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1.INTRODÃO
“[...] não se pode ser tão original no mundo científico. Uns e outros contribuem para uma continuidade que nos irmana”.(Maurício Knobel)
Nos hospitais-escola faz parte da rotina, quase diária, a prática da
visita médicaà beira do leito
. Tal atividade tem objetivos didáticos e assistenciais, que visampossibilitar aos estudantes e residentes de medicina o contato com pacientes(QUAYLE, 1998). Assim, acompanhados por professores e médicos mais experientes,eles apresentam os casos e discutem o quadro clínico e os exames físicos dospacientes internados. Nota-se então que a prática da medicina envolve o médico, com asofisticação técnica e o especialismo; e o paciente, com sua fragilidade diante dodesconhecido (ESTIVALET, s/d); justificando então a importante relação estabelecida.Apesar de ter valor inquestionável para a formação médica, faz-se necessáriorefletir sobre os efeitos psicológicos que a visita médica pode proporcionaraospacientes. Existe uma tendência em considerar tais visitas como ruins do ponto de vistado bem-estar psicológico do paciente (SANCOVSKI, 2002), o que talvez não se façaverdade absoluta. Observa-se que ela é percebida pelo paciente de maneira ambígua econflitiva; enquanto alguns referem dificuldades para compreender o que é dito arespeito de sua doença e sentem-se desamparados e excluídos de seu própriotratamento, outros sentem-se acolhidos e prestigiados quando recebem por parte detoda equipe atenção e informação sobre sua doença e tratamento (MARTINS;QUAYLE; LIVRAMENTO; LUCIA, 2003).Atualmente muito se fala sobre Humanização Hospitalar. Há um discurso denecessidade de esforço contínuo em humanizar o atendimento, e para isso, acredita-seque seja essencial humanizar a relação entre a equipe de saúde e o paciente. Partindodesse ponto de vista, torna-se importante o estudo da percepção dos pacientes nasituação da visita médica e como a relação com o médico é favorecida ou prejudicada
 
2durante a mesma, uma vez que saber o que pensam e sentem os pacientes a respeitopode auxiliar na formulação de atividades práticas desenvolvidas pelas escolasmédicas, contribuindo para a melhora do cuidado prestado aos doentes.O interesse pelo tema surgiu durante as participações nas visitas médicasàbeira dos leitos, com os pacientes internados no Departamento Médico pela equipe deCardiologia na Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Vale ressaltar quea ISCMSP é um hospital-escola de referência e grande porte.Por meio de observaçõese relatos de pacientes e alguns membros da equipe de saúde, percebeu-se algunssentimentos despertados por essa
discussão de caso
ocorrida à beira, a margem, emvolta do leito de cada paciente, na presença também de seus colegas de quarto eacompanhantes.Diante disso, o objetivo do presente trabalho é verificar a percepção dospacientes frente a visita médica em um hospital-escola bem como a inserção e aimportância do psicólogo como integrante da equipe multiprofissional nesse momento.Além de compreender melhor os sentimentos despertados durante a hospitalização ecomo se estabelece a relação médico-paciente.Levando-se em conta tais dados, este trabalho de revisão bibliográficaconta comtrês capítulos teóricos, abordando os seguintes assuntos: história do hospital,enfatizando os hospitais-escola e a influência da hospitalização nos indivíduos; arelação médico-paciente, uma relação estabelecida,muitas vezes, por dependência,regressão e uma difícil comunicação entre as partes; e finalmente a visitamédica abeira do leito, foco de nosso estudo, levantando também a importância da equipemultiprofissional (incluindo-se o psicólogo)participativa das visitas à beira do leito paraa humanização hospitalar. Finalmente faz-se uma discussão, ressaltando divergênciase convergências da literatura com a prática percebida no trabalho junto à equipe deCardiologia da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo durante as visitasmédicas à beira do leito.
 
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2. DO HOSPITAL À INTERNAÇÃO
“A morte recuou e trocou a casa pelo hospital, está ausente no mundofamiliar do dia-a-dia”.(Philipe Ariès, 1975)
2.1 –Instituição Hospitalar 
Da missão em resgatar pobres, moribundos e doentes do meio social à funçãode salvar vidas, o hospital percorreu um longo caminho até chegar ao modeloencontrado hoje (PITTA, 1999).A palavra hospital vem do latim ‘hospes’, que significa hóspede, a qual deuorigem à ‘hospitalis’ e ‘hospitium’, que designavam o lugar onde se hospedavam naAntigüidade, além de enfermos, viajantes e peregrinos (CAMPOS, 1995).A figura dohospitalsurgiu historicamente no ano 360 d.C. (CAMPOS, 1995; FOCAULT, 1979;NIGRO, 2004). Nessa época, a doença era considerada com base em uma concepçãomítico-mágica, e a prática da “medicina”, como uma função religiosa nas civilizaçõesgrega e romana. Na Grécia politeísta acreditava-se que as pessoas adoeciam ourecuperavam a saúde porque essa era a vontade dos deuses.Até a Idade Média, os doentes de famílias tradicionais eram cuidados em casa.Assim, de acordo com Kovács (1987), o homem, de forma geral, antes do advento datecnologia médica estava mais familiarizado com a morte, sendo permitida a expressãode tristeza e dor. Apartir dessa tecnologia médica, a vivência da morte com todas asexpressões subjetivas começaram a se deslocar ao hospital, no século XVIII tem seusignificado e suas práticas também transformados.Antes do século XVIII, somente eram cuidados no hospital os indivíduos que nãopossuíam recursos financeiros ou os excluídos do meio social; assim, o hospital erauma instituição de assistência ao pobre, como também de exclusão e separação. Neste
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