educar nossos filhos, inclusive, confrontando os princípios e os fundamentos da moral na qual os educamos",argumenta.Soa óbvio que lugar de criança é na escola, mas há famílias que se ancoram em convicções morais, religiosas e,principalmente, no fracasso do sistema oficial de ensino, para pleitear o direito de ensinar em casa. Casos como os dafamília Nunes e da família Silva não são isolados. É de se prever outros tantos Brasil afora, a maior parte naclandestinidade.No bairro de Santo Antônio, em Chapecó/SC, um casal de missionários repete os mesmos argumentos e inicia em casaa instrução do filho mais velho, sem intenção alguma de integrá-lo ao ensino regular. A experiência é descrita no estudoacadêmico Educação domiciliar: uma visão geral do homeschooling no Brasil, desenvolvido por Fábio Stopa Schebellae apresentado à Universidade Comunitária Regional de Chapecó.Schebella registra que o pai da família pesquisada também recebeu instrução em casa, equivalente ao ensino médio. Énascido nos Estados Unidos, embora tenha vivido boa parte do tempo no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul, nascidades de Nonoai, Gramados dos Loureiros e na área indígena de Bananeiras, onde sua família, também missionária,realizou trabalho de caráter religioso entre os índios kaingang. É descrito pelo pesquisador como bacharel emmissiologia (estudo sobre a missão de uma determinada igreja), título conquistado em um seminário não especificado,que não requer comprovação de escolarização prévia.O estudo analisa ainda "outros sujeitos de Chapecó e região que foram instruídos por meio do ensino em casa", eaponta que também tiveram em sua formação forte influência do modelo norte-americano. "Como se percebe, o únicoempecilho decorrente do homeschooling para as pessoas pesquisadas se restringe à falta de certificação por parte doEstado brasileiro", conclui Schebella.Além desses casos, há aqueles em que pais de crianças com necessidades especiais, por exemplo, ao sentir que seusfilhos não são adequadamente atendidos por professores que, na maioria das vezes, não têm preparo específico paralidar com suas deficiências, preferem eles próprios assumir a tarefa.
Direito ou arbítrio
Mas, afinal, os pais são mesmo obrigados a matricular os filhos na escola ou têm a opção de eles próprios serem osresponsáveis pela educação e instrução dos menores?"Não é reconhecida essa possibilidade de os próprios pais ensinarem os filhos em casa. O que a lei quer é a matrículano ensino formal", sustenta Murilo Digiácomo, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criançae do Adolescente do Paraná, para quem o Estado tem o dever de intervir nas situações em que a criança ou oadolescente estão fora da escola. Para o representante do Ministério Público do Paraná, os pais infringiram princípiosconstitucionais, contrariaram o Código Penal, feriram o ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e ainda a Lei deDiretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96).O debate é recorrente. Há aqueles que defendem com veemência a idéia do ensino domiciliar e outros tantos, ainda emmaior número, rechaçam a proposta.Em 2001, a polêmica chegou ao Superior Tribunal de Justiça, onde Carlos de Vilhena Coelho e Márcia Vilhena Coelhoimpetraram um mandado de segurança para garantir o direito de ensinar em casa os três filhos mais velhos, à épocacom 9, 8 e 6 anos de idade. As crianças, apesar de formalmente matriculadas no Colégio Imaculada Conceição, deAnápolis/GO, nunca haviam freqüentado regularmente a escola. Recebiam instrução em casa, dos pais, indo ao colégioapenas para a entrega de trabalhos ou para a realização de provas. Com o instrumento jurídico, Carlos e Márciapretendiam garantir aos filhos o reconhecimento do ensino domiciliar e a emissão de um diploma quando concluíssemmais tarde o ensino fundamental."A família concluiu que chegou a hora de buscar o reconhecimento estatal dessa modalidade de educação", registra apetição, assinada pelo representante jurídico do casal, o ex-procurador-geral da República, Aristides Junqueira.Perderam por seis votos a dois. Seis dos oito ministros do Supremo Tribunal de Justiça não reconheceram a validadedos argumentos da defesa, que questionou o Parecer 34/2000 do Conselho Nacional de Educação, evocando aDeclaração Universal dos Direitos Humanos e a própria Constituição brasileira.Ao atacar a visão do CNE, o pedido do mandado de segurança impetrado pelos Vilhena queixava-se de cerceamento."(...) o Estado brasileiro deixaria de ser democrático para ser absolutista, totalitário, posto que desrespeita a liberdadede educação: ou a escola ou a escola, mas sempre a escola!". Conclui que o mesmo parecer " feriu-lhes o direito líquido
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