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MARCELLO SALVAGGIOA Rosa e a Cruz
 
A ROSA E A CRUZ
Prefácio
A intenção deste livro não é, o que seria lugar-comum e reducionista,denegrir a Igreja Católica, que como todas as instituições possui aspectos positivos e negativos, pessoas de fé sincera e outras nem tanto, muito menoscriticar a religiosidade genuína, e sim, além de ser sobretudo uma ficção, e portanto fruto da imaginação e da pesquisa do autor que vos fala, fazer umareflexão sobre os demônios internos do ser humano, os únicos que podemrealmente nos dobrar, sendo inclusive os que abrem as portas para os malesexternos. Já conheci duas pessoas que tentaram tirar suas próprias vidas: emcasos como esses, devemos cultivar o respeito e o amor por nosso semelhanteque se encontrou em uma situação tão difícil, não julgamentos e interpretaçõesarbitrárias que jamais poderão nos proporcionar o que o outro sentiu, que sóservem para alimentar o desespero alheio. O medo, a cobrança, a inveja, aganância e a hipocrisia (secular ou religiosa) são as verdadeiras criaturas dastrevas que tentam obscurecer estas ginas, podendo se manifestar emqualquer um de nós e em qualquer sociedade ou organização; o problema nãoestá nas religiões e nem nos sistemas políticos, mas nos seres humanos queinsistem em não olhar para dentro e dar importância aos demônios ao redor,mesmo quando não existem. Se há ameaças próximas e o perigo nos ronda, é porque demos alguns passos adiante em uma terra na qual não devíamos ter  pisado; de qualquer modo, uma vez que entramos nela, só nos resta ir emfrente, compreendendo que as sombras na floresta são simples sombras,transformando-se em monstros quando especulamos de onde elas vêm, emverdade sombras de nós mesmos...PRIMEIRO ATOI – Na superfícieA poeira vermelha e insalubre se espalhava pelo ar turvo e estático. Nohorizonte um ocaso de expectativa, conquanto o houvesse nenhumespectador aparente; olhos ocultos fitavam o passo do cavaleiro, a faceencoberta pelo bacinete de aço. Sobre o animal berne, o guerreiro reluzia em prata, com sua cota de malha finamente trabalhada e uma capa apresentandouma cruz sutil, de linhas vermelhas preenchidas pelo branco.
 
- O senhor veio cortar a minha cabeça?- Indagou a única outra presença ali,uma menina pálida com seus seis anos, vestido preto e rasgado, descalça, osemblante assustado e os olhos azuis trêmulos.A respiração que saía do elmo era tranqüila, o andar calculado; o queassustaria a maioria, porém certamente sem poder ser usado contra crianças,eram as duas espadas cruzadas em suas costas, ao que tudo indicavamontantes, que mesmo uma de cada vez seriam empunhadas com dificuldade por homens de grande foa. Idênticas, sendo as bainhas reluzentes,destacavam-se as empunhaduras num prateado mais escuro, em forma dedragões retorcidos, que faziam um tremendo esfoo para morder, semsucesso, suas próprias caudas, em uma perseguição munida de dentes edesespero.- O senhor não pode me machucar.- A garotinha insistia diante do avançoindiferente do cavaleiro, não saindo de seu caminho, em um corredor de casasde madeira e taipa simples daquele melancólico vilarejo do sul da Alsácia.- Sequiser, pode comer carpa frita comigo e com os meus pais hoje. Ou o senhor não me entende? Nunca ouviu falar das carpas de
Sundgau
? Ontem mesmotivemos a festa de
Saint Nicolas
. Por que o senhor não participou? Ganheimuitos biscoitos e pedaços de bolo e
 pain d’épice
. Sabe como se faz? A minhamãe pode te passar a receita depois!O cavaleiro acelerou de repente, desembainhando uma de suas espadas, cujaempunhadura emanou uma luz de prata, e o dragão em metal ganhoumovimento, por fim mordendo a cauda; a cabeça da menina voou para longecom um único golpe.- Isso não é bom...O senhor quer que eu chame os meus pais?- A face falouseparada do corpo, no chão, sobre a pocilga de sangue que se formara; dotronco estanque, imóvel, brotou uma nova cabeça, enquanto a primeira sedesmanchava na forma de uma gosma da cor da pele e dos cabelos fundidos.Os novos olhos, contudo, apresentavam uma vermelhidão quase negra nasveias, e foi com estes que fitou o guerreiro com intenso ódio. O verde dasárvores e da grama da região, já opaco, ficou ainda mais coberto de poeira,apesar de não haver vento. As minúsculas migalhas encarnadas pareciam brotar de forma espontânea.O cavaleiro avançou outra vez; porém, diferentemente do que ocorrera na primeira tentativa, a menina se moveu, esticando os dedos da mão direita, queagiram como lanças flexíveis, as unhas se transformando em pontas metálicas,sendo vital o posicionamento correto para tirar proveito do visor perfurado emforma de cone, que facilitou o desvio do ataque frontal. Na seqüência, maisum golpe preciso e o braço da criatura com aparência de criança foi cortado.
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