Revista Cultural Novitas - 3
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O ACORDO ORTOGRÁFICO CERTAMENTE NÃO VAI RESOLVERSEUS PROBLEMAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
Por Elenor J. SchneiderPelo impacto que o acordo ortográfico dospaíses lusófonos vem causando,parece que to-dos os problemas de falta de conhecimento edomínio da língua portuguesa estão resolvidos.A repercussão, no entanto, é muito mais emoti-va do que racional. Se alguém não cultiva o há-bito de ler e escrever, em nada sairá ganhandoquanto à qualidade de sua escrita. De qualquerforma, o acordo está assinado e um decretopresidencial, de 29 de setembro de 2008, deter-mina que a implantação do novo sistema deveestar consolidada até 2012.As alterações propostas são de pequenamonta. O vocabulário brasileiro terá que seadaptar em cerca de meio por cento, númerosuficiente, porém, para desatualizar todos ostextos impressos do país. O custo disso será in-crivelmente assombroso e, se comparado ao be-nefício propalado, inexplicável, para não dizerinaceitável. A maioria das pessoas atentou paraesse fato apenas depois da coisa consumada.Como o debate não se deu em tempo hábil - enem foi incentivado -, agora é aprender.Algumas das mudanças são até facilmenteassimiláveis. É o caso da abolição do trema nogrupo gu e qu (averiguei, delinquente), a elimi-nação do acento nos hiatos oo e ee (o voo, elesveem), a retirada dos acentos nos ditongosabertos éi e ói (ideia, geleia, paranoico), perma-necendo nas oxítonas (anéis, heróis), deixandoem campos obscuros questões como diferenciara pronúncia de sereia e Galileia.Alguns acentos diferenciais, que restavamdo acordo de 1971, foram também suprimidos.Nesse caso estão o pára, do verbo parar (queagora figura assim: ele não para de rir), polo,pelo (antes era pólo, pêlo), entretanto permane-cem em pôde para diferenciar de pode e o ver-bo pôr para diferenciar da preposição por.O grande impasse da nova proposta, compouca iluminação, está no emprego do hífencom prefixos ou antepositivos. Essa questão játinha recebido bons estudos anteriores, comoos de Celso Pedro Luft, por exemplo, mas ago-ra cai outra vez numa rede complexa, duvidosae bastante confusa.Palavras que antes se escreviam sem hífen,como microondas e subepático, agora exigemhífen - micro-ondas e sub-hepático; palavrasque antes se escreviam com hífen, como auto-ajuda e contra-ofensiva, agora se escrevem sem- autoajuda e contraofensiva. Aliás, enquanto amaioria das questões da língua observa boa ló-gica, a do hífen apresenta forte marca de arbi-trariedade.A questão está posta e então é necessáriocaminhar na direção de saber.Certamente, os primeiros tempos serão deestranhamento, principalmente por parte da-queles que dominam bem o sistema escrito,ainda mais considerando a ainda ausência debons dicionários atualizados. Penso que todosos espaços que se ocupam de ensinar, deveminiciar imediatamente o processo de transição.Quanto ao objetivo da unificação, conside-ro-o uma grande fantasia. Não é porque escre-vemos veem sem acento que vamos ler os jor-nais ou os livros dos angolanos ou cabo-verdia-nos. E vice-versa. As grandes diferenças, com alíngua regada a sabor local e regional, permane-cerão e tendem a se acentuar cada vez mais.Para um nortista brasileiro ler o regionalistagaúcho Simões Lopes Neto, só contando comum bom glossário. E ele escreve em português,com o acréscimo da rica contaminação caste-lhana. É a língua viva, inquieta, dinâmica, ina-preensível em algumas páginas da academia.São risíveis depoimentos como há poucoouvi: agora vou conseguir ler Saramago.Só para chamar sua atenção: em nenhummomento, a não ser nos exemplos, empregueialguma das novidades no artigo aqui publicado.E não foi intencional, o que prova que a mon-tanha pariu um camundongo, como já senten-ciavam os latinos.
Elenor J. Schneider é Coordenador do Curso de Letras da UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul
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