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Individualismo e Holismo na Metodologia das Ciências Sociais - Nildo Viana

Individualismo e Holismo na Metodologia das Ciências Sociais - Nildo Viana

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Texto que apresenta abordagem marxista de crítica ao individualismo e holismo na metodologia das ciências sociais.
Texto que apresenta abordagem marxista de crítica ao individualismo e holismo na metodologia das ciências sociais.

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INDIVIDUALISMO E HOLISMONA METODOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
 N 
 ILDO
 IANA
*
 
As ciências sociais, no decorrer de sua história, se viu dividida em dois princípiosmetodológicos que se opõem e disputam o predomínio nas universidades, publicações einstitutos de pesquisa. Estes dois princípios metodológicos são o holismo e oindividualismo. O nosso objetivo, no presente trabalho, é apresentar uma visão crítica ebreve destes dois princípios metodológicos e por fim observar a existência de umaalternativa à eles.Por isso, este trabalho será dividido em três partes: na primeira, será apresentado oholismo metodológico com suas principais variantes nas ciências sociais e procedimentosmetodológicos; na segunda, será apresentado, da mesma forma, o individualismometodológico; na terceira e última, será realizada uma análise crítica destes doisprincípios tendo como referencial a teoria marxista da sociedade.A escolha entre os diversos autores e representantes de cada concepção levou emconsideração o critério da importância para a história das ciências sociais, buscando,dentro do possível, abordar o maior número de autores em cada concepção. Sem dúvida,alguns pensadores importantes, segundo o critério acima colocado, foram omitidos eoutros foram abordados de forma extremamente resumida, mas não poderia ser de outraforma, levando-se em consideração a quantidade elevada de autores e os limites dopresente trabalho.Cabe observar que no presente estudo nos limitaremos a analisar o holismo e oindividualismo apenas no âmbito das ciências sociais. Isto significa, entre outras coisas,que as abordagens holistas e individualistas existentes na filosofia e nas ciências naturaisserão deixadas de lado, pois sua extensão foge aos limites impostos a este trabalho,embora, por vezes, possa aparecer aqui e ali alguma referência à filosofia e às ciênciasnaturais.
O HOLISMO METODOLÓGICO
O nascimento da sociologia ocorreu concomitantemente com o surgimento doholismo metodológico. A sociologia ganhou o seu nível mais elevado de sistematização ede cientificidade a partir da obra de Émile Durkheim,
 As Regras do Método Sociológico
.Sem dúvida, antes de Durkheim havia uma “sociologia em estado embrionário” nas obrasde Saint-Simon, Comte, Tarde, Spencer, entre outros, mas é com ele que a sociologiatorna-se sistemática e científica. Também antes dele já existia um “holismo metodológicoembrionário”, tais como o de Comte e Spencer
1
, em muitos pensadores sociais, bemcomo em filósofos e cientistas naturais, mas é com Durkheim que ele é sistematizado eganha forma de uma metodologia sociológica.O termo fundamental utilizado por Durkheim que deixa explícito o seu holismometodológico é o de
 fato
 
social
. Para Durkheim, os fatos sociais são coisas exterioresque exercem coerção sobre os indivíduos
2
. Tal como colocou Anthony Giddens: “osfatos sociais são externos em relação aos indivíduos e exercem coerção sobre eles. Em
 As
 
 Regras
, prosseguindo no tema do caráter naturalístico da sociologia, Durkheimsugeriu que essas características do fato social correspondem à externalidade do mundo
*
Sociólogo, Mestre em Filosofia e Mestre em Sociologia; Doutorando em Sociologia na UNB; Professorna Universidade Católica de Goiás e na Universidade Estadual de Goiás.
1
Veja: C
OHEN
, Percy.
Teoria Social Moderna
. 2
a
edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
2
D
URKHEIM
, É.
 As Regras do Método Sociológico
. 6
a
edição, SP, Nacional, 1974.
 
2
físico e às coerções ou resistências que ele oferece aos nossos atos - posição da qualmais tarde se afastou em parte. Cada indivíduo nasce numa sociedade já organizada eque por isso lhe modela o desenvolvimento pessoal: uma sociedade pode ter umaorganização estável, em aspectos discerníveis, no correr de vários séculos, enquantogerações de indivíduos vivem suas vidas e morrem. Um indivíduo, portanto, é apenas umelemento de uma totalidade, uma unidade de um sistema muito maior. As propriedadesda totalidade não de deduzem das propriedades dos indivíduos que se combinam paraformá-la. Durkheim procurou mostrar que o princípio envolvido nisso pode seriluminado por analogia com a combinação de entidades químicas. As propriedades dohidrogênio e do oxigênio, consideradas isoladamente, são muito diferentes daspropriedades que surgem quando eles se combinam para formar a água”
3
.Assim se vê em Durkheim uma oposição entre indivíduo e sociedade, em que há aprimazia da sociedade sobre o indivíduo. Aqui se encontra uma concepção de sociedadeque tem uma importante conseqüência para sua estruturação do método sociológico. Aidéia de que a sociedade molda o indivíduo é referente à realidade social, ou seja, ela serefere a uma determinada concepção de sociedade ou de relação entre indivíduo esociedade. Esta concepção de sociedade possui ressonâncias sobre a estruturaçãodurkheimiana do método sociológico.Desta forma, ao considerar o papel proeminente da sociedade em relação aoindivíduo, ao postular esta determinada concepção da realidade social, Durkheimdeveria, naturalmente, transferir esta concepção para o núcleo do seu métodosociológico. Sem dúvida, podemos dizer que foi isto que ocorreu.O método sociológico de Durkheim se estruturou como um holismo metodológico.Para Durkheim, se a sociologia quiser o status de ciência, cujo modelo é o das ciênciasnaturais, deverá retratar os fatos sociais como eles são. Como eles são? Eles sãopredominantes sobre os indivíduos, são coercitivos e objetivos. As representaçõescoletivas (o exemplo mais utilizado por Durkheim é o da religião) e a educação são fatossociais, sendo, portanto, predominantes sobre os indivíduos, exercendo coerção sobreeles
4
.Se a realidade dos fatos sociais demonstra que eles estão acima dos indivíduos eexerce coerção sobre eles, então o método sociológico deve tomar isto como o seuprincípio metodológico básico. O objeto do conhecimento, assim concebido, fornece abase empírica que fundamenta o método sociológico. Esta “base empírica” fundamenta ométodo sociológico se transforma em um modelo a ser utilizado pelo sujeito doconhecimento como instrumento para compreender a realidade social. É por isso que osociólogo deve tratar os fatos sociais como coisas.Cabe ao sociólogo superar as pré-noções e os preconceitos e apreender a realidadede forma objetiva. Isto significa que o sociólogo deve reconhecer o caráter objetivo ecoercitivo dos fatos sociais, ou em outras palavras, que o todo (a sociedade) predominasobre as partes (os indivíduos).Como se compreende, neste contexto, as ações individuais? Como sendodeterminadas socialmente, pois os padrões morais impostos pela sociedade sãomobilizadores. O ser humano tem, segundo Durkheim, uma dupla natureza: umaindividual e outra social. A primeira manifesta o seu lado egoísta que é superado peloprocesso de socialização ao qual o indivíduo é submetido desde sua infância.
3
G
IDDENS
, Anthony.
 As Idéias de Durkheim
. São Paulo, Cultrix, 1978, p. 24.
4
A abordagem durkheimiana mais detalhada sobre as representações coletivas encontra-se em: D
URKHEIM
, É.
 AsFormas Elementares da Vida Religiosa
. São Paulo, Edições Paulinas, s/d; sobre educação: D
URKHEIM
, É.
Educação e Sociologia.
11
a
edição, São Paulo, Melhoramentos, 1978.
 
3
Tal como colocou Durkheim, ”toda educação consiste num esforço contínuo paraimpor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não chegariamespontaneamente, - observação que salta aos olhos todas as vezes que os fatos sãoencarados tais quais são e tais quais sempre foram. (...). Se, com o tempo, esta coerçãodeixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a hábitos, a tendências internasque a tornam inútil, mas que não a substituem senão porque dela derivam”
5
.Por conseguinte, o holismo metodológico de Durkheim remete ao estudo datotalidade da sociedade. As ações individuais existem mas são consideradas como sendoproduzidas socialmente. É por isso que o método sociológico de Durkheim preconiza oestudo dos fatos sociais como coisas objetivas, exteriores e coercitivas.A obra de Durkheim exerceu e continua exercendo uma grande influência sobre asociologia e a metodologia das ciências sociais. Além da sua influência sobre a correntefuncionalista, da qual foi o primeiro representante, também influenciou outras correntes epensadores, tal como o seu sobrinho Marcel Mauss. Este retoma de Durkheim o termofato social e o altera inserindo-o no interior de sua concepção que se diferencia da deDurkheim em alguns aspectos.M. Mauss se refere a
 fato
 
social
 
total
: “os fatos que estudamos são todos, permita-se-nos a expressão, fatos sociais
totais
ou, se se quiser (...) gerais: quer dizer que elespõem em movimento, em certos casos, a totalidade da sociedade e das suas instituições(...) e noutros casos, apenas um enorme (muito grande) número de instituições emparticular quando estas trocas e contratos dizem respeito antes de mais a indivíduos”.Mauss coloca enfaticamente que “o princípio e o fim da sociologia é perceber o grupointeiro e todo o seu comportamento”
6
.Este holismo metodológico não é menos enfático do o de Durkheim no que serefere à relação entre indivíduo e sociedade, pois esta última impõe até mesmo técnicascorporais àquele e a recusa do indivíduo em acatar as regras sociais tem efeitos até sobresua saúde mental
7
.Após Durkheim, o holismo metodológico também foi sistematizado pelaabordagem funcionalista em antropologia. Embora Durkheim seja considerado ofundador do método funcionalista por muitos, o certo é que com Bronislaw Malinowskie A. R. Radcliffe-Brown que ele se torna um método sistemático e o termo função ganhaum papel de primeira ordem. Posteriormente, esta abordagem exerceria uma influênciaconsiderável na sociologia.Para Malinowski, a cultura (termo antropológico que é equivalente ao termo desociedade em sociologia) é uma totalidade integrada, ou seja, um todo orgânico. Este“todo orgânico” possui um fim em si mesmo. Na sua clássica análise do Kula, ele afirmaque o “
Kula
não se realiza sobre a pressão de quaisquer necessidades, visto que seuobjetivo principal é o de permuta de artigos que não têm nenhuma utilidade prática”
8
.Como não existe “pressão exterior” e o objetivo do
Kula
é a permuta de artigos e ele éesta própria permuta, então ele tem como finalidade a sua própria reprodução.Nesta concepção, a cultura é um todo que funciona, tal como um organismo.Sendo assim, tudo que é parte integrante da totalidade integrada tem uma função. Estafunção, por sua vez, tem como finalidade a reprodução do todo. Malinowski diz que:
5
D
URKHEIM
, É.
 As Regras do Método Sociológico
. Ob. cit., p. 5.
6
M
AUSS
, Marcel.
Ensaio Sobre a Dádiva
. Lisboa, Edições 70, 1988, p. 200-202.
7
“A saúde do espírito individual implica a participação na vida social, assim como a recusa de a ela se prestar (masainda segundo modalidades que ela impõe) corresponde ao aparecimento de perturbações mentais” (L
ÉVI
-S
TRAUSS
, Claude.
 Introdução à Obra de Marcel Mauss.
In: M
AUSS
, M. ob. cit., p.19).
8
M
ALINOWSKI
, Bronislaw.
 Argonautas do Pacífico Ocidental
. In: col. Os Pensadores. 2
a
edição, São Paulo, AbrilCultural, 1978, p. 73.

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