(*Trocadilho com a expressão peguei o touro pelos chifres, ou seja crieicoragem)Senti como se estivesse lendo um livro e descoberto que alguém tinharasgado algumas páginas do meio.“Tara,” eu disse calmamente. Ela olhou para cima, seus grandes olhoscastanhos entorpecidos e sem vida: além do medo, a vergonha.Para quem via de fora ela parecia quase normal. Ela estava bem arrumadae maquiada, suas roupas eram modernas e atraentes. Mas por dentro, Taraestava atormentada. O que estava errado com minha amiga? Por que eu nãotinha notado antes que alguma coisa a estava corroendo de dentro para fora?Perguntei-me o que fazer a seguir. Tara e eu estávamos somente nosencarando uma a outra, e apesar dela saber o que eu estava vendo dentro dela,ela não estava respondendo. “Acorde,” eu disse sem nem sequer saber de ondeas palavras tinham vindo. “Acorde, Tara!”Uma mão branca agarrou meu braço e removeu minha mão do ombro deTara forçadamente. “Eu não estou pagando para você tocar minhaacompanhante,” Mickey disse. Ele tinha os olhos mais frios que eu já tinha visto– cor de lodo, como os de um réptil. “Eu estou pagando você para nos trazernossos drinques.”“Tara é minha amiga,” eu disse. Ele ainda estava apertando meu braço, e seum vampiro aperta você, você sabe o que é isso. “Você está fazendo alguma coisapara ela. Ou você está deixando outra pessoa machucá-la.”“Isto não é da sua conta.”“Isto é da minha conta,” eu disse. Eu sabia que meus olhos estavam seenchendo de lágrimas pela dor e tive um momento de absoluta covardia.Olhando em seu rosto, eu sabia que ele poderia me matar e estar fora do barantes que qualquer um lá pudesse pará-lo. Ele poderia levar Tara com ele, comoum cachorro de estimação ou seu gado. Antes que o medo pudesse me dominar,eu disse, “Me solte.” Eu fiz cada palavra clara e distinta, mesmo que eu soubesseque ele podia ouvir um alfinete cair em uma tempestade.“Você está tremendo como um cão doente,” ele disse com desdém.“Me solte,” eu repeti.“Ou você irá fazer – o que?”“Você não pode ficar acordado para sempre. Se não for eu, será algumaoutra pessoa.”Mickey pareceu estar reconsiderando. Não acredito que foi minha ameaça,apesar de que eu falei sério da ponta dos dedos do pé às raízes do meu cabelo.Ele olhou para baixo para Tara, e ela falou, como se ele tivesse puxado umacorda. “Sookie, não faça tempestade num copo d’água. Mickey é meu homemagora. Não me envergonhe na frente dele.”Minha mão caiu de volta no ombro dela e arrisquei tirar meus olhos deMickey para olhar para baixo nela. Ela definitivamente queria que eu meafastasse; ela estava sendo completamente sincera sobre isso. Mas seupensamento sobre o motivo era curiosamente sombrio.“Certo, Tara. Você precisa outro drinque?” Eu perguntei lentamente. Euestava seguindo pela mente dela e estava encontrando uma parede de gelo,escorregadia e quase opaca.“Não, obrigada,” Tara disse educadamente. “Mickey e eu precisamos iragora.” Aquilo surpreendeu Mickey, eu pude perceber. Senti-me um pouco melhor;Tara estava responsável por ela mesma, pelo menos até certo ponto.
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