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Processos de Cura na Bíblia e na vida
Alexandre Rangel
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Apresentação
tendo dito isso, Jesus cuspiu na terra, fez lamacom saliva, aplicou-a sobre os olhos do cego e lhedisse: vai lavar-te na piscina de Siloé – que quer dizer Enviado. O cego foi, lavou-se e voltouvendo.” (Jo 9,6-7)
Esse artigo traz uma serie de reflees sobre a minhaexperiência e aprendizado com um grupo de portadores/as de HIV.Em 2002 minha curiosidade e vontade de aprofundar sobre o tema damorte me colocou em contato com um grupo de portadores/as que sereuniam a cada 15 dias em Brasília. Nunca imaginei que iniciaria umaprofunda jornada de descoberta sobre a vida e seu sentido.A experiência provocou uma mudança na minha visão sobre acura, doença e a saúde. Descobri com o grupo que existem doençasque não serão curadas e que algumas doenças podem levar a muitasoutras curas, talvez mais profundas do que as visíveis. Comecei a meperguntar ao longo da experiência: quais curas eu mesmo precisavaem minha vida e em minha ação pastoral? Parando um pouco parapensar, consegui ver as diversas doenças presentes na vida daspessoas e das realidades, a maioria das doenças são promovidas pelodescaso, pela discriminação, pela indiferença e, sobretudo, pelasdesigualdades de um sistema injusto como vivemos em nossomundo.No grupo de portadores/as percebi que a maior doença a servencida/curada ainda é a discriminação ou como dir-se-ia no tempoda blia “esse é um dos maiores esritos impuros” que existeatrelado ao HIV. Um dia no grupo recebi uma pergunta anônima
 Alexandre você teria coragem de namorar com uma portadora de
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Educador Popular, assessor do CEBI Planalto Central e assessor do MovimentoSem Terra.
 
HIV?”,
respondi de imediato que sim, mas depois fiquei pensando napergunta e no sentimento que passou por mim, e dei-me conta dotamanho que é o abismo provocado pelo vírus chamado: medo ediscriminação.Descobri diversos processos de cura nessa experiência, perdimuitos dos preconceitos com rituais como: as missas de cura, cessõesmediúnicas, curandeirismo, macumbaria; mantenho minha visãocrítica, mas consigo perceber o valor de cada uma das experiências ecomo elas podem gerar vida. Nesse contexto, a minha vio foidefinitivamente transformada com a experiência que fizemosacompanhando a Afonso em sua fase terminal.O Afonso era uma das pessoas mais materialistas do grupo, em“nada” acreditava, tinha uma visão sobre a morte como fim e nadamais; ele geralmente me afrontava nas reflexões que eu conduziasobre a morte e o sentido da vida. Ele entrou em um processo de faseterminal, mas não morria, percebi em uma das minhas visitas que eleestava com medo de morrer, pois queria viver ao máximo, já que amorte é o fim. Um dia ele nos pediu para ir procurar um médium quereside na cidade de Abadiânia – GO. Muitas pessoas vão procurar curacom esse médium. Um casal que coordenava o grupo levou o Afonso.Chegando lá ele falou
“aqui sinto uma paz, e se alguém pode fazer algo por mim é esse homem”,
ele fez a consulta com o médium evoltou. Na mesma semana ele chamou a ex-mulher e pediu para elaescrever orientações, depois entrou em coma e, assim que os filhoschegaram ao hospital, ele morreu. De alguma forma ele fez umaexperiência sagrada com o médium, e nem tanto pelo médium, maspelo espaço de experiência do sagrado. Acho que como Buda eudescobriu uma nobre verdade: temos que procurar criar espaços decura, de experiências do sagrado, espaços terapêuticos. É nessesentido que as missas de cura, terreiros, centros mediúnicos “podem”ser espaços de experiências do sagrado.O caminho reflexivo que vou trilhar parte dessas experiênciasque vivi com o tema da cura e saúde, é uma reflexão organizada
 
pelos/as mestres e doutores/as da vida, da resistência e da luta pela“cura”, em busca do sentido e qualidade de vida. Entendo comoprocesso de cura 3 elementos:
A Consciência das Doenças
,
ABusca pela Cura
e
a Descoberta da Saúde
. Uma profundavivencia desses elementos pode conduzir à experiência de superar afragmentação em direção à integração do ser.
A Consciência das Doenças
...habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes.Muitas vezes já o haviam prendido com grilhõese algemas, mas ele arrebentava os grilhões eestraçalhava as correntes e ninguém conseguiasubjugá-lo. E sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas,dando gritos e ferindo-se com pedras.” (Mc 5,3-5)
Na tradição judaica, no tempo de Jesus, as doenças eram vistascomo resultado da possessão por espíritos impuros ou demônios.Geralmente as doenças que alteram a “sanidade” mental eramconsideradas “espírito impuro” e as demais como sendo ação dodemônio.Uma visão religiosa mais ligada a uma teologia da retribuiçãoafirmava que se uma pessoa é pobre, doente e sem filhos é porquepecou, ou se nasceu doente é porque seus pais pecaram, essa visão ébem demonstrada no livro de Jó no debate entre ele e seus amigos (Jó12 a 17). A pergunta dos discípulos a Jesus sobre o cego de nascençadeixa outro exemplo dessa vio teogica:
seus discípulos perguntaram: Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascessecego?” 
(Jo 9,2)
,
ou seja a doença provem do pecado, portando aspessoas doentes são pecadoras e não podem freqüentar o templo.Na própria Bíblia há resistência a esse tipo de teologia. Jó, porexemplo, não aceita que uma pessoa é pobre e doente porque pecoue por isso discute com seus “amigos” e em seqüência discute com opróprio Deus (Jó 38 e 39). Na experiência de Jó ele descobre um Deus
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