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1 MÚSICA É OUTRA HISTÓRIA
Toda música exprime sentimentos e mesmo idéias. Não apenas a músicapopular com suas canções compostas de letra e música ou a ópera com suasestórias e histórias, mas também a chamada música erudita ou clássica, que naconstrução de suas escalas, nos seus andamentos, traz uma significação, tem umahistória a contar.A questão colocada é que os idiomas nacionais e a linguagem musical seconstroem e transitam em freqüências bem distintas. Entretanto, isso não significaque a música não possa ajudar a contar – num sentido o mais total do termo – ahistória da humanidade.Primeiro trataremos da relação mais imediata entre história e música, paradepois penetrarmos nessa outra história da música.Em seu “História social da música”, Henry RAYNOR (1981, p. 9)escreveu:
“A história é provavelmente o mais complexo dos estudos. Para melhor digestão dividimo-la em vários constituintes e destacamos história políticaou social, econômica ou militar, pensamos em história da arte ou da ciência,da literatura ou da música. Contudo, tão logo o estudioso se aplica aqualquer dessas seções muito bem delimitadas do assunto, percebe nãopoder apreendê-lo completamente sem referência a pelo menos algumasdas demais. Poderemos acaso compreender o desenvolvimento docomércio e da indústria depois da reforma sem algum conhecimento sobre aatitude revolucionária quanto ao dinheiro assumida a partir da reforma, eque possibilitou o progresso do capitalismo ao afastar grande parte doestigma da usura? Só podemos compreender a história da ascensão equeda de Napoleão fazendo referência, entre outras coisas, ao poderioindustrial, e, portanto, financeiro, da Inglaterra. A história, por mais que adividamos em departamentos, tende sempre a tornar-se um estudo uno,com fronteiras extremamente vagas em virtude de sua vasta abrangência.Afinal, ela é o registro das atividades humanas em geral, e essas sãonecessariamente interdependentes; e como se sobrepõem, as inevitáveissetorizações são forçosamente falseadoras.”
Fica claro então que a história de um longo período não é uma soma deseus períodos menores de tempo. Da mesma forma, um determinado tempohistórico não pode ser traduzido pelo encaixe estanque das análises de suasdiferentes estruturas e dimensões, feitas, cada qual, à revelia do todo. Umarealidade histórica é um todo complexo, uno e sempre contraditório, onde economia,política, cultura, vida privada e mesmo dimensões “menores” da realidadeencontram-se ligadas, formando um organismo social vivente.