Os mitos e a literatura da Antiguidade Clássica foram fundamen-tais no processo histórico de superação do obscurantismo. A escola podeaproveitá-los com a mesma função.Diz a lenda que certo papa, uma vez, deparou-se com um trecho davulgata – versão da Bíblia em latim – em que havia um uso lingüístico emdesacordo com uma das regras expressas por Quintiliano (gramático latinodo século II d. C.). O fato lançou o pontífice em um grande dilema. Em quemacreditar? Na Bíblia, cuja versão latina constitui um texto de inspiração divina,ou em Quintiliano, representante da mais sólida erudição da Antiguidade? Opapa sofreu, cogitou e, por fim, pensou: “Aceito a versão da Bíblia. Mesmoque esteja errada”.Meio sem graça do ponto de vista humorístico, a anedota é curiosapara exemplificar as contradições com base nas quais a Europa Ocidentalrealizava a transição da Idade Média para os tempos modernos, por inter-médio do Renascimento. A Igreja Católica ainda era o centro do poder. Mas,culturalmente, a Antiguidade Clássica exercia enorme fascínio e influência.De fato, do ponto de vista imaterial, o Renascimento se caracteri-za pela decidida retomada dos valores culturais, filosóficos e artísticos datradição greco-latina, o que, ao menos em certa medida, só poderia se dar em confronto com a tradição cristã medieval. Esse processo, como sabemos,está na raiz de inúmeros aspectos do mundo contemporâneo, como, no planoinstitucional, a separação entre Estado e Igreja (e o conseqüente advento doEstado burguês) e, na ciência e na tecnologia, a primazia do racionalismo edo empirismo.
CLASSICISMO E CONHECIMENTO ESCOLAR
Grande parte dos conhecimentos previstos nos programas escolarestem sua gênese associada à revolução do Renascimento e seus desdobra-mentos. Assim, o Classicismo ou ao menos a referência ao mundo greco-latino se fazem a toda hora presentes. O teorema de Pitágoras, a geometriade Euclides, a teoria atômica, os modelos éticos e estéticos, a retórica e asnoções de direito e cidadania – não é possível passar pela escola e não estar em contato com os gregos e os latinos.Esse processo é adequado? É justo e importante que aescola contemporânea teça laços com a Antiguidade Clássica?Não seria isso um anacronismo?Sob certo aspecto, essas questões revestem outra,de caráter mais amplo. A escola tem o papel de disponibili-zar o acesso ao conhecimento letrado? Embora devamosreconhecer os exageros embutidos em uma prática peda-gógica excessivamente conteudista, e embora haja todauma gama de teorias que de certo modo parecem preo-cupar-se mais com o “treinamento”, a “capacitação” dosestudantes, é inegável que a possibilidade de estar emcontato com o universo do letramento é um direito detodos e que à escola cabe precipuamente essa tarefa.Mas como realizar essa tarefa? Como o conhecimento pode ser re-criado pelas populações contemporâneas, sobretudo as que historicamentenão tiveram atendido seu direto à educação? Não há, é claro, uma respostasegura a essa inquietação, nem está no âmbito deste texto discutir algo tãoamplo. Mesmo assim, gostaria de afirmar que o Classicismo joga um papelpreponderante nesse processo.
História e indivíduo
Quando pensamos a história, parecemos muitas vezes presos à ar-madilha de supor que o desdobramento dos fatos segue uma orientaçãolinear, segundo a qual um estado de coisas é suplantado por outro, umaespécie de contínua cadeia sucessória. Claro que isso em parte acontece.Mas também há sempre persistências, resistências, regiões em que a ordem“antiga” sobrevive, mantendo-se portanto “atual”.Dizer que a Idade Média “acabou” e que a ela se seguiu o Re-nascimento pode, sob esse prisma, sugerir uma idéia apenas parcial.Outras partes do mundo que não a Europa Ocidental, como a Ásia, pas-saram por processos bem distintos. Igualmente, certos segmentos so-ciais dos mesmos países europeus ou sob influência européia tampoucose livraram do obscurantismo medieval em favor do desenvolvimentorenascentista.É aí que entra a escola, seu papel na construção de uma sociedadeem que os benefícios advindos do processo da ciência e do desenvolvimentodas forças produtivas estejam a serviço de todos e não apenas de segmen-tos privilegiados. Renascimento para todos.O Canto I da Ilíada narra o descontentamento de Apolo com certaatitude de Agamêmnon, o chefe de todos os gregos durante a Guerra deTróia. Como conseqüência, o deus lança setas mortais sobre as tropas gre-gas, vitimando-as durante nove dias. Ao décimo, o herói Aquiles, filho de ummortal e de uma deusa, convoca uma assembléia de todos os combatentes.Nela, expressa-se livremente, apontando ganância e avidez na atitude deAgamêmnon. Talvez nenhum outro povo tenha com tanta explicitude defen-dido o valor da reunião dos homens livres, inclusive na guerra. Mesmo emseus mitos, os gregos celebram a democracia.Historicamente, como acabamos de ver, a supe-ração da Idade Média guarda íntima relação com oClassicismo. Ao reinventar os mitos e a literatura daAntiguidade greco-latina, a escola ajuda a recriar, tantono coletivo escolar, como em cada estudante individual-mente, o percurso histórico que instaura o mundo con-temporâneo.
LITERATURA CLÁSSICAE ENSINO
Paulo Bearzoti Filho
Paulo Bearzoti Filho é professor de Língua Portuguesa,supervisor dessa disciplina nas escolas do Grupo Posi-tivo e coordenador da revista Discutindo Língua Portu-guesa (Escala Educacional). É autor, entre outras obras,de Formação lingüística do Brasil (Positivo: 2002).
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