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COLABORAÇÃO
Memórias do Castelo
(2)
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
V
aldemar Mota, estimado amigo
de longa data, em “Fortica
-ções da Ilha Terceira” (Sepa-rata do Instituto Histórico daIlha Terceira, 1993-1994), descreveu ser
o Monte Brasil “um verdadeiro lão deforticações, fortes, cortinas, baluartes e
redutos. Todo este manancial tem o apoiograndioso do Grande Castelo, cidade inex- pugnável na defesa insuperável dos maresdos Açores e da própria terra açoriana. Por isso, encaixa-se perfeitamente nesta forta-leza ímpar o epíteto de Gibraltar Açoria-na, que lhe atribuiu o Marquês de Sá daBandeira.Efectivamente, o Grande Castelo com suas baterias e revelins sobre a cidade de An-gra, como que na prevenção de qualquer ataque por terra, foi sempre consideradocomo uma praça inacessível e uma das
mais poderosas forticações peninsula
-res”.Através dos tempos, e ainda hoje, há circu-lado a ideia de que esta enorme fortalezateria sido feita com o intuito de amedron-tar os moradores da ilha. Numa relação de 1709 enviada a D. JoãoV por António do Couto lê-se que o Caste-lo, em forma de cidadela, fora construídomais p’ra sujeitar a cidade de Angra que p’ra defendê-la”. (Arquivo dos Açores, Vo-lume XII, pg. 460).Embora não obliterando por completo talinsinuação, Valdemar Mota adiantou que,
na verdade, “agura-se pouco crível que
os espanhóis tenham levantado um dinos-sauro daquele tamanho e grandeza bélica
apenas com o receio de meia dúzia de sau
-dosistas antoninos, defensores da Causa Nacional e duma população saqueada,enxovalhada nos seus brios de liberdade,sem armas e sem líderes.Por isso, parece-nos mais real que D. Fi-lipe desejasse possuir no Atlântico umagrande feitoria, contra a qual não tivessem poderes nem inimigos, nem piratas nemexperimentados corsários, e assim pudes-se ter a bom recado, no resguardo segurís-simo dum castelo inacessível, as fabulosasriquezas e colossais fortunas, que as nause galeões traziam das partes das Índias deOriente e Ocidente”.Manuel Coelho Baptista de Lima (director do Arquivo Distrital de Angra nos meustempos de estudante), numa comunicaçãointitulada “Angra Universal Escala do Mar do Poente no Século XVI”, apresentada noColóquio Internacional realizado em An-gra em Agosto de 1983 e reproduzida novolume “Os Açores e o Atlântico, SéculosXIV-XVII”, publicado pelo Instituto His-tórico da Ilha Terceira em 1984, transmitiu preciosas informações àcerca do Castelo:“Por mandado do Cardeal D. Henrique em1567, que enviou aos Açores o arquitectoitaliano Tomasso Beneto de Pesaro, deu-se
início ao estudo da forticação dos mais
importantes pontos estratégicos das ilhas.Ao tempo, o arquitecto preconizara a forti-
cação do Monte Brasil, com a construção
duma grande fortaleza, tornando inacessí-vel o acesso, não só do lado da terra mastambém do mar, conferindo assim a dese- jada segurança à própria cidade de Angra.Este plano só teria seguimento após a con-quista da Terceira pelos espanhóis, ten-do sido autor do projecto o arquitecto denome João de Vilhena, de naturalidade ouespanhola ou portuguesa.A construção estaria já em curso em 1591, pois há notícia de que em 1597 as riquezastransportadas por uma armada, e avalia-das em mais de trinta milhões de ouro,haviam sido transferidas p’ró interior dafortaleza do Monte Brasil, embora Maldo-nado haja apontado o ano de 1601 comodata do lançamento da primeira pedra p’ràconstrução da fortaleza, cuja guarnição(no século 17) era constituída por cerca demil homens, alguns dos quais ali residiamcom as respectivas famílias”.Vitorino Nemésio (1901-1978), que à rodado Castelo passou a adolescência e o co-meço da mocidade, recordá-lo-ia nostal-gicamente num capítulo do Corsário dasIlhas...“Esta fortaleza de Angra, longe de ter ba-fejado um berço de cidade, foi uma garga-lheira pesada que lhe puseram ao colo. Assuas muralhas ciclópicas, o sistema de fos-sos exteriores, e uma segunda linha altero-sa de bastiões e de parapeitos, ainda hojemostram bem o cuidado de assegurar de-fesas totais do pináculo escolhido contra omar e contra a terra. Será difícil encontrar,
depois do Escorial, monumento lipino
mais expressivo que este castelo tentacu-lar, erigindo-se do meio do Mar Atlânti-co e perdurando nos poentes dos Açores
como um dos últimos sonhos dourados de
Filipe II, o Europeu”.A fechar, este par de quadras de Vitorino Nemésio:Ó Angra, tarro de leite,Estava quase a beber...Estrela do meu destino!Castelo do meu bem-querer!Ó Angra, nobre cidade,Que tens baraço e cutelo!Vê-se a croínha do PicoDas muralhas do Castelo.
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