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III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO
Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009
AUTO-ORGANIZAÇÃO E PROCESSOS EDITORIAIS NA WIKIPEDIA:UMA ANÁLISE À LUZ DE MICHEL DEBRUN
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Carlos Frederico de B. D'ANDRÉA
 
(UFMG/UFV)
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Resumo
Este artigo visa aproximar o conceito de auto-organização de sistemas complexos com as rotinascolaborativas de produção editorial da Wikipédia. Iniciamos com uma breve revisão da noção de“auto-organização”, sua relação com conceitos afins, como emergência e complexidade, e o usorecente do termo para caracterizar a dinâmica das redes sociais online. Em seguida, é apresentada aabordagem conceitual proposta pelo filósofo Michel Debrun. A partir de suas ideias, problematizamoso projeto editorial da Wikipédia e sua evolução nos últimos anos, ressaltando os desafios daenciclopédia colaborativa na construção de um modelo que concilie a produção aberta de textos e e ocontrole dos processos internos de edição.
Palavras-chave:
Auto-organização; Edição; WikipédiaA expressão “auto-organização” é um dos conceitos mais utilizados para se caracterizar atualmente a dinâmica descentralizada de produção e publicação de conteúdos na internet.Quase sempre, no entanto, nota-se uma ausência de rigor no uso da expressão, o que podelevar a interpretações e apropriações simplistas e mesmo equivocadas. Neste artigo procuramos apresentar a noção de auto-organização na perspectiva do filósofoMichel Debrun, responsável, nos anos 1990, pela coordenação de estudos interdisciplinares baseados neste conceito junto ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência(CLE) da Unicamp. Sem ater-se aos modelos e exemplos ligados às ciências duras, o autor  procura caracterizar um sistema auto-organizado e, em seguida, propõe uma distinção de doismodelos: Auto-Organização Primária, caracterizada pela ausência de um sujeito central e deum objetivo comum estabelecido
a priori
, e Auto-Organização Secundária, em que forças esujeitos passam a exercer “um papel hegemônico, mas não dominante” (1996a, p.12) sobre asinterações estabelecidas no sistema.Por enfatizar o caráter processual dos sistemas complexos, o conceito de auto-organizaçãonos parece especialmente importante na compreensão da dinâmica da rede de produção
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Trabalho apresentado ao Grupo de Discussão “Projetos e processos na web colaborativa”, no III Encontro Nacional sobre Hipertexto, Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
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Doutorando em Estudos Linguísticos pela Fale/UFMG e professor do Departamento de Comunicação Social daUniversidade Federal de Viçosa (UFV). E-mail: carlosdand@gmail.com 
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III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO
Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009
editorial da Wikipedia, marcada pela participação de colaboradores voluntários comdiferentes graus de instrução e variados níveis de engajamento. O caráter aberto e, a princípio,descentralizado da “enciclopédia que todos podem editar” contrasta-se com a rígida rotina de produção textual e a divisão bem marcada de funções entre os profissionais com diferentesespecialidades – em maior ou menor grau, este é o caso das publicações tradicionais decaráter enciclopédico ou mesmo jornalístico (D'ANDRÉA e RIBEIRO, 2009).Ao longo deste artigo, procuramos conciliar os parâmetros descritos por Debrun comdescrições e considerações sobre a evolução da Wikipedia
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, de sua fundação, em 2001, aomomento atual. Por ser um esforço inicial
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, o serão apresentados dados ou mesmoexemplos detalhados da suposta dinâmica auto-organizada da Wikipedia. Iniciamosapresentando brevemente a origem do conceito de auto-organização, sua relação com termosafins e seu uso na caracterização das redes sociais on-line.
Auto-organização: da origem às redes sociais na internet
O uso da noção de auto-organização em diferentes áreas do conhecimento, e em especial naanálise de fenômenos das ciências exatas e biológicas, torna árdua a tarefa de caracterizá-la por completo. Johnson (2003, p.14) aponta que “algumas das maiores mentes dos últimosculos Adam Smith, Friedrich Engels, Charles Darwin, Alan Turing deram suacontribuição para a desconhecida ciência da auto-organização”, que só na segunda metade doséculo XX começou a ser reconhecida como um campo de estudos.A auto-organização pode ser considerada uma característica potencial dos sistemascomplexos, cujo comportamento é, por definição, fundamentalmente caracterizado pelasinterações travadas entre os elementos (LARSEN-FREEMAN e CAMERON, 2008). Para osautores, em um sistema complexo uma mudança é auto-organizada quando “são as propriedades dinâmicas do sistema que o conduz ao acontecimento, e não alguma forçaexterna organizadora” (p.58).
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O projeto Wikipedia é atualmente desenvolvido em mais de 250 línguas e dialetos, que têm autonomia para produzir versões próprias de verbetes sobre o mesmo tema. Neste artigo, não nos referimos especificamente anenhum versão da Wikipedia, mas, em geral, as análises são baseadas em relatos e observações da versão eminglês da enciclopédia wiki – por isso, adotamos o termo “Wikipedia” (sem acentos).
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A análise esboçada neste artigo é parte de uma nova etapa da pesquisa de doutorado (Processos editoriaiscolaborativos na Wikipédia em português: um estudo sobre a edição de “Biografias de Pessoas Vivas”) emandamento no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da FALE/UFMG, sob orientação da professora Carla Viana Coscarelli.
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III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO
Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009
A origem do termo “auto-organização” é atribuída a Ross Ashby, que, em 1947, publicou oartigo “Principles of the Self-Organizing Dynamic System”. Ashby, um neurocientista ematemático inglês, é um dos pioneiros dos estudos da cibernética, assim como Heinz VonFoerster, que foi responsável, em 1962, pela organização da coletânea “Principles of Self-Organization”. Recuero (2009, p.88) aponta a principal diferença entre do conceito de auto-organização concebido pelos estudiosos da segunda cibernética do desenvolvido posteriormente: “para os mais antigos, como Ashby, a mudaa o implicaria,necessariamente, em aprendizagem e evolução, enquanto que, para os modelos posteriores, hácriação de novas estruturas, novas formas de comportamento”.Esta segunda perspectiva associa diretamente a auto-organização com a emergência de novos pades - emerncia é definida por Larsen-Freeman e Cameron (2008) como “oaparecimento, em um sistema complexo, de um novo estado em um nível de organizaçãomaior que o anterior”. Segundo Johnson (2003, p.14), os sistemas emergentes são aqueles que“resolvem problemas com auxílio de massas de elementos relativamente simplórios, em vezde contar com um única ´divisão executiva` inteligente”. Muitos, mas não todos os processosauto-organizados culminam na emergência de um novo padrão. No mesmo sentido, aemergência não depende, mas geralmente está associada a relações auto-organizadas. Assim,entendemos a emerncia é uma das conseqncias possíveis de um processo auto-organizado. No ambiente da internet e, em especial nos sites da web 2.0
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, tem sido comum a utilização daexpressão auto-organização para caracterizar processos de produção e publicação de conteúdoque não têm uma autoridade mediadora constituída
a priori
, o que dá mais liberdade eautonomia para interações entre os envolvidos. Segundo Recuero (2005, p.11), “o próprioaparecimento de redes sociais na Internet pode ser considerado um comportamento emergentee auto-organizado”.As redes sociais, dentro ou fora da internet, têm como uma de suas questões centrais os padrões de interação entre os sujeitos envolvidos. Neste sentido, Meira e Meira (sem data, p.04), apontam três características “especialmente importantes para a reflexão acerca da
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São duas as características fundamentais da web 2.0, ou web colaborativa: o uso da WWW como plataformatecnológica e a potencial participação direta dos usuários na elaboração e edição do conteúdo disponível no site.Para O'Reilly (2005) , o criador do termo, “a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem osefeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligênciacoletiva"
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