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A centralidade do planejamento na elaboração de material didático PARA EAD
Thelma Rosane P. de Souza
CEAD/Universidade de Brasília eABEAS – Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior thelma.souza@mailcity.com 
Carlos Hiroo Saito
Departamento de Ecologia e CEAD/Universidade de Brasíliasaito@unb.br 
FONTE: http://www.abed.org.br/antiga/htdocs/paper_visem/thelma_rosane_de_souza.htm
Introdução
Tem ocorrido uma crescente valorização da Educação à Distância – EAD devido à crença na sua capacidade decumprir metas de instrução com uma baixa razão custo/benefício e largo alcance territorial. No entanto, esteaumento de demanda por EAD tem levado a uma vulgarização desta modalidade educacional, com a proliferaçãode núcleos promotores de educação à distância e materiais didáticos sem a devida qualificação e compreensão deseus limites e potencialidades (Aretio, 1997). 
1. O que é a EAD
Entende-se por EAD a modalidade de educação que embora feita à distância, mantém uma preocupação emarticular conteúdos, objetivos e a iniciativa do educando, como qualquer processo pedagógico. A EAD não seresume a um material instrucional que apresenta uma seqüência ordenada de conteúdos, apresentadapaulatinamente de forma que o educando possa assimilá-los. Embora esta preocupação esteja contida noprocesso de elaboração do material didático, não pode ser o elemento central. Esta distorção se justifica pelapreocupação exclusiva com a lógica interna do conteúdo, acreditando que o material didático, quando preparadoobedecendo a esta lógica, por si só assegura o aprendizado de qualquer educando.É necessário clarificar o que se entende por processo educativo: educar não é simplesmente fazer com que oaluno memorize uma seqüência de informações; trata-se de fazer com que o aluno seja capaz de compreender conceitos a partir da vinculação dos mesmos com sua realidade próxima e de reinterpretá-los. E por meio dessamesma experiência cotidiana, com base nas ações empreendidas para melhor compreendê-la e transformá-la, queseja capaz de teorizar sobre sua prática (Tereso, 1992). 
2. O papel do planejamento
Para elaborar um curso na modalidade de EAD é necessário assumir, como atividade central e preponderante parao sucesso do empreendimento, a realização de um planejamento sério e cuidadoso do processo pedagógico a ser iniciado.No entanto, vale repetir, o planejamento não pode ser encarado como o ato de ordenar seqüencialmenteconteúdos, ou de fragmentá-los em parcelas representativas de núcleos conceituais a serem ensinados.Planejar significa explicitar de forma articulada a justificativa, a caracterização do contexto, o perfil da clientela e osobjetivos de um determinado projeto. É esta articulação que definirá a metodologia e sua fundamentação teórica, oque, em um plano detalhado, orientará e definirá os contornos para a elaboração do material didático.
 
Cada curso é um curso particular, que requer formas específicas de interatividade e dialogicidade, estratégias paraprodução de conhecimento e modos de obter a aplicabilidade no cotidiano daquele educando, para o qual écontextualizado.A mediação didática não pode ser vista como mera técnica para ensinar qualquer coisa a qualquer um, comoocorreu com a chamada Didática instrumental, influenciada pela Didática Magna de Comênio (Titone, 1966).Requer a contextualização do processo pedagógico. Nesta concepção, a EAD é vista como processo educativo enão apenas instrutivoO processo de planejamento de um curso de EAD se estrutura em diferentes níveis hierárquicos. Um primeiro nívelse refere à concepção do curso, articulando justificativa, objetivos, contexto e clientela. É neste nível que se defineos conteúdos, sua sequenciação e a sua base metodológica. Um segundo nível se refere ao tratamentopedagógico dado ao material a ser utilizado pelo educando. Aqui se manifesta a preocupação com as formas decomunicação e se define as estratégias da narrativa a serem aplicadas aos textos, a linguagem audiovisual e asferramentas auxiliares para o processo de aprendizagem (Ruiz e Cordero, 1997). Um terceiro nível se refere aoprocesso de avaliação do aluno. Cada um destes níveis será objeto de análise detalhada a seguir. Finalmente, háa necessidade de validar o material, cujo planejamento é realizado no primeiro nível, junto com a concepção docurso, mas que, didaticamente, será analisado em separado. 
2.1. A concepção do curso
Todo curso, ao ser demandado, apresenta uma justificativa, uma razão para ser ofertado. Em função desta justificava e dos objetivos a serem alcançados, preliminarmente enunciados, bem como do contexto profissional einstitucional envolvidos, ou seja, da capacidade de alcançar-se ou não determinados segmentos sociais paracompor o alunado potencial, pode-se precisar melhor a clientela do curso.A dinâmica do processo de definição da clientela de um curso pode ser melhor visualizada com o exemplo doCEAD-UnB e do Departamento de Ecologia – UnB quando foram procurados pelo Ministério do Meio Ambiente,Recursos Hídricos e da Amazônia Legal – MMA, no âmbito do Programa Nacional de Combate à Desertificação –PNCD, para a elaboração de um curso de capacitação de recursos humanos na problemática de desertificação. Daforma como foi apresentada a solicitação do Curso pelo MMA ficava muito vago o perfil dos prováveis alunos.Como o objetivo era capacitar recursos humanos que pudessem atuar como multiplicadores dos conhecimentosadquiridos para sedimentar uma cultura regional voltada para o combate à desertificação, o MMA solicitou,inicialmente, que o curso fosse elaborado para técnicos que atuassem na área. No entanto, para atender melhor osobjetivos do PNCD, optou-se por privilegiar os professores do ensino básico como clientela. Posto desta forma,tanto a proposta de conteúdo quanto de metodologia do curso sofreram significativa mudança, pois foi precisobuscar a articulação dos conceitos de desertificação com o conteúdo programático do ensino fundamental,principalmente, tratando a temática ambiental como tema transversal conforme recomendado pelos parâmetroscurriculares nacionais.Além disso, para assegurar uma maior dialogicidade no processo pedagógico e possibilitar a incorporação doconhecimento prévio dos alunos, fruto de experiências vividas, decidiu-se que antes de o material didático ser elaborado, seria feito um levantamento preliminar, através da aplicação de questionário aos potenciais alunos docurso (através de pré-matrícula), cujos resultados seriam incorporados ao conteúdo. Esta incorporação será objetode tratamento pedagógico, de forma que não só os alunos possam ver sua experiência e seu saber contidos nomaterial do curso, como também esta mesma experiência e este mesmo saber possam ser utilizados como pontode partida para reflexão crítica através da problematização, conforme conceituado por Paulo Freire (1988).Um outro exemplo pode ser extraído da montagem do curso de Capacitação em Serviço Social e Política Sociais,atualmente em oferta. Sendo um curso promovido conjuntamente pelo CEAD/UnB, Conselho Federal de ServiçoSocial – CFESS – e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, este curso tem umcaráter bastante peculiar, pois além de buscar capacitar profissionais de todo o país, objetiva aproximar oassistente social das suas entidades profissionais. Representa, pois, o atendimento a uma antiga reivindicação dacategoria e, desta forma, traz, por si só, um conteúdo político classista marcante. Para este curso, foi definido umsistema de acompanhamento por professores-orientadores, distribuídos regionalmente (e não centralizados noCEAD/UnB), de forma a promover maior integração entre os profissionais das regiões geo-econômicas. Inclusive,considerou-se a necessidade de realização de encontros presenciais organizados pelos Conselhos Regionais –CRESS, de forma a promover maior integração dos profissionais com seus CRESS.
 
A estrutura do curso e a dinâmica de realização se encontram articuladas com os objetivos planejados visandoatender os interesses do aluno e o contexto político institucional de oferta do curso. Para tanto foi traçado o perfildo assistente social, com a utilização de um formulário, instrumento de pesquisa criado para este fim. Tendo emvista os objetivos de ampliação das competências teórica, política e técnica dos assistentes sociais e os interessesinstitucionais dos promotores, o conteúdo do curso foi definido em cinco módulos básicos além de um módulo finalde elaboração de monografia para obtenção do certificado de Curso de Especialização. Estes cinco módulosversam sobre: a) Crise Contemporânea e Serviço Social; b) Reprodução Social, Trabalho e Serviço Social; c)Política Social; d) O Trabalho do Assistente Social e as Políticas Sociais; e) O Projeto de Pesquisa em ServiçoSocial, este último visando instrumentalizar o profissional para a elaboração de projetos de pesquisa comointegrante do exercício profissional. 
2.2. O tratamento pedagógico
Uma vez definidos os contornos gerais do curso – a sua estrutura – é preciso planejar como será o materialpedagógico a ser entregue ao aluno.O conteúdo selecionado deve ser organizado de forma seqüencial, através de um encadeamento lógico quepermita ao aluno articular os diversos conceitos que lhe forem apresentados gradativamente, para construir umentendimento cada vez mais aprofundado da temática posta. A cada módulo, ou conjunto de módulos compondouma unidade de estudo, deve ser apresentado ao aluno uma justificativa daquela temática, como ela se insere noprojeto global do curso, e como se articula com os módulos anteriores e posteriores.Os módulos, individualmente, devem apresentar uma estrutura uniforme, contendo uma introdução que situe aproblemática a ser tratada; objetivos explicitados de forma que o aluno compreenda o que se espera com aquelemódulo; o conteúdo do módulo propriamente dito apresentado de forma organizada, com subtemas claramenteidentificados através de subtítulos; uma conclusão final que sintetize as idéias apresentadas; referências dabibliografia utilizada no texto e sugestões de leituras complementares.Os textos devem ser revistos exaustivamente, com aplicação de técnicas de narrativa, de forma que o discurso fluanaturalmente e que a linguagem do texto seja um elemento facilitador não criando obstáculos para o processoeducativo.Um outro elemento facilitador da aprendizagem é o glossário de termos e conceitos. No entanto, os glossários nãotêm a mesma função e não obedecem a iguais procedimentos na sua confecção, eles dependem do perfil de cadacurso e do alunado. No caso do Curso de Capacitação em Serviço Social e Políticas Sociais, foi necessário levar em consideração dois fatores: primeiro, que os alunos eram compostos de profissionais, muitos deles afastadosdos estudos acadêmicos por muitos anos e, por conseguinte, com maior necessidade de familiarizar-se comterminologias atualmente em voga; e segundo, que pela própria natureza da temática abordada, muitas vezes osconceitos tratados ao longo do curso eram apresentados de forma diferente, com nuançes, interpretações e atéabordagens diferentes conforme o autor dos textos. Esta pluralidade de visões foi posta como uma necessidade docurso, de forma a auxiliar na formação de uma postura crítica dos profissionais de Serviço Social. Neste sentido, oglossário apresenta esta diversidade de interpretações para um mesmo conceito, chamando inclusive a atenção doaluno para este fato e apontando para as divergências entre os autores nos textos.Além do glossário, o texto em si deve ser organizado de tal forma que os conceitos sejam apresentados um a um esistematizados antes de apresentar-se um novo conceito. A organização do texto com subtítulos claramentedefinidos auxilia neste seqüenciamento e graduação de conhecimentos. No entanto, para que isto seja asseguradoe para que o aluno possa percebê-lo e assimilar os conceitos, deve-se incluir questões de reflexão que forcem oaluno a buscar a sistematização do conceito recém-apresentado. Neste sentido, o ideal é que ao término de cadabloco de conhecimentos incluídos em um subtítulo do texto seja apresentada uma questão de reflexão ou desíntese. Cabe lembrar, porém, que estas questões não devem levar o aluno a transcrever diretamente, comoresposta, trechos do próprio texto. Neste caso, estaria apenas levando o aluno à simples memorização deinformação, sem instigá-lo à reflexão.No Curso de Capacitação em Serviço Social e Políticas Sociais os alunos foram orientados a se reunir em gruposde estudo de até três alunos para discutir, problematizar e elaborar respostas para as questões de reflexão.Segundo Carvalho (1988) o estudo em grupo, quando bem organizado e planejado, é bastante enriquecedor. Aoajudar cada membro a desenvolver atitudes de convívio social, promove a socialização do conhecimento. O alunoquando tenta reduzir sua solidão e a distância aprende a trabalhar em grupo; e quando divide diferentes pontos de
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