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na ação sobre o outro, alternância de função entre “oque altera” e “o que é alterado”. Que não tenham ascrianças o domínio consciente dessas estruturas lógicascriadas pela sociedade, mas elas estão presentes nasua conversa. E no contexto de seu uso, são pertinen-tes. Não se está falando disso no vazio, fora da situa-ção social comunicativa da entrevista... Ou seja, podehaver algo mais complexo nesse pequeno diálogo, doque um pensamento guiado só por impressões senso-riais. Pode ser que tal riqueza de informações e rela-ções concretas entre as coisas do mundo físico, indica-das pela linguagem, não tenha sido exatamente foca-da, ou explorada. Pelo menos se o foi na entrevista emsi, isso não foi trazido para a sociedade no vídeo.Os organizadores do vídeo assumem que as criançasvão "pouco a pouco" transitando de formas mais sin-créticas (idiossincráticas) e concretas (sensorialmenteorientadas) de lidar com as relações entre a linguageme a realidade, para formas mais abstratas (sistemáticas)de fazê-lo. Contudo, a
ênfase
do vídeo é grande, quaseexclusiva, nos aspectos de "ligação às experiênciassensoriais", e bem pequena, quase nenhuma, no pro-cesso de superação disso... Nota-se um destaque talvezmaior naquilo que as crianças "ainda não fazem" doque nos processos que já começam a dominar. Não sãodestacados nem analisados, neste vídeo
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, os momen-tos nos quais as crianças se valem de sua própria lin-guagem para apresentar características objetivas desua relação com o mundo. Não se coloca exatamenteem discussão a “formação de conceitos”, a gênese daconceituação mais sistemática, como processo queenvolve diferentes modalidades de relação da lingua-gem com as características objetivas daquilo que nelanomeado.Se não, vejamos.
2) SOBRE COMO PENSAM E FALAM OSPRODUTORES DO VÍDEO
Em segundo lugar, eu gostaria de destacar que, nestevídeo, há complexas relações entre pensamento e lin-guagem não apenas no discurso das crianças, mastambém, e sobretudo, no discurso dos organizadoresdo vídeo, na voz que narra e na voz da pesquisadora.Estas vozes tentam subordinar os “fatos” a uma certaexplicação, tentam dar-lhes um sentido, dentro de uma
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Há também um artigo publicado na revista Nova Escola, que trata domesmo tema que o vídeo. Contudo, não é meu objetivo discutir as categori-as do artigo, nem identificar se há coerência ou não entre o vídeo e asreferências teóricas do artigo. Considere-se apenas que um vídeo comoesse chega a muitas pessoas, e sua linguagem como tal, com ou sem publi-cação escrita complementar, já é uma peça retórica por si só e chega aoseducadores com determinada mensagem. Portanto, se no vídeo se dizcertas coisas, imagina-se que quem o diz se responsabiliza pelo teor dotexto.
certa visão teórica, certa visão de mundo, permeadatambém pelas crenças dos adultos. No processo pen-samento-linguagem destes adultos, nós podemos iden-tificar, pelo menos, duas categorias principais: (2.1)uma omissão dos aspectos meta-cognitivos em jogo; e(2.2) um “sincretismo” adulto, na forma de ecletismoepistemológico. Além dessas questões, e como algoainda relativo ao modo de teorizar-se o pensamentoinfantil presente no vídeo, podemos acrescentar ou-tros dois momentos para a discussão: (2.3) sobre opapel do “pensamento sensório-motor” em criançaspré-escolares; (2.4) sobre o papel do “sincretismo” sobmodos diferentes de conceituá-lo.
2.1 Uma omissão sobre os aspectos meta-cognitivosem jogo
Chamo aqui de aspectos “meta-cognitivos” do pensa-mento da criança, aqueles movimentos pelos quais seupensamento e linguagem se voltam para a compreen-são e organização de seu próprio modo da agir, de serelacionar, de dizer e pensar sobre as coisas. O que sesupõe que envolva um grau de abstração um tantomaior que somente juntar “subjetivamente” traços damemória de impressões sensoriais colhidas por umaexperiência espontânea. Tais aspectos estão presentesno vídeo, mas não são considerados. Como quando amenina Flora (de apenas 3 anos) interfere sobre o pró-prio modo de falar da colega Rosa (3 anos), questio-nando: “Ônibus voa, por acaso? (...) A gente está falan-do sobre coisa que... voa” (nomeando o próprio ato defalar em torno de temas, indicando que este ato devetranscorrer de acordo com certas regras – “não é paramudar de assunto”).Monique:
— Vocês já andaram de avião?
Rosa:
— Sim
Flora:
— Sim
Rosa:
— A minha mãe levou eu no ônibus
Flora:
— Ônibus voa, por acaso?
Flora:
— A gente tá falando...
Rosa:
— (riso) Não. Mas ônibus não voa, Flora.
Flora: —
A gente tá falando sobre coisa que... voa.
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