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As novas tecnologias na educaçãoambiental: instrumentos para mudaro jeito de ensinar e aprender na escola
Paulo Blikstein
N
ESTETEXTO
, 
DISCUTIREMOSTRÊSPRINCÍPIOSDETRABALHOCOMASNOVASTECNOLOGIASNAEDUCAÇÃOAMBIENTAL
: 
OFOCONOCONTEÚDO
, 
APLURALIDADEEPISTEMOLÓGICAEATRANSIÇÃODANARRATIVAPARAOMODELOCIENTÍFICO
.E
MSEGUIDA
, 
APRESENTAREMOSTRÊSEXEMPLOS
: 
SOFTWAREDESIMULAÇÃO
, 
DEMAPEAMENTOGEORREFERENCIADOEEQUIPAMENTOSDECOLETADEDADOS
.
PALAVRAS-CHAVE:
EDUCAÇÃO AMBIENTAL, TECNOLOGIA, ROBÓTICA, GEOPROCESSAMENTO,CONSTRUTIVISMO.
 
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I
NTRODUÇÃO
U
MMUNDOSEMEDUCADORES
?
Proponho ao leitor um exercício de imaginação. Imaginemos um mundo em que, por alguma razão misteriosa, nunca tenhamexistido pesquisadores em educação. Jamais, em época alguma, consideramos estudar como as pessoas aprendem. Nesse mundofictício, Jean Piaget continuou estudando Zoologia, Paulo Freire continuou sua carreira de advogado, Seymour Papert foiapenas um brilhante matemático. Nunca passou pela cabeça de alguém criar um curso de pedagogia ou centros de pesquisa sobreo tema.Nesse mundo, como seriam as escolas? Muito provavelmente, idênticas às nossas escolas de hoje: alunos em fileiras, professorlá na frente, provas, livros didáticos, crianças divididas por idade, programas de estudo sobrecarregados com conteúdos irrele-vantes, “decoreba” e falta de motivação. Esse breve exercício de imaginação sugere que, infelizmente, décadas de pesquisa emeducação pouco fizeram para mudar nossas escolas. Sim, há avanços – mas, de um modo geral, verdade seja dita: nossas escolascomportam-se como se Piaget, Vygostky, Freire ou Papert jamais tivessem existido.Há, entretanto, outra pergunta perturbadora: nesse mundo imaginário sem pesquisadores em educação, o que será que as pes-soas
pensam 
sobre o aprendizado humano? O leitor concordará que elas pensariam muito diferentemente de nós. A maioria dosprofessores e educadores brasileiros concordaria, sem hesitação, que conhecimento se constrói, não se transmite (PIAGET); que aescola precisa fornecer ferramentas de leitura do mundo, e não só da palavra (FREIRE), e que a construção (ou seja, o “fazer”) éum grande instrumento de aprendizado (PAPERT, s.d.). Poucos afirmariam, por exemplo, que o melhor jeito de aprender é colocarum aluno sentado durante cinco horas por dia ouvindo o professor falar e depois aplicar uma prova.Aparentemente, portanto, as idéias dos educadores mudaram o que as pessoas pensam sobre educação, mas não mudaramsignificativamente a escola. Será que estamos condenados a reproduzir eternamente a estrutura tradicional da escola? Afinal decontas, há esperança?Sim, há esperança. Sabemos que o primeiro passo para qualquer grande transformação é mudar o que as pessoas pensam e,felizmente, isso está acontecendo com a educação. Muita gente já sabe como deve ser, mas ninguém sabe como transformar essavisão em realidade. E aí entra a tecnologia – ela pode ser uma poderosa arma para transformar em realidade a nossa utopia de
 
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uma escola mais democrática, motivadora e interessante. A tecnologia digital, atualmente, tem essa interessante propriedade deser um cavalo de Tróia”: ela tem entrada livre na escola e pode levar idéias inovadoras na bagagem.A educação ambiental é, aliás, um excelente campo para tentar novas abordagens de ensino e aprendizagem. Em primeirolugar, ela é um tema que motiva os alunos – ela está nos jornais, na televisão, na vida de todos nós. Em segundo lugar, é umaárea em que, efetivamente, é possível fazer diferença no mundo – mesmo em pequena escala, as ações têm resultados relevantesna vida da comunidade. Além disso, educação ambiental envolve atividades fora dos muros da escola: coleta de dados, obser-vações e entrevistas. Os alunos não precisam ficar presos na sala de aula ou nos livros didáticos. Finalmente, a educação ambientalnão é uma disciplina rígida e bem-estabelecida como a matemática ou o português, com seus currículos monolíticos e provasem vestibulares – isso abre espaço para tentarmos novas abordagens educacionais.Neste texto, discutiremos como a tecnologia, e em particular sua aplicação na educação ambiental, pode ser usada para intro-duzir novas formas de trabalho na sala de aula. Primeiramente, discutiremos três princípios de trabalho (o foco no conteúdo, apluralidade epistemológica e a transição da narrativa para o modelo científico) e, em seguida, relataremos três exemplos de tecnologias(
software 
de simulação e modelamento,
software 
de mapeamento georreferenciado e equipamentos de coleta eletrônica dedados). Antes disso, entretanto, vamos esclarecer um equívoco comum sobre o uso das tecnologias digitais da educação.
T
ECNOLOGIANAESCOLANÃOÉ
UMAFERRAMENTA
Apesar do que o senso comum nos diz, computador não é só uma ferramenta. Algumas tecnologias, como lembra o profes-sor Andy DiSessa, da Universidade de Berkeley (EUA), tornam-se infra-estruturais: elas deixam de ser apenas complementos danossa vida e passam a dar sustentação a todas as nossas atividades – na sala de aula e fora dela. Vejamos o exemplo da escrita:há alguns séculos, ela era uma atividade complementar, reservada a alguns profissionais especializados. Hoje ela permeia quasetudo que fazemos.As tecnologias digitais estão, também, tornando-se
infra-estruturais 
. O computador não é apenas uma ferramenta: direta ouindiretamente, ele é parte de toda ação ou projeto que queiramos empreender. Nesse contexto, o domínio das novas tecnologiasnão pode ser meramente instrumental, ou seja, não basta ser apenas um bom usuário: é preciso ser criador, produtor, saber comofuncionam e como modificá-las. Aprender a operar um processador de textos ou navegar na internet não é suficiente. É o mesmoque
saber ler sem saber escrever 
 – evidentemente, fazer uma redação é mais complexo do que ler um texto, mas o que seriam denossas crianças se saíssem da escola com um domínio apenas instrumental da escrita?
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