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Cadernos de Pesquisa, v. 36, n. 129, set./dez. 2006
Leituras da cidade...
Nos momentos de grandeza da cidade grega, da
polis
e das cidades-Estados romanas encontram-se as origens clássicas do conceito de cidadania.E do termo grego,
polis
,
traduzido pelos romanos para
civis – civitas
,
nos che-gam as palavras: cidadão, cidadania ou multidão de cidades. Na história dascidades, situações diferentes identificam o que é ser cidadão, mas é no final doséculo VI a.C., com o avanço da democracia ateniense, que vai se delineandoa idéia de uma cidade livre. A vida política de Atenas testemunha um equilíbrioentre os direitos de indivíduos e o poder público e é nesse momento que al-guns homens, reunidos na praça pública, decidem sobre os destinos da cidade.Na ágora
e nas assembléias, a palavra é do cidadão, de homens quehabitam a cidade
1
. “Quem pede a palavra?”,
pergunta o arauto, dando início àdeliberação. E o cidadão chamado a ocupar a tribuna põe sobre a cabeça umacoroa de mirta, tornando-se, assim, inviolável e sagrado. Era com a discussãoe com a palavra que cada um aprendia, pela prática, o ofício de cidadão, seusdeveres e direitos. Chegou, no entanto, um tempo em que, na escala dos va-lores, a eloqüência colocou-se bem acima da sabedoria e fatores, os mais di- versos, foram levando a cidade à decadência. E a palavra volta, assim, a ser privilégio de alguns como já o fora anteriormente, e continuará sendo na cida-de de hoje, quase sem exceção.Na tangência dessas questões, não se pretende, neste trabalho, apro- fundar a idéia de cidade e do que é ser cidadão ao longo da história humana. A tentativa é buscar alguma aproximação com as nossas cidades de hoje, em umpercurso que possibilite posições mais atentas e flexíveis ao desvendamento deimagens, vozes e caminhos que se cruzam na metrópole. A cidade será então focalizada em mais de um sentido: de um lado como um modo de existênciada sociedade; de outro, como um espaço a ser alcançado em sua polifonia. Ealém disso, como um lugar a ser retomado em suas relações com a educaçãoe com a cidadania.Na construção dessa leitura da cidade em suas relações com a educa-ção, que se atente à História e às histórias que fazem da metrópole um lugar
1.Embora o debate se desse na praça pública, era muito pequeno o número dos que utilizavamda prerrogativa de tomar a palavra. Em regra, os chefes de partido e os seus loco-tenenteseram os que arcavam com o ônus do debate, como assinala Gustave Glotz (1980, p.133).