subjetividade. Você pode ter vida, tanto animal quanto humana, sem que necessariamente ofenômeno da consciência-de-si tenha que se apresentar.
Poderíamos, com efeito, pensar, sentir, querer, recordar-nos, poderíamos igualmente "agir" emtodo sentido da palavra: e, a despeito disso, não seria preciso que tudo isso nos "entrasse naconsciência" (como se diz em imagem).
Comentário: Recordar, aqui, fica difícil de aceitar isso.Professor: Por que?Comentário: Não sei. Recordar, sem consciência?Professor: Sim.Comentário: Não sei, fica...Professor: Logo para frente Nietzsche vai dizer, um pouco ironicamente, que isso poderia soar muito estranho nos ouvidos de um filósofo mais velho. E esse filósofo mais velho é umareferência, é uma remissão à tradição, essa tradição que a gente procurou verificar. Por que?Porque para Descartes, não sei se vocês lembram, que o sentir, o querer, o imaginar e orecordar eram formas do pensar, e o pensar era o ato por excelência da consciência. Se vocêsvoltam aqui a Kant e vêem que a consciência pensada como uma apercepção transcendental,esse eu-penso que é precisamente o veículo, uma unidade originária tem que ser necessariamente postulada como condição de todas as representações. Vocês vêem aimportância da consciência como origem ou unidade originária, que sintetiza ou que unifica,que dá unidade ao eu enquanto o eu do pensamento, enquanto sujeito do pensamento,inclusive, a memória. Ou seja, o que Nietzsche está pensando aqui, muito concretamente, é namemória como recolhimento e processamento de informação.Pergunta: Ou seria a memória como instinto?Professor: Por exemplo, o que significa simplesmente informação recebida, incorporada eprocessada...Pergunta: Aí sim, eu acho que a memória como instinto, vamos dizer, um pássaro que tem umritual, daí dá para entender...Professor: Claro. Daí a referência zoologia e a fisiologia. O ouvido do filósofo mais velho, aquinão é só Kant, Descartes, mas é Platão. Porque a recordação, como você lembra muito bem, oque era para Platão? Era a sabedoria por excelência, era filosofia. Ninguém, no fundo, aprendecoisa nenhuma, você só se recorda. Mas essa recordação...Comentário: Mas o texto é muito irônico.Professor: Mas esse texto é irônico o tempo todo. Inclusive, o Gênio da Espécie, eu repito, éuma maldade terrível, porque esta recordação é um ganhar consciência de coisas que vocêinconscientemente tinha vivido, que a alma já tinha vivido antes da encarnação, etc.; enquantohabitante do mundo das puras formas de Platão ou habitante do mundo das idéias.
A vida inteira seria possível sem que, por assim dizer, se visse no espelho: como, de fato,ainda agora, entre nós, a parte preponderante dessa vida se desenrola sem esseespelhamento - e aliás também nossa vida de pensamento, sentimento, vontade, por maisofensivo que isso possa soar a um filósofo mais velho. Para que em geral consciência, se noprincipal ela é supérflua?
Ou seja, essa idéia da consciência como espelho, Nietzsche está se referindo à reflexão, àconsciência como superfície de reflexão daquilo que se passa na nossa vida mental, na nossavida anímica. Então, segundo ele, toda a vida, tanto mental quanto sensível, como volitiva, etc.,seria perfeitamente possível sem que ela tivesse que refletir no espelho da consciência.
Ora, parece-me, se se quer dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e à sua suposiçãotalvez extravagante, que o refinamento e força da consciência estão sempre em proporção coma aptidão de comunicação de um ser humano ou animal...
Então, o primeiro elemento, isto é, o refinamento da consciência e a força da consciência éuma função ou está em relação ou em proporção com a capacidade ou aptidão dacomunicação, de um animal ou de um ser humano.
...e a aptidão de comunicação, por sua vez, em proporção com a necessidade de comunicação:isto entendido, não como se o próprio homem singular, que é precisamente mestre emcomunicar e tornar inteligíveis suas necessidades, fosse também, ao mesmo tempo, aquelecujas necessidades mais o encaminhassem aos outros.
Ou seja, a equação que Nietzsche monta aqui é entre a capacidade ou entre o refinamento daconsciência e a capacidade de comunicação, por um lado. Por outro, entre a capacidade de
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