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5 AULAS SOBRE NIETZSCHE
1ª aula
Oswaldo Giacóia Júnior IFCH/UNICAMP 
Aforismo 354 da Gaia CiênciaLembro-me de ter dito a vocês, na semana passada, que passassem os olhos pelo aforismo354, da Gaia Ciência, não sei se vocês tiveram ocasião de fazê-lo ou não. Então, eu pediria,por favor, se vocês não trouxeram o texto, que tivessem a paciência de prestar atenção naminha leitura. Bom, já faz muito tempo, mas eu me lembro que eu tinha dito a vocês, quandonós nos encontramos, acho que foi no segundo encontro, que este problema da unidade dosujeito em Nietzsche, pode ser tratado de diversos pontos de vista. E o primeiro deles ia ser aquele que, ao mesmo tempo, consistiria num intróito do nosso curso, que é aquele texto sobreOs Desprezadores do Corpo, sob a ótica da relação entre a grande razão e a pequena razão.Este ponto, ele ainda não está esgotado, pretendo voltar a ele ainda, mas depois dessepercurso por Descartes e por Kant. Pretendo trabalhar agora com um outro aspecto da relaçãoentre consciência e subjetividade, mas um aspecto que diz respeito à relação entre consciênciae linguagem. Foi uma coisa, de certa maneira, difusamente presente em Os Desprezadores doCorpo, mas que a gente vai explorar nesse aforismo aqui. Esse aforismo que nós vamos ler,não é o único a respeito dessa questão, existem vários outros; eu vou tomar este aqui comoponto de partida, porque ele condensa, segundo minha opinião, muitos dos aspectos maisessenciais da discussão que Nietzsche faz a respeito. Então, o que nós vamos ver hoje é aquestão da unidade subjetiva em Nietzsche, vista sobre o ponto de vista da relação entreconsciência e linguagem. Nos nossos próximos encontros, aqueles para cuja preparação pedique vocês lessem os aforismos de Além do Bem e do Mal, nós vamos ver ainda um outroaspecto, aspecto esse que diz respeito a uma relação mais estreita com aquilo que nós vimosnas análises de Descartes e de Kant. Portanto, o que vamos trabalhar agora, é uma espécie depequeno refrigério, um tema menos árido, mas não menos essencial, na minha opinião, emrelação a essa questão que estamos examinando.Esse aforismo 354, faz parte do quinto livro da Gaia Ciência. Esse livro foi acrescentado por Nietzsche aos outros livros em 1886, portanto, é bem posterior à primeira edição do livro, aGaia Ciência, e este parágrafo 354 é contemporâneo de uma série de questões que Nietzsche,em parte, já tinha trabalhado no Zaratustra, entre elas, aquelas presentes lá em OsDesprezadores do Corpo e boa parte continuará a trabalhar nas suas obras posteriores. Todoesse parágrafo 354 é dedicado então à famosa consciência. O aforismo se chama do Gênio daEspécie. Eu queria, antecipadamente, dizer que o título do Gênio da Espécie é umaprovocação maldosa, que a gente vai ver no que consiste só depois ter lido o texto.
 
O problema do ter-consciência (mais corretamente: do tomar-consciência-de-si) só seapresenta a nós quando começamos a conceber em que medida poderíamos passar sem ela:e é nesse começo do conceber que nos coloca a fisiologia e a zoologia (as quais, portanto,precisaram de dois séculos para alcançar a premonição de Leibniz, que voava na suadianteira).
 
Bom, em primeiro lugar qual é a premonição de Leibniz que ele se refere aqui? O fundamentalna metafísica de Leibniz é que o homem, o ser humano não é só ser racional, ele não é sóracionalidade, mas ele é também apetite, a famosa frase de Leibniz diz que o ser humano éperceptio, quer dizer, representação; e apetitus, isto é, vontade, desejo. Então, Nietzsche jácomeça aqui, provocativamente, estabelecendo um curto-circuito entre o tema do tornar-seconsciente-de-si e o tema da fisiologia e da zoologia. Quer dizer, uma ligação que éefetivamente uma provocação. Ou seja, Nietzsche no fundo quer dizer o seguinte: se vocêobserva a fisiologia e a zoologia verá que o problema da consciência é, na verdade, umproblema simplesmente superficial. Ou seja, que aquilo que define o essencial do sujeito não é,como pretendia a tradição filosófica, a sua capacidade de tomar-consciência-de-si, mas aconsciência precisamente é um fenômeno secundário. O problema do ter-consciência, éprecisamente aquilo que se constitui como problema. Ou seja, por que é que nós tomamosconsciência de nós mesmos, em que medida isto é importante, tanto mais quanto nós podemosperfeitamente bem passar sem isso. Então, a fisiologia e a zoologia aqui, na verdade,simplesmente comprovam aquilo que Leibniz já tinha dito. Ou seja, que a consciência não é oessencial do sujeito, da subjetividade; mas a consciência é, na verdade, uma ínfima porção da
 
subjetividade. Você pode ter vida, tanto animal quanto humana, sem que necessariamente ofenômeno da consciência-de-si tenha que se apresentar.
 
Poderíamos, com efeito, pensar, sentir, querer, recordar-nos, poderíamos igualmente "agir" emtodo sentido da palavra: e, a despeito disso, não seria preciso que tudo isso nos "entrasse naconsciência" (como se diz em imagem).
 
Comentário: Recordar, aqui, fica difícil de aceitar isso.Professor: Por que?Comentário: Não sei. Recordar, sem consciência?Professor: Sim.Comentário: Não sei, fica...Professor: Logo para frente Nietzsche vai dizer, um pouco ironicamente, que isso poderia soar muito estranho nos ouvidos de um filósofo mais velho. E esse filósofo mais velho é umareferência, é uma remissão à tradição, essa tradição que a gente procurou verificar. Por que?Porque para Descartes, não sei se vocês lembram, que o sentir, o querer, o imaginar e orecordar eram formas do pensar, e o pensar era o ato por excelência da consciência. Se vocêsvoltam aqui a Kant e vêem que a consciência pensada como uma apercepção transcendental,esse eu-penso que é precisamente o veículo, uma unidade originária tem que ser necessariamente postulada como condição de todas as representações. Vocês vêem aimportância da consciência como origem ou unidade originária, que sintetiza ou que unifica,que dá unidade ao eu enquanto o eu do pensamento, enquanto sujeito do pensamento,inclusive, a memória. Ou seja, o que Nietzsche está pensando aqui, muito concretamente, é namemória como recolhimento e processamento de informação.Pergunta: Ou seria a memória como instinto?Professor: Por exemplo, o que significa simplesmente informação recebida, incorporada eprocessada...Pergunta: Aí sim, eu acho que a memória como instinto, vamos dizer, um pássaro que tem umritual, daí dá para entender...Professor: Claro. Daí a referência zoologia e a fisiologia. O ouvido do filósofo mais velho, aquinão é só Kant, Descartes, mas é Platão. Porque a recordação, como você lembra muito bem, oque era para Platão? Era a sabedoria por excelência, era filosofia. Ninguém, no fundo, aprendecoisa nenhuma, você só se recorda. Mas essa recordação...Comentário: Mas o texto é muito irônico.Professor: Mas esse texto é irônico o tempo todo. Inclusive, o Gênio da Espécie, eu repito, éuma maldade terrível, porque esta recordação é um ganhar consciência de coisas que vocêinconscientemente tinha vivido, que a alma já tinha vivido antes da encarnação, etc.; enquantohabitante do mundo das puras formas de Platão ou habitante do mundo das idéias.
 
A vida inteira seria possível sem que, por assim dizer, se visse no espelho: como, de fato,ainda agora, entre nós, a parte preponderante dessa vida se desenrola sem esseespelhamento - e aliás também nossa vida de pensamento, sentimento, vontade, por maisofensivo que isso possa soar a um filósofo mais velho. Para que em geral consciência, se noprincipal ela é supérflua?
 
Ou seja, essa idéia da consciência como espelho, Nietzsche está se referindo à reflexão, àconsciência como superfície de reflexão daquilo que se passa na nossa vida mental, na nossavida anímica. Então, segundo ele, toda a vida, tanto mental quanto sensível, como volitiva, etc.,seria perfeitamente possível sem que ela tivesse que refletir no espelho da consciência.
 
Ora, parece-me, se se quer dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e à sua suposiçãotalvez extravagante, que o refinamento e força da consciência estão sempre em proporção coma aptidão de comunicação de um ser humano ou animal...
 
Então, o primeiro elemento, isto é, o refinamento da consciência e a força da consciência éuma função ou está em relação ou em proporção com a capacidade ou aptidão dacomunicação, de um animal ou de um ser humano.
 
...e a aptidão de comunicação, por sua vez, em proporção com a necessidade de comunicação:isto entendido, não como se o próprio homem singular, que é precisamente mestre emcomunicar e tornar inteligíveis suas necessidades, fosse também, ao mesmo tempo, aquelecujas necessidades mais o encaminhassem aos outros.
 
Ou seja, a equação que Nietzsche monta aqui é entre a capacidade ou entre o refinamento daconsciência e a capacidade de comunicação, por um lado. Por outro, entre a capacidade de
 
comunicação e a necessidade de comunicação; mas essa necessidade de comunicação nãopensado do ponto de vista do indivíduo singular ou do homem enquanto indivíduo, mas sim emfunção de cadeias de gerações, raças inteiras como ele vai dizer aqui.
 
Mas bem me parece ser assim no que se refere a raças inteiras e gerações sucessivas: onde anecessidade, a indigência, coagiram longamente os homens a se comunicarem, a seentenderem mutuamente com rapidez e finura, acaba por haver um excedente dessa força earte da comunicação, como que uma fortuna que pouco a pouco se acumulou e agora esperapor um herdeiro que a gaste perdulariamente.
 
Bom, então, o plano em que Nietzsche coloca a reflexão não é o plano singular dos indivíduos,mas é o macro-plano da sucessão das gerações, da cultura, da espécie, e a relação continuasendo mantida entre a necessidade, a indigência e, precisamente em função disso, o progressoda comunicação.Comentário: Ele coloca, então, a consciência como a comunicação. Consciência surgiu danecessidade da comunicação.Professor: Olha, eu vou dizer até uma coisa a mais, e há aqui uma outra maldade; se vocêslerem o texto aqui, a tradução do Rubens, que é realmente preciosíssima, vocês terão lá essasindicações que eu estou dando para vocês. Em alemão, você tem dois termos com os quaisvocê pode se referir à sociedade e comunidade. Por um lado, Gesellschaft se diz sociedade, eGemeinde é o termo usado para comunidade. Por exemplo, uma igreja se diz uma Gemeinde,ou um certo grupo se diz uma Gemeinde, é uma comunidade. Só que Gemeinde, Nietzscheusa, numa relação, como filólogo deve saber o que está falando, ele usa em relação ao adjetivogemein, e gemein, quer dizer comum e vulgar. Ele faz um jogo de palavras extraordinário comisso em que ele liga como sociedade, enquanto comunidade, àquilo que é comum, vulgar,medíocre. Tudo sob esse eixo do Gemeinde, gemein, Gesellschaft, etc., que vai acabar por estabelecer uma espécie de ligação entre aquilo que é social, comunitário e comum, e daí comcomunicação. Por conseguinte, comunicar-se é se tornar comum. E a consciência éprecisamente o modo pelo qual você se torna comum. Vamos chegar a ler exatamente essemovimento aqui. E como é que você se torna comum? Pela linguagem.Pergunta: Agora, comum, ele toma no sentido do pejorativo?Professor: No duplo sentido. É um jogo consciente com a equivocidade de comum, comum nosentido daquilo que pertence a ambos, mas também no sentido daquilo que é medíocre.Comentário: E é completamente oposto ao conceito do verbo divino ... da palavra...Professor: Claro. Ou desta consciência pensada como unidade originária, que nós vimos aqui.Aqui o que nós vamos assistir neste texto é a gênese simultânea, para Nietzsche, daconsciência, da linguagem e da sociedade. Este texto aqui é no fundo isso. É isso que significao Gênio da Espécie.Comentário: Então, mas é uma crítica imensa.Professor: Claro. E é a melhor forma de você fugir-de-si. Ou seja, a melhor forma de você, emboa consciência, esquecer daquilo que é absolutamente singular, daquilo que não pode ser comunicado, porque ao ser comunicado se torna comum.Comentário: E aí entra o cristianismo...Professor: Sem dúvida. Com toda essa equivocidade. Isso é proposital, não é por acaso, não éque ele não considerou, evidentemente que ele considerou; sobretudo, porque ao longo datradição havia esse primado da consciência como fonte, sede, locus da racionalidade; pensar era igual ser consciente.Comentário: E daí a linguagem.Professor: Claro. É o Logos. A palavra. Aliás, a mesma palavra para linguagem e razão. Bom,vamos prosseguir um pouquinho. Agora, o interessante é que, precisamente nesta relaçãoentre a indigência, a carência, a necessidade e o poder de comunicação, com isso se cria umafortuna; o Rubens traduz Vermögen em alemão, por fortuna, a palavra quer dizer tanto afortuna no sentido material, quanto poder no sentido de faculdade, capacidade. Ou seja, estacapacidade de comunicação é algo com que o homem se enriquece, e é precisamente estacapacidade de comunicação, que uma vez acumulada, tornada desenvolvida, é depois, com oprogresso da cultura, gasta perdulariamente. Aqui, ele vai dizer:
 
(- e os assim chamados artistas são esses herdeiros, do mesmo modo que os oradores,pregadores, escritores: todos os homens que sempre vêm no final de uma longa série, sempre"nascidos tarde", no melhor sentido da palavra, e, como foi dito, por essência perdulários).
 
Mas, então, é preciso que esta capacidade de comunicação seja...
 
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