do apelido. Mas é fácil encontrá-la: até No-vembro, Arlete, 21 anos, corpo de 15, divide--se entre o posto de turismo e as visitasguiadas à Torre de Ucanha, ex-líbris da ter-ra, juntamente com a ponte dos séculos
XII
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. É um emprego de férias, findo o qualregressará a Davos, na Suíça, onde trabalha em hotelaria. Claro que gostaria de estudarHistória, mas onde iria arranjar emprego? A avaliar pelo estado da torre, aparentemen-te bem conservada, mas com o interior aoabandono e preenchido por um arremedode espólio etnográfico que se confunde comlixo, parece que ninguém se importa muitocom a dignidade de um conjunto classifica-do como Monumento Nacional.
Na Rotas das Vinhas de Cister
Da margem direita para a margem esquerda do Douro, atravessando o viaduto de betãoda A24 em direcção de Lamego, a mudança na paisagem é quase abrupta. Os planaltosxistosos trabalhados pela mão do homem,
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