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Ensino Domiciliar

Ensino Domiciliar

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REVISTA EDUCAÇÃO - 06/2008 - EDIÇÃO 134
Ensino domiciliar, direito ou desvio?
De sujeitos e indivíduos
 A criança alijada do convívio escolar se priva do encontro com o outro, com o que lhe é diverso
José Sergio Fonseca de Carvalho
A educação domiciliar, até hoje aceita e relativamente corrente nos EUA, tornou-se novamente objeto de controvérsiano Brasil a partir de uma ação jurídica visando a possibilidade de seu reconhecimento legal. Não se trata, como podeparecer, de uma novidade. Era prática corrente no seio da elite brasileira até final do século 19. As controvérsias sobresuas supostas vantagens ou desvantagens remontam pelo menos ao século primeiro da era Cristã. Quintiliano,pedagogo e orador romano, já tomava partido nos debates que opunham o 'ensino coletivo' ao 'tutorial', preferindo oprimeiro em função da pluralidade de exemplos com os quais a criança conviveria. A elite colonial e imperial justificava aescolha da educação domiciliar pela necessidade de distinção. Hoje se evocam razões de formação ético-religiosa,receios quanto à exposição de seus filhos à violência urbana ou alega-se uma suposta e generalizada má qualidade daeducação pública. Mas a oposição fundamental continua a mesma: Como se concebe a educação? Como uma'prestação de serviços' a um indivíduo ou como a formação de sujeitos identificados com uma herança cultural comum epública? Qual seu objetivo? A transmissão de um lote de informações e o desenvolvimento de um conjunto decompetências pessoais ou a criação de laços sociais identitários entre cidadãos de uma república? Em síntese, está aeducação a serviço dos interesses privados ou públicos? Claro que nossa resposta imediata tende a ser: ambos! Seriasimples, não fosse o fato, explicitado nesta controvérsia, de que os interesses públicos e privados podem entrar emfreqüente conflito. Pode ser do interesse dos pais que seu filho só conviva com membros de sua confissão religiosa;mas é de interesse do Estado e da esfera pública que ele aprenda a conviver e a respeitar outros credos, outrosvalores. A liberdade religiosa é um direito individual fundamental. A tolerância, um princípio ético público. Como cultivá-lo sem a experiência de compartilhar um mesmo espaço - público - com o outro, inclusive com o outro que meincomoda? A escola, nos sistemas educacionais modernos, cumpre exatamente essa função de preparar a transição daesfera privada e familiar para a pública e política. De que se priva uma criança alijada do convívio escolar?Fundamentalmente, do encontro com o outro; da possibilidade de novos modelos; da possibilidade da escolha. Nossospais e irmãos nos são 'dados' pela natureza. Os mestres e amigos, uma escolha. A pluralidade da vida escolar -sobretudo das instituições públicas de ensino - jamais será reprodutível no ambiente doméstico. Por mais rico que esteseja, inclusive do ponto de vista cultural e simbólico, só poderá representar uma extensão dos interesses e pontos devista particulares a um grupo, nunca a pluralidade do mundo humano. E, paradoxalmente, sem pluralidade não há asingularidade de cada um, mas a repetição do mesmo. Sem o convívio da vida escolar a criança será privada daoportunidade da escolha, ou seja, da liberdade de se constituir como um Sujeito, limitando-se a tornar-se um indivíduo.
Homeschooling
Uma coisa apenas importa: que as crianças e adolescentes aprendam
Rubem Alves
Tradução literal: "home"= lar, casa + "schooling"= escolarização. Na nossa língua: educação domiciliar, "aprender foradas escolas institucionalizadas", "aprender em casa".Em muitos lugares, especialmente nos países adiantados culturalmente, o homeschooling é previsto em lei oferecidaaos pais que desejam dar aos filhos um ambiente de aprendizagem diferente do existente nas escolas. Os motivos quelevam os pais a optar pelo homeschooling são variados.Há a insatisfação com as escolas, o temor em relação ao seu ambiente, interno e externo. Os pais temem pelaintegridade física dos filhos. O que é compreensível em ambientes onde existe violência. Há também as situações emque as crianças e adolescentes são vítimas de bullying. Ir à escola é um sofrimento diário e silencioso. A provisão legalda possibilidade de estudar em casa eliminaria esse sofrimento que atinge milhares de crianças e adolescentes.
 
Uma coisa apenas importa: que as crianças e adolescentes aprendam, que se tornem competentes nos saberes que avida e a profissão vão exigir delas.Antes da criação das escolas, como existem, toda a aprendizagem acontecia em casa. Os filhos, nas zonas rurais,aprendiam com os pais a arte de cultivar a terra, fazer o vinho, cuidar dos animais. Nas vilas e cidades, aprendiam comos pais os ofícios necessários na vida urbana. E a avaliação não se fazia por meio de provas. O aprendiz era avaliadopela qualidade daquilo que produzia. Entre os povos chamados "primitivos" - que vivem ainda segundo suas tradiçõesmilenares, suas vidas não tendo sido alteradas pela expansão da civilização - é assim que o conhecimento éconstruído. Os jovens aprendem dos mais velhos aquilo que precisam saber para viver e participar da vida nacomunidade.Com a Revolução Industrial e o crescimento das populações, essa forma de produzir e transmitir conhecimento ficouinviável. O lugar dos pais deixou de ser a casa e a oficina, e pais e mães, para sobreviver, tiveram de se ligar àsfábricas, não lhes sobrando tempo para ensinar os filhos. Mas também os saberes que as fábricas e a vida urbanaexigiam não podiam ser aprendidos em casa. Daí a necessidade das escolas. A existência das escolas foi umaresposta a uma exigência social.Mas há anos existe um mal-estar em relação ao desempenho das escolas, o que levou vários educadores a levantar aquestão: a aprendizagem só acontece ali? O saber de uma pessoa tem de ser legitimado por um diploma expedido por escola oficial? E aquela pessoa que deseja aprender coisas diferentes daquelas prescritas pelos programas escolares?Ivan Illitch sonhou com uma sociedade sem escolas. Nela, os saberes ficariam disponíveis em algo parecido com umsupermercado. Um supermercado oferece todos os tipos de bens necessários para a vida nas casas. Os freguesescompram os produtos que desejam. De forma semelhante, os supermercados de saberes ofereceriam uma variedadede produtos e as pessoas "comprariam" os saberes que desejassem, de física quântica a música clássica.O homeschooling é uma versão individual do sonho de Illitch. A diferença: em vez de os saberes serem produzidos por grandes instituições, pais ou algum tutor ocupariam seu lugar. Mas para que a coisa funcione há um pré-requisitoessencial: os pais e tutores têm de ter competência educacional. Nem toda casa seria elegível para ser uma homeschool...
Direito ou desvio?
 A educação domiciliar, que começa a ganhar corpo entre famílias brasileiras, tem como inspiração práticas comuns nos EstadosUnidos. Na interpretação de especialistas, a Constituição Federal não permite sua adoção no Brasil 
Valéria Hartt 
A escola não faz parte da rotina do menino Lucas, 9 anos, e de sua irmã Júlia, 8. As crianças, moradoras de Maringá,noroeste paranaense, deixaram de freqüentar o ensino regular há cerca de um ano para estudar em casa, onderecebem aulas de catecismo, língua portuguesa, geografia e ciências. O pai, Luiz Carlos Faria da Silva, pensava emrecorrer à Justiça para ratificar o direito ao ensino domiciliar, já que está decidido a afastar os filhos da escola formal,"um caminho deletério de corrupção moral e intelectual". Agora, amadurece a idéia de deixar o ônus de uma atitude aterceiros, para que possa manter os filhos longe da escola e, ao lado da esposa, continuar a cuidar de sua instrução,sem despertar os representantes do Estado para que requeiram a matrícula de ambos no ensino regular.Faria da Silva teme enfrentar complicações com a Justiça, como aconteceu com a família Nunes, no interior de MinasGerais. Moradores de Timóteo, a 216 km de Belo Horizonte, o casal Cléber de Andrade Nunes e Bernardeth Nunesprotagoniza o mais novo capítulo do embate que, de tempos em tempos, confronta a Justiça e os adeptos dohomeschooling, o ensino domiciliar. Desde o ano passado, os Nunes respondem a dois processos - um criminal, por abandono intelectual; outro cível, por infringir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que já resultou em umacondenação. O casal recorreu e a briga promete se arrastar na Justiça. Enquanto isso, os filhos Davi, 15 anos, eJônatas, 14, recebem aulas em casa. Há mais de dois anos não vão à escola.Os pais reclamam a liberdade de escolher; o Estado, o dever de assegurar a educação dos menores e fazer valer ospreceitos constitucionais."Queremos garantir o direito de educar e instruir nossos filhos", diz Faria da Silva, doutor em Educação pelaUniversidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Não aceitamos que o Estado passe por cima da família e decida como
 
educar nossos filhos, inclusive, confrontando os princípios e os fundamentos da moral na qual os educamos",argumenta.Soa óbvio que lugar de criança é na escola, mas há famílias que se ancoram em convicções morais, religiosas e,principalmente, no fracasso do sistema oficial de ensino, para pleitear o direito de ensinar em casa. Casos como os dafamília Nunes e da família Silva não são isolados. É de se prever outros tantos Brasil afora, a maior parte naclandestinidade.No bairro de Santo Antônio, em Chapecó/SC, um casal de missionários repete os mesmos argumentos e inicia em casaa instrução do filho mais velho, sem intenção alguma de integrá-lo ao ensino regular. A experiência é descrita no estudoacadêmico Educação domiciliar: uma visão geral do homeschooling no Brasil, desenvolvido por Fábio Stopa Schebellae apresentado à Universidade Comunitária Regional de Chapecó.Schebella registra que o pai da família pesquisada também recebeu instrução em casa, equivalente ao ensino médio. Énascido nos Estados Unidos, embora tenha vivido boa parte do tempo no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul, nascidades de Nonoai, Gramados dos Loureiros e na área indígena de Bananeiras, onde sua família, também missionária,realizou trabalho de caráter religioso entre os índios kaingang. É descrito pelo pesquisador como bacharel emmissiologia (estudo sobre a missão de uma determinada igreja), título conquistado em um seminário não especificado,que não requer comprovação de escolarização prévia.O estudo analisa ainda "outros sujeitos de Chapecó e região que foram instruídos por meio do ensino em casa", eaponta que também tiveram em sua formação forte influência do modelo norte-americano. "Como se percebe, o únicoempecilho decorrente do homeschooling para as pessoas pesquisadas se restringe à falta de certificação por parte doEstado brasileiro", conclui Schebella.Além desses casos, há aqueles em que pais de crianças com necessidades especiais, por exemplo, ao sentir que seusfilhos não são adequadamente atendidos por professores que, na maioria das vezes, não têm preparo específico paralidar com suas deficiências, preferem eles próprios assumir a tarefa.
Direito ou arbítrio
Mas, afinal, os pais são mesmo obrigados a matricular os filhos na escola ou têm a opção de eles próprios serem osresponsáveis pela educação e instrução dos menores?"Não é reconhecida essa possibilidade de os próprios pais ensinarem os filhos em casa. O que a lei quer é a matrículano ensino formal", sustenta Murilo Digiácomo, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criançae do Adolescente do Paraná, para quem o Estado tem o dever de intervir nas situações em que a criança ou oadolescente estão fora da escola. Para o representante do Ministério Público do Paraná, os pais infringiram princípiosconstitucionais, contrariaram o Código Penal, feriram o ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e ainda a Lei deDiretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96).O debate é recorrente. Há aqueles que defendem com veemência a idéia do ensino domiciliar e outros tantos, ainda emmaior número, rechaçam a proposta.Em 2001, a polêmica chegou ao Superior Tribunal de Justiça, onde Carlos de Vilhena Coelho e Márcia Vilhena Coelhoimpetraram um mandado de segurança para garantir o direito de ensinar em casa os três filhos mais velhos, à épocacom 9, 8 e 6 anos de idade. As crianças, apesar de formalmente matriculadas no Colégio Imaculada Conceição, deAnápolis/GO, nunca haviam freqüentado regularmente a escola. Recebiam instrução em casa, dos pais, indo ao colégioapenas para a entrega de trabalhos ou para a realização de provas. Com o instrumento jurídico, Carlos e Márciapretendiam garantir aos filhos o reconhecimento do ensino domiciliar e a emissão de um diploma quando concluíssemmais tarde o ensino fundamental."A família concluiu que chegou a hora de buscar o reconhecimento estatal dessa modalidade de educação", registra apetição, assinada pelo representante jurídico do casal, o ex-procurador-geral da República, Aristides Junqueira.Perderam por seis votos a dois. Seis dos oito ministros do Supremo Tribunal de Justiça não reconheceram a validadedos argumentos da defesa, que questionou o Parecer 34/2000 do Conselho Nacional de Educação, evocando aDeclaração Universal dos Direitos Humanos e a própria Constituição brasileira.Ao atacar a visão do CNE, o pedido do mandado de segurança impetrado pelos Vilhena queixava-se de cerceamento."(...) o Estado brasileiro deixaria de ser democrático para ser absolutista, totalitário, posto que desrespeita a liberdadede educação: ou a escola ou a escola, mas sempre a escola!". Conclui que o mesmo parecer " feriu-lhes o direito líquido

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