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A COZINHA, OS ORIXÁS E OS TRUQUES: ENTRE A INVENÇÃO EA RECRIAÇÃO ONDE O TEMPO NÃO PÁRA...Vilson Caetano de Sousa Júnior
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PUC-SPTrabalho apresentado no seminário temático ST03 "Os afro-brasileiros".VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América LatinaSão Paulo, 22 a 25 de setembro de 1998A comida e o comer ocupam um lugar fundamental na vida dos terreiros de Candomblé. Issoaparece explicado de várias formas, através de uma visão muito ampla, onde ela é entendida como forçavital, energia, princípio criativo e doador de algo. Na comida, encontra-se a energia máxima de uma oferta,mas, acima de tudo, ela é a força que fortifica os ancestrais, então, é um meio, um veículo através do qual,grupos humanos e civilizações, se sustentaram durante milênios fazendo contrato com o Sagrado. No terreiro, a chamada comida de Orixá obedece a prescrições complexas construídas ao longo dotempo e redefinidas a cada momento, de acordo com a função que deva desempenhar ou à “realidade” quedeseje instaurar ou dialogar. Tudo isso é expresso nas múltiplas formas, maneiras e diferentes modos de preparar, fazer ou de “tratar” os ingredientes.Comida é sacrifício, ebó
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 no seu sentido mais amplo, mola propulsora que conduz e leva o Axé
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. Daísua íntima relação com Exu, aquele que come tudo, encarregado de sua distribuição no mundo. O sacrifícioé, asssim, indispensável para viver, pois nada se sustenta sem esta troca de força, de energia, sem essareposição, num universo onde tudo é dinâmico e nada acontece por acaso. Onde até uma folha que sedesprende da árvore tem um por que preciso.Através da comida oferecida aos Orixás, se estabelecem relações entre o devoto, a comunidade e oOrixá. É sobretudo nas festas que isso mais se expressa. Festas que se desenrolam ocultamente aos olhos dosde fora, que podem levar meses e festas que são feitas para os de fora, realizadas no barracão, tornadas públicas, onde, em algumas delas, são exibidas a maior quantidade possível de comidas servidas aos Orixásda casa, e eles próprios servem a sua comida, distribuindo, assim, aos presentes a sua força máxima.Por traz de cada prato ofertado há uma visão de mundo, um porque, que faz com que o comeinstaure um sistema de prestações e de contraprestações que englobam a totalidade da vida. Comida ésempre um contra presente.A comida de Orixá difere, assim, das comidas servidas no dia a dia do terreiro, bem como daquelas passadas no corpo das pessoas, usadas para “descarregar”, limpar, livrar de algum contra-axé
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.Em linhas gerais, comida é tudo que se come. Desde à pimenta e o obi
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que se masca para conversar com o Orixá, ao naco de carne oferecido a este mesmo Orixá, partilhado pela pessoas. Nesse processo de
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Vilson Caetano de Sousa Júnior
é Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e Doutorando pela mesmaUniversidade. Título da Dissertação :
Usos e Abusos das
 
Mulheres de Saia e do Povo do Azeite: Notas sobre as comidas de Orixás no terreiro de candomblé.
Membro do Grupo ATABAQUE, Cultura Negra eTeologia e Coordenador do AGBARA- Grupo Ecumênico de Leitura da Bíblia a partir dos Afro Americanose Caribenhos. Outros títulos publicados:
 Evangelização e Diálogo junto às
 
comunidades afro-americanas ecaribenhas.
in: Mandrágora. Ano 3- nº 3. São Bernardo do Campo, São Paulo, 1996.
 Em Defesa da Palavra
In: Revista Mosaicos da Bíblia, 17. p. 5-10. Rio de Janeiro, 1995.
 Para que a comida não se estrague
.Revista Mosaicos da Bíblia, 15. Rio de Janeiro, 1994.
Celebrando a vida com os Orixás
. In: Revista SemFronteiras. Número Especial. Julho. p. 13-16, 1994.
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ebó- oferenda
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Axé- princípio gerador de vida
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contra-axé : tudo que não gera vida dentro da comunidade
 
diferenciação, em que os ingredientes, na sua grande maioria, são os mesmos, muda-se a forma deritualizar, a elaboração, o cuidado, “o tratamento”, a maneira de lidar com o mesmo ingrediente, o sentidoimpresso e invocado através das palavras de encantamento, cantigas e rezas.Assim, falar sobre esta comida, suas relações, circunscrevê-la dentro de um espaço, momento,consiste num dos nossos principais desafios. Enfrentá-lo, é o que tentamos fazer sob o título: A Cozinha, osOrixás e os truques: entre a invenção e recriação onde o tempo não pára...
Candomblé mesmo é cozinha...”
Dentro do universo do Candomblé, a cozinha merece uma atenção especial, por ser um dos espaçosonde se passa e se constitui o sagrado. Tudo nela remete a esta dimensão. Assim,
 A cozinha de santo
aparece sempre como algo distinto, separado da cozinha do dia a dia. Separada na sua grande maioria, não por limites externos, mas internos que são representados por mudanças de atitude, ações, formas de uso, etc.Em muitos terreiros de Candomblé, o local onde são preparadas as comidas dos Orixás é o mesmoonde são feitas as comidas do dia a dia. Esta separação, todavia é realizada de forma bastante visível edeterminada. Muitas vezes se reserva para as comidas de santo um fogão especial que pode ser de lenha ouindustrial, enquanto a outra permanece num fogão menor. Comum é se trocar de horários. É muito difícil semexer com as panelas dos Orixás ao lado de outras panelas, bem como misturar os utensílios destas duascozinhas.
“ Cozinha do santo”
é, assim, mais que um lugar determinado que, em terreiros de estrutura maior,os mais antigos, se tem para preparar somente os pratos dos Orixás e, sim, um espaço criado e redefinido acada momento, no terreiro, através da separação dos objetos, utensílios e mudanças de comportamento. Tudo participa do sagrado: o espaço em si , as panelas, travessas, pratos, bacias, cestos, peneiras, colheres de pau,ralos, o pilão, as frigideiras, formas de assar e sobretudo as pessoas que nele transitam.A cozinha é cheia de interdições como: não conversar mais que o necessário, não falar alto, gritar,cantar ou dançar músicas que não sejam do santo; não entrar pessoas que não sejam iniciadas-dependendodo que se estiver fazendo, somente um número muito restrito-não admitir que mulheres menstruadas permaneçam nela, etc. Neste espaço sacralizado, tudo vai ganhando significado: a bacia que cai, o garfo, afaca, a colher, o óleo que faz fumaçar o fogo, etc. Na cozinha se aprende além do “ponto” certo dedeterminado prato, que não se dá as costas para o fogo, não se joga sal no chão, não se mexe comida deOrixá com colher que não seja de pau, que a comida mexida por duas pessoas desanda, que não se joga águano fogo e que muitas pessoas por terem o sangue ruim fazem a comida desandar. Ou que a presença de pessoas de um determinado Orixá faz com que uma certa comida não dê certo, como por exemplo: emcozinha onde se tem gente de Xangô o milho de pipoca queima antes de estourar. Pela cozinha, entram as pessoas de maior prestígio na Religião e é nela própria que, em certas ocasiões, muito antes mesmo de sechegar no
 peji
do Orixá, que este é consultado a fim de se saber se a comida foi bem preparada ou não.Embora marcada por vários limites, a cozinha é mesmo escola mestra, local onde se aprende aslições mais antigas, através do exercício longo e paciente da observação. Local onde permanecem por maior  período de tempo os iniciados, seja varrendo, lavando, limpando, guardando, acendendo ou mantendo ofogo, cozinhando, com olhos e ouvidos atentos a tudo que se passa nela. Daí entende-se o dizer corrente:
Candomblé mesmo é cozinha!!!”
Talvez por ser ela mais que um local de transformação e sim de passageme transmissão de conhecimento, por onde transita algo essencial que ultrapassa os limites das oposições por situar-se no mais intimo e profundo ser do homem: o comer.
Jé: o verbo comer
Muito mais que relacionada a um sistema nutricional, a comida se articula e se compreende a partir de um universo maior onde a oralidade constitui um dos meios mais expressivos de passar seus preceitos, aobservação um método indispensável para sua manutenção e o comer um dos verbos, que embora muitosconjuguem, reserva-se a poucos, restringindo-se àqueles que conhecendo o “tratamento” entendem o papel esignificado desta comida como Axé, força vital e sacrifício indispensável para a conservação da vida.A comida de Orixá articula-se num universo que estabelece diferenças e “oposições”. As primeirasdizem respeito ao que se come, ao que não se come e ao não comer; ou ainda, ao como se come e com quem
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obi- também chamado de noz de cola é uma espécie de semente usada nos rituais para conversar com oOrixá.2
 
. As oposições são formuladas, quanto à origem, em comidas secas e comidas de ejé. As comidas secas sãotambém chamadas de comidas frias. São todas aquelas não provindas do sacrifício animal, ou as que são à base de grãos, raízes, folhas e frutas. Por sua vez, uma outra oposição relacionada ao quente e ao frio surgetomando como referência o azeite-de-dendê e a pimenta ao lado de outros ingredientes.Outra maneira de formular as “oposições”, diz respeito à passagem mítica da vida de cada Orixá.Assim, há os que comem com pressa, aos que recebem comidas sem forma, amassadas e aqueles que gostamde comidas mais detalhadas. Isso explica a diversidade de iguarias numa cozinha em que há os que comemcru, mal passado, torrado, frito, cozido e amassado.Dentro desse universo, o azeite-de-dendê ao lado da folha de banana cumprem uma funçãofundamental. Dendê é força, origem. Seu óleo está associado ao esplendor de algumas civilizações ou, ainda,à criação. A bananeira, por sua vez, liga-se ao crescimento e à transformação. Ela é a cama, sobre a qual,tudo que repousa, se deita sobre ela . E tudo que se enrola é envolto nas suas folhas verdes ou secas eamarrado com suas própria fibras.Vale ainda chamarmos a atenção, que, quando se fala da comida de Orixá, associada à uma“cozinha africana”, esta é entendida como um conjunto de técnicas, formas e maneiras de preparar, trazidas pelas diversas etnias africanas, que aqui foram conservadas e reelaboradas, ao lado de outras inventadas.Assim, também, a cozinha dos Orixás. Não se trata de voltar à África, mas fazer com que tal cozinha setorne africana. Africana no sentido de expressar, trazer presente, experiências longínquas de reinos,civilizações, histórias de grupos, somadas a tantas outras. A comida de Orixá é, assim, uma “comida brasileira” em que tantos motivos afros se fazem presentes. Ao mesmo tempo, é uma “comida africana” ondeinúmeras experiências do Novo Mundo foram acrescentadas à ela. Na cozinha dos Orixás, ao lado dascontinuações, temos recriações e invenções feitas a todo momento. O que faz a comida de Orixá é um ritual profundamente complexo, elaborado e articulado segundo códigos e princípios, alguns deles de “porque” perdido no tempo. Daí entender-se, mais uma vez, a frase que diz:
“ Tem gente que pensa que é sócomida.”
A sacerdotisa da comida
O segredo desta culinária é comandado pela guardiã da cozinha, a Yabassê. Aquela que “muito faz e pouco fala.” Quando se fala da sacerdotisa da comida, as formas mais antigas de transmissão doconhecimento trazida pelas diversas etnias africanas vão ser evocadas: a observação e a convivência. E omestre dos mestres será mais uma vez chamado: o tempo. O conhecimento ritual, o respeito, a criatividade eo comando apresentam-se como o perfil da Yabassê e orientam à sua escolha, mesmo que, hoje, nos “novostempos,” poucas sejam as mulheres que se disponham a tal cargo; não pelo gosto, mas pelas funçõesassumidas por elas na sociedade.A imagem da Yabassê apresentada pelos sacerdotes, remonta aos primórdios, quando Olodumaré,Deus, entregou o poder de criar e de tudo transformar às Grandes Mães. A velha que cozinha, divide, assimcom o poder ancestral feminino esta força, assim como todas as mulheres. Daí recair sobre ela o tabu daimpureza, que reflete as relações de poder, as tensões entre homem e mulher expressas em alguns mitos dasociedade yorubá, num ambiente onde embora sua função seja de procriar, ela goza de plena liberdade eindependência dentro do grupo. Permitir que a mulher menstruada manipule a comida é expor toda acomunidade ao poder das Mães Ancestrais, que serve tanto para o bem, quanto para o mal. A Yabassê é,uma das pessoas que no terreiro, mais expressa essa força, pois trabalha com ela dia e noite, ao manipular acolher de pau para transformar grãos e alimentar tudo e todos, conservando, recriando e inventando.
Os Orixás e suas comidas
Para o povo de santo, falar sobre as iguarias oferecidas aos seus Orixás não é o mesmo queinformar sobre o cardápio de um dia de festa. Dizer as coisas que o santo come é quase como revelar umsegredo, um espaço de foro íntimo de cada terreiro. A ausência de muitos pratos, a presença destes semnomes, silêncios, lapsos de memória, muitas vezes, antes de ilustrarem um desconhecimento, constituem parte de um saber, muito especial, guardado pelos mais antigos na religião, a que só poucos tem acesso.Bastante impressionante o que certa vez ouvi de uma Yalorixá: “ a Yabassê é aquela que muito faz e poucofala”.O não falar insere-se no contexto onde a oralidade constitui um dos veículos mais fortes detransmissão do conhecimento, os chamados segredos, fuxicos de santo, ensinamentos rituais, fundamentais,na sua grande maioria balbuciados no ouvido do iniciado, ou passado em palavras incompreensíveis efórmulas incompletas.3

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