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COLABORAÇÃO
Na companhia das pedras
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
E
mbora ligeiramente, tencionodiscorrer àcerca da presença da pedra nas nossas ilhas, revelan-do-se-nos através de expressões populares, desabrochando em resquíciossupersticiosos e aspectos toponímicos e,cativando-nos com amostras dispersas no
adagiário e do cancioneiro. P’rà consecu
-ção deste objectivo vou recorrer, particu-larmente, aos ensinamentos do saudoso“Mestre” Carreiro da Costa (Etnologia dos
Açores, Volume I, páginas 64-70, Edição
1989), a que ajuntarei elementos da minhalavra.Visto que a aparência da pedra é geral-mente disforme e dura, deu azo ao uso dasexpressões pedra dum corisco, pedra delume, dum fogo e dum raio. As pedras nos bofes assinalam tormento mral, enquanto pedras no fígado, nos rins e na bexiga in-dicam enfermidade física. Com pedras namão denota atitude agressiva, mau modo,
falta de respeito e de compreensão. Dar
por paus e por pedras é zangar-se descon-
troladamente. De fazer chorar as pedras
aplica-se a uma cena muito comovente.Estar com a pedra no sapato é andar des-
conado.
Atirar a pedra e esconder a mão evidenciadissimular um mal que se frez.Expressões, igualmente curiosas, temo-lasem dormir como uma pedra e cair como pedras num poço, ser surdo ou mudo comouma pedra, e ter um coração de pedra. Le-vantar as pedras da calçada é fazer qual-quer coisa fora do comum.
Estar a pedra e cal signica mostrar-seinquebrável. Andar na pedra-mestra é en
-contrar-se bem posto na vida.Antes do advento dos modernos electro-domésticos, foi e era tida como sagrada a pedra do lar sobre a qual se acendia o lume p’ra aquecer e proteger a casa e p’ra cozer os alimentos. Com sentido religioso mere-ce referência a chamada pedra de ara, ouseja, a pedra benzida e colocada no altar p’rà celebração da missa. A este respeito,
e em associação com práticas supersticio
-sas, Carreiro da Costa subscreveu:
“O menino que tocar a pedra de ara terá,
pela vida fora, virtudes especiais, ao passo
que a mulher que a tocar cará p’ra sempreestéril. Nas Constituições dos Bispados há
referências e bruxarias em que entrava a pedra de ara”.A tradição conhecida pelo nome de Fiéis
de Deus evoluiu da prática antiga em fazer
montículos de pedras junto a determina-das cruzes, como prova de oração pelos
mortos. Figurativamente a pedra está li
-gada a diversas invocações marianas, taiscomo Senhora do Pilar, da Penha, da Lapa,de Monserrate, etc., não esquecendo o Se-nhor Bom Jesus da Pedra, que a gente dasilhas venera com muita devoção.Em S. Miguel, p’ràs bandas do Nordeste,avista-se a freguesia da Pedreira, e aden-tro do concelho ribeiragrandense abraça-nos a freguesia do Pico da Pedra. À esperada nossa visita encontram-se as Pedras doGalego numa das encostas do Vale dasFurnas, e a Rua dasPedras na Matriz daRibeira Grande. NaTerceira, além da Ruadas Pedras na fregue-sia do Cabo da Praia,situam-se a freguesiae o aeroporto das La- jes, bem como a Ri- beira dos Pães, cujonome, aparentemen-
te, provém de várias
pedras ali espalhadasque, de longe, asse-melham-se a pães.A Graciosa mira-seno lugar das PedrasBrancas, enquanto S. Jorge adorna-se comPedras Brancas, Pedras Ruivas e uma Pe-dreira. No Pico, a Vila das Lajes orgulha-se emter sido a primeira povoação da ilha, a pri-meira paróquia e o primeiro concelho. NasFlores salientam-se a Vila das Lajes e afreguesia Fazenda das Lajes. No Corvo al- berga-se a Ponta do Marco, nome dum pe-nhasco em forma de cavaleiro, e em SantaMaria aguarda-nos a Lagem do Barbeiro,um dos pesqueiros registados por Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra. (LivroIII, pg. 32, ed. 1998). No que diz respeito à Ladeira da Velha,em S. Miguel, Frutuoso limitou-se a trans-crever as informações que, ao tempo, lheforam fornecidas: “Segundo alguns, foiassim chamada porque é tão compridaeíngreme que, se alguma velha a subia oudescia, fazia muitos pousos. Mas outros
armam ter este nome porque, no tempo
antigo, ali morou uma velha viúva, a qual
vendeu depois aquela fazenda, cando
a velha o nome dela sem a propriedade”.
(Saudades, Livro IV, pg. 185, ed. 1998).
No entanto, anuindo ao que eu aprendiquando era miúdo, Carreiro da Costa ob-servou: “O povo pretende explicar o casoda Ladeira da Velha como tendo a sua ori-gem no facto duma velha, que ali morava,haver morto alguns soldados com o auxí-
lio de pedras, que zera rolar por aquela
ladeira, no momento em que eles avança-vam”. Na próxima crónica apresentarei o caso dofrade e o caldo de pedra, de parceria com
uma colectânea de provérbios e cantigas.Até lá:
Esta rua tem pedrinhas,
Esta rua pedras tem;Das pedras não quero nada,
Mas da rua quero alguém.Meu amor, se tu te fores,Como dizem que te vais,
Deixa-me teu nome escrito
Numa pedrinha do cais.
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