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A Conquista
de Coelho NettoAOS DA CARAVANAEntre os celtas, nos tempos rijos e sanguinários, quando, pelas agrestesmontanhas, dia e noite, atroavam buzinas roucas conclamando os guerreiros para adefesa da pátria ou para a partilha dum gamo, enquanto as facas iam talhando aselvagina, ao clarão rubro da fogueira, os
file,
com os olhos no céu, correndo osdedos ágeis pelas cordas da harpa, recontavam os feitos dos heróis, asbeneficências dos gênios e as maravilhas excelentes da terra farta e amável.Os
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eram a "memória" da raça.Porque ainda não surgira o artista imortalizador que gravasse na pedraeterna ou inscrevesse na folha destrutível a tradição nacional, os
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guardavam namemória, transmitindo, de homem a homem, não só os hinos improvisados pelosbardos como as lendas do gênio popular, e a história, conservada nessesmonumentos orais, ia dum a outro, como a chama dum círio passa a outro círio.Dividiam-se os
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em dez categorias, desde o
oblairo,
que apenas sabiasete histórias, até o
ollam
que repetia de cor trezentas e cinqüenta.Este livro, amigos meus, é mais vosso do que meu, porque na suacomposição entrou apenas a minha memória. Como o
ollam
venho contar aos quesurgem a odisséia da nossa mocidade.Triste, triste foi a nossa vida posto que, de longe em longe, como um raio desol atravessando nuvens tempestuosas, o riso viesse palidamente à flor dos nossoslábios. Mas chegamos, vencemos... Deus o quis! E, se ainda não tomamos deassalto a praça em que vive acastelada a indiferença pública, já cantamos em tornoe, ao som dos nossos hinos, ruem os muros abalados, e avistamos, não longe, pelasbrechas, a cidade Ideal dos nossos sonhos.Mas no dia em que nela pudermos entrar vitoriosos, pisando a verde, maciae cheirosa folhagem, indo repousar à sombra das árvores, perto da frescura e domurmúrio da água, nesse dia, reunidos pela saudade, sacrificaremos, com religiososentimento, aos manes dos que ficaram adormecidos à sombra dos ciprestes.É vosso todo este livro, meus amigos. Eu vim seguindo a caravana que aMusa precedia, cantando, como Minam, à frente de Israel, no êxodo. Vim seguindo eapanhando pelo caminho saibroso e seco as gotas de sangue, as gotas de lágrimas,as estrofes sonoras, os arrancados soluços e os suspiros que deixáveis e, durante amarcha, só três vezes paramos, com as liras caladas, os olhos lacrimejantes, paraguardar na terra santa os que caíam.Já lá vão quinze anos de sonhos e de sofrimentos!Eis-nos acampados diante da cidadela e que temos nós? Que tesouropossuímos depois de tão árduo combate? Temos ainda, e só, a moeda com que noslançamos à aventura: Esperança, e alguns louros na fronte: os primeiros cabelosbrancos. Enfim...! Já é muito não havermos perdido a Esperança.O
ollam
vai falar.
Sursum corda!
C.N.