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Douro
REPORTAGEM
O que é que o Douro tem? Quase tudo,menos golfe e praia.
¬
Nem épreciso.
¬
Porque pode tornar-se um destino perfeito,se conseguirsomar em vez de dividir,em benefício de uma imensa diversidade:paisagens superiores,um rio para navegar,património histórico e ar-queológico,quintas onde se produzem bons vinhos e onde não chegao desassossego da civilização.
¬
E o melhor:as pessoas.Gente quegosta de conversar e de receber,sem artifícios.
¬
Estivemos uma se-mana no Douro e achámos pouco,muito pouco.
TEXTO
Carla Maia de Almeida
¬
FOTOGRAFIA
Guto Ferreira
Sete dias no
A
mesma estrada em quearriscámos a pele, a EN222, acabou por condu-zir-nos às portas da Via Láctea, onde só os cometas abusam dos li-mites de velocidade. Para avistarmos o fio deestrelas outrora seguido pelos romeiros atéSantiago de Compostela, com paragem nasterras abençoadas de Lamego, é preciso veras muitas luzes do mundo a apagarem-sesob o amplexo da noite. Não é fácil consegui--lo, mas também por isso estamos no Douro.Mais precisamente na Quinta Nova de Nos-sa Senhora do Carmo, uma propriedade se-tecentista do Cima Corgo, a meia hora dedistância do Pinhão. Para aqui chegar, en-frentámos um engarrafamento de autocar-ros turísticos (bastam três veículos de gran-de porte para causar um tumulto no Pi-nhão) e percorremos uma estrada aos «es-ses» que se aconselha a fazer de dia e livrede influências etílicas. Para trás ficou a já ci-tada EN 222, que apanhámos à entrada da Régua, num cruzamento manhoso com vis-ta para o posto em ruínas da Junta Autóno-ma de Estradas. Não é coisa bonita de se ver.Tal como não é bonito ver o lixo a enfeitaras silvas nas encostas ribeirinhas ou as de-zenas de carros estacionados em segunda fila, ao longo de uma via que tem tudo para ser – mas ainda não é – uma fabulosa rota panorâmica sobre o Douro.Para já, aproveitamos a temperatura sua-ve de uma noite de Verão, nem sempre pos-sível face às amplitudes térmicas durienses.Comprada em 1999 pela família Amorim,recuperada e inaugurada em 2005, a Quin-ta Nova é um dos projectos ligados ao enotu-rismo que estão a propor o Alto Douro comoum destino alternativo de férias ou de fim--de-semana. Fora das estradas mais percor-ridas, pareceu-nos o lugar perfeito para uminterregno de descanso. Trocamos facil-mente o acesso à internet por uma hora noalpendre com vista para as vinhas e o rio.Trocamos ainda mais facilmente a televi-são por um estiramento nos sofás brancos junto aos ciprestes, sobretudo se estiver-
Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo,enoturismo na região demarcada do Douro.
 
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te estes números. Israelitas e brasileiros fa-zem parte das novas nacionalidades emcrescimento, mas o tempo médio de estada continua a ser escasso: cerca de um dia emeio. É pouco, quando há tanto para conhe-cer e experimentar.O modelo das quintas, não sendo para to-das as bolsas, é defendido por Ricardo Ma-galhães, chefe de projecto da Estrutura Mis-são Douro, como um pólo agregador do de-senvolvimento turístico da região. A razãoprende-se com o facto de estas serem «uma matriz identitária da paisagem vinhateira»,com capacidade para representar uma ofer-ta hoteleira que não classifica como «de eli-te», mas «qualificada». Calcula que existamcerca de sessenta quintas, contando com asassociadas à Rota do Vinho do Porto, embo-ra nem todas disponham de meios de aloja-mento ou estejam vocacionadas para o eno-turismo. Um dos mais recentes empreendi-mentos, inaugurado em Maio, é a Quinta doPégo, propriedade de uma família dinamar-quesa investida na importação e comercia-lização de vinhos de todo o mundo. Ro-deiam-na trinta hectares de vinha em bor-dadura (com os socalcos separados poroliveiras), mas a produção de vinho e deazeite não é feita ali. Alcandorada numa en-costa a 138 metros de altitude, com a melhorvista sobre o rio que nos foi dada a ver, trans-formou-se num hotel de quatro estrelas comdez quartos, sendo maioritariamente pro-curada por estrangeiros.Outro conceito de alojamento diferentedas quintas, mas igualmente apostado na 
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mos acompanhados por um Vintage Portoda casa. Para os mais radicais, sugere-seuma partida de
mikado
(quem se lembra do
mikado
?) ou a leitura de um
coffee tablebook 
, à disposição nas várias salas de estar,amplas e confortáveis.Situada no meio de uma propriedade de120 hectares, 85 dos quais de vinha, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo foi buscaro nome à padroeira da capela construída noséculo
XVII
, junto à margem do rio, numa zo-na onde os naufrágios eram frequentes. Porali passa um dos três circuitos pedestres aces-síveis a hóspedes e a visitantes. Não subesti-me as distâncias do mapa nem o declive doterreno. É preferível começar por um pontoalto como o Pomar Romano e descer até à ca-pela; caso contrário, arrisca-se a naufragarde cansaço no meio do vinhedo e não haverá Senhora do Carmo que lhe acuda. Além dospasseios a pé ou de bicicleta (não são permi-tidos jipes à desgarrada), as propostas ligadasao enoturismo incluem visita à adega, segui-da de prova de vinhos do Porto e do Douro,com base nas três marcas aqui produzidas:Três Pomares, Grainha e Quinta Nova deNossa Senhora do Carmo. Estão para breveos programas de um dia nas vindimas e, por45 euros, pode trabalhar-se até à hora de al-moço e gozar a boa vida no tempo restante.
A matriz das quintas do Douro
Nos últimos cinco anos, tem crescido a oferta de alojamento no Douro, em quantidade equalidade. Os últimos dados tratados peloInstituto Nacional de Estatística reportam a 2007 e referem mais de 228 mil dormidasanuais (contra 137 mil em 1997), 82 por centoprotagonizadas por portugueses, seguindo--se os espanhóis, ingleses e franceses. Entre-tanto, a expansão dos cruzeiros fluviais, coma Douro Azul à cabeça, já elevou ligeiramen-
Quinta do Pégo, um dos projectos de hotelaria mais recentes no Douro.Jardins e pomares bem cuidados são um dos atractivos da centenária Casa de Santo António de Britiande.Francisco Abrunhosa,da Casa de Gouvães,aponta a «falta dedivulgação» como umproblema que começanos próprios agentesturísticos da região:«Não vejo grandemotivação de parti-culares e algumasentidades em darema conhecer o Museudo Douro. O turismotem de criar e deixarvalor na região.»
Comboio histórico ou regional?
Pela paisagem, não há dúvida: melhorserá eleger o comboio regional que fazvárias vezes por dia o percurso de ida evolta da Régua ao Pocinho, a última dasestações da linha do Douro. Paga 11euros e tem direito a carruagensdesconfortáveis e pouco limpas, quepodem ir apinhadas de turistas regres-sados dos cruzeiros. Pela experiência,também não há dúvida: o comboiohistórico é único. Sai aos sábados àtarde, de Maio a Outubro, e vai da Réguaao Tua, com paragem de vinte minutosno Pinhão, para fazer compras na WineHouse. Locomotiva a vapor, muitofumo, bancos de madeira, músicatradicional, muito fumo, um chisco debola de carne e um fundo de vinho do
qualidade global, é a Casa de Gouvães, a qua-tro quilómetros do Pinhão. Ideal para famí-lias ou grupos de amigos (acolhe entre seis enove pessoas), chega-se lá por uma estrada secundária de vistas largas que sobe serra aci-ma, e não é caminho para agradar ao turista  japonês. À saída do Pinhão, certifique-se ape-nas de que vai na direcção de Sabrosa e não de Alijó/Favaios. Plantada na bifurcação, existeuma linda magnólia cujos ramos cresceramaté cobrir as placas indicativas. Talvez seja uma estratégia da autarquia para nos obrigara sair do carro e observar de perto as árvores,tão maltratadas andam por esse país fora. A «questão da má sinalética» seria umpalavrão recorrente ao longo da semana,reunindo consenso entre quem se senteprejudicado por não estar visível e quempretende chegar ao seu destino. Segundoum estudo do CED – Centro Mundial deExcelência de Destinos, ligado à Organiza-ção Mundial de Turismo, a sinalização éum dos pontos negros do Douro, a juntarao lixo disperso na paisagem e à desinte-gração da identidade das aldeias. Não poracaso, alguns quilómetros depois, iremosencontrar Francisco Abrunhosa literal-mente às voltas com o sinal que indica o ca-minho para Provesende. O tubo metáliconão aderiu ao cimento, ou vice-versa, e di-gamos que Provesende está agora entre-gue à sorte, acomodando-se aos pontoscardeais conforme lhe dá o vento. «Isto é osuficiente para perder mais umas dezenasde visitantes ao fim-de-semana», diz, ten-tando virar a placa para o sítio certo.
De Gouvães a Provesende
Francisco Abrunhosa, primo do músico como mesmo apelido, é responsável pela gestãoda Casa de Gouvães e mais do que isso. Em2006, topou com uma ruína na aldeia de Gou-
Porto no copo. Muito fumo. Ida e volta,a viagem demora duas horas e vinteminutos. Por 42 euros por pessoa,a CP podia oferecer melhor.
 
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vães do Douro e logo ali acreditou no «tre-mendo potencial» que tinha à sua frente.É preciso ver as fotografias iniciais para per-ceber que estamos perante um homem de fé.Durante mais de um ano, veio do Porto para acompanhar a equipa encarregada da re-construção, que de vez em quando lá volta pa-ra mostrar a outros a obra feita. A recuperaçãodo património edificado é um dos motivospor que está no Douro: «Queria deixar aquialguma coisa que perdurasse no tempo.»Obteve investimento financeiro junto deum casal francês residente em Macau e en-tregou o projecto a um arquitecto de Vila Real, Vivaldo Carrilho da Fonseca. Assim nas-ceu uma casa de campo disposta em socalcos,na confluência da traça rural com as linhas eos atractivos contemporâneos. Distinta, semchegar a ser luxuosa, não lhe faltam comodi-dades como o sistema Hi-Fi, DVD e SportTV,sendo também notório o culto dos pormeno-res. Do périplo pelas lojas e feiras de antigui-dades e velharias, Francisco Abrunhosa trouxe objectos que merecem agora honrasde exposição. Na parede, em molduras envi-draçadas, há envelopes de antigas casas co-merciais: Thiago Augusto Alberto de Almei-da, «especialidades em enchidos e paio dolombo»; Amorim, Coelho & Feio, Lda., «todosos artigos de confeitaria». Uma delícia. Assistida por uma governanta incansável,que tem a seu cargo os pequenos-almoços eoutras refeições a pedido, o que falta à Casa de Gouvães é reconhecido pelo seu mentor:«O Douro precisa de um alojamento de qua-lidade, não massificado, que providencie umconjunto de serviços além da simples dormi-da. Eu não tenho estrutura para muito mais,mas estou preocupado com os meus hóspe-des. Enviei muitos
e-mails
e cartas a entida-des da região que fazem animação turística enão me responderam.» Uma das quintas, queprefere não nomear, deu-lhe como troco a lista de vinhos à disposição para venda ao pú-blico. «Falta atitude e consideração», subli-nha, «e é também por causa de respostas des-te género que o Douro tem um problema sé-rio de divulgação.» De vez em quando, senteo voto de desconfiança lançado a quem vemde fora, «uma característica marcante dotransmontano». A juntar ao «individualismoportuguês», tem como resultado o que está à vista: uma falta de informação articulada quedesorienta o turista e concorre para o des-perdício de recursos a todos os níveis.Um atalho leva-nos de Gouvães a Prove-sende, aldeia histórica que atingiu o apogeuno século
XVIII
e mantém até hoje um gran-de número de casas brasonadas. Os fundosda Comissão de Coordenação e Desenvolvi-mento Regional do Norte serviram para uma operação de requalificação nas ruas enas fachadas dos edifícios, mas há fios eléc-tricos a irromper das paredes e varandas degranito polido que desfiguram o conjunto.Os acabamentos irão alguma vez ser acaba-dos? De Provesende, regressaremos ao Pi-nhão com os enchidos das Papas Zaide emboa memória: o presunto, o salpicão raiado,a carne de porco curada e fumada… Por serdomingo, não havia pão fresco na Padaria Fátima, casa de 1940 onde existe, contam--nos, o maior forno de lenha do concelho deSabrosa e do distrito de Vila Real. Tambémpor ser domingo, estava fechado o posto deturismo, um problema nacional, exemplo tí-pico de como a lógica institucional funciona ao contrário das vulgares expectativas deum cidadão em férias.
Aldeias nem sempre em festa
Provesende, Barcos, Favaios, Salzedas, Tre-vões, Ucanha. O portal das Aldeias Vinhatei-ras do Douro continua 
online
, mas as notíciasdo festival que há dois anos animou as seisterras integrantes do projecto não tiveramcontinuidade. Talvez este ano regresse, senão faltarem os fundos comunitários. Na Ucanha, onde chegámos depois de cruzadoo rio para a margem esquerda, há quem selembre bem da festa que trouxe dança e ar-tes circenses às ruas, puxando o brio da po-pulação, logo ali animada para mostrar o seumelhor. No caso de Maria Adelaide Costa, a Delaidinha, são doces, geleias e compotasque dantes se diziam «caseiros» e hoje são«biológicos». Uma montra onde cabem osabugueiro, o medronho, a maçã bravo-de--esmolfe, o pêssego, o damasco, a pêra, a la-ranja e outros frutos retirados aos seus po-mares. Vende saquinhos de pano e de se-rapilheira, e também chás e infusões para vários males: oliveira para a hipertensão,hortelã-mouriscada para as dores de cabe-ça, carqueja para digestão e para o arroz decoelho, que uma coisa até ajuda a outra. Adelaide Costa é uma mulher de armas.Casou-se ainda aos 16 e enviuvou dez anosdepois de um homem que «foi um pai, umamigo e uma paixão». Não é preciso maisnada para se ser feliz e nada foi com o que fi-cou, exceptuando duas filhas pequenas, en-tregues a um colégio no Porto antes de emi-grar para França. Aprendeu francês «com osolhos», quando a patroa abria os armários elhe soletrava o nome das coisas. Lembra-sedaquela vez em que lhe pediu arroz para o jantar, e ela, aflita, sem saber o que era «o ri,o ri», pensou que a patroa queria vê-la a rir--se, vá lá perceber-se porquê. De volta a Por-tugal, sobreviveu a um segundo marido e a uma doença cancerosa, e então pôs-se a fa-zer doces como terapia. Aos 65 anos, refor-mada, afirma: «Não estou aqui para ganharpara comer, estou aqui por causa da minha doença. Gostava de morrer e ver que as pes-
O Aquapura Douro Valley,o restaurante DOC e aQuinta do Seixo foram osvencedores
ex aequo 
dos prémios do Turismode Portugal para melhorprojecto privado. Antigamansão ligada à Quintada Pacheca, o AquapuraDouro Valley renovou osinteriores, numa linhaentre a sobriedade es-candinava e um certoexotismo oriental.Insere-se num conceitode hotelaria de luxo emque o
spa 
é a grandemais-valia, estandoacessível a hóspedes eao público em geral, talcomo o restaurante.Nesta matéria, o DOCcontinua a ser o trunfoimbatível da região,conciliando uma cozinhade inspiração regionalcom a visão de autor do
chef 
Rui Paula, à frentede uma equipa jovemque surpreende peladescontracção. Desde oDOC, ir à Folgosa passoua ser um capricho com justificação óbvia. Maisperto do Pinhão, e aindana famigerada EN 222,encontra-se a Quintado Seixo, propriedadeda empresa líder domercado nacional devinhos do Porto,a Sogrape. Não se tratade alojamento emespaço rural, mas de umprojecto de enoturismocontemporâneo eestilizado. Durante asvindimas, a visita guiadaconduz aos lagares emactividade, antes determinar numa sala deprovas que é umautêntico
belvedere 
sobre o Douro.
Reorganização do Turismo do DouroUm pódio para três:DOC, Aquapura e Quinta do Seixo
Responsável pela promoção turística de 19municípios, de Mesão Frio a Freixo de Espa-da à Cinta, António Martinho preside, desdeJaneiro de 2009, ao que era antes uma in-compreensível manta de retalhos. Com areorganização iniciada em 2008, o Turismodo Douro é hoje «o resultado da junção deduas ex-regiões de turismo, Douro Sul e Ser-ra do Marão, da Junta de Turismo de Caldasde Moledo e ainda de três municípios da re-gião do Nordeste Transmontano. Agregou--se a estes o município de Foz Côa, que nãointegrava nenhuma região de turismo, infe-lizmente, e por isso a dinâmica à volta dasgravuras nunca se consolidou». AntónioMarinho ainda não teve tempo de pôr emprática um plano de
marketing 
capaz deproduzir os folhetos e mapas que rareiamem todo o lado, mas considera uma vitória aabertura dos postos de turismo aos domingos em Vila Real, Régua e Lamego. Comoprioridades, refere a sinalização e a reconversão da EN 222 em estrada panorâmi-ca, dois estudos adjudicados pela Estrutura Missão Douro em fase de conclusão.Até ao final do mandato, em 2013, quer atingir o objectivo de trazer ao Douro meiomilhão de dormidas anuais, o dobro da cifra actual. Para muito breve, entre 9 e 13 deSetembro, prepara-se o primeiro festival de cinema internacional, Douro Film Har-vest (www.dourofilmharvest.com), que terá lugar em Vila Real, Lamego, Moncorvo eSanta Marta de Penaguião. «Estamos a pensar levar depois os filmes vencedores aoutras localidades, preparando o festival seguinte», afirma. «Se a população é rare-feita, não podemos esperar muita gente, mas é bom que as pessoas de cá tenhamqualidade de vida e acesso à cultura. Os públicos fazem-se.»
Quinta do Seixo, um complemento às tradicionais caves da Sandeman.O Aquapura Douro Valley manteve a arquitectura exterior da antiga quinta e integrou novos edifícios sem prejudicar o conjunto.
soas se deitassem a fazer qualquer coisa, co-mo eu fiz. A vida agora está melhor para unse pior para outros, mas as pessoas queixam--se na mesma.» As casas recuperadas da rua mais íngremeda Ucanha, cores garridas e paredes de lou-sa em escamas, escondem uma pobreza en-vergonhada. Não há muito para fazer, aqui,e o recurso voltou a ser emigrar, como acon-teceu com Arlete, de quem nos falhou a no-ta do apelido. Mas é fácil encontrá-la: até No-vembro, Arlete, 21 anos, corpo de 15, divide--se entre o posto de turismo e as visitasguiadas à Torre de Ucanha, ex-líbris da ter-ra, juntamente com a ponte dos séculos
XII
 / 
XV
. É um emprego de férias, findo o qualregressará a Davos, na Suíça, onde trabalha em hotelaria. Claro que gostaria de estudarHistória, mas onde iria arranjar emprego? A avaliar pelo estado da torre, aparentemen-te bem conservada, mas com o interior aoabandono e preenchido por um arremedode espólio etnográfico que se confunde comlixo, parece que ninguém se importa muitocom a dignidade de um conjunto classifica-do como Monumento Nacional.
Na Rotas das Vinhas de Cister
Da margem direita para a margem esquerda do Douro, atravessando o viaduto de betãoda A24 em direcção de Lamego, a mudança na paisagem é quase abrupta. Os planaltosxistosos trabalhados pela mão do homem,
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