Toda a loucura é arte? Análise crítica de um eufemismo romântico
Achilles Delari Junior
Umuarama, 10 de outubro de 2008.
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“A arte não é um comple-mento da vida, mas o resul-tado daquilo que excede a vi-da no ser humano”
L. S. Vigotski (2003, p. 233)
TODA A LOUCURA É ARTE?
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análise crítica de um eufemismo romântico
Achilles Delari Junior
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1 Um ponto de divergência
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Partirei aqui de um emblemático enunciado de GregórioBaremblitt em seu texto “Patologia. Arte. Terapia. Cura”(2006), como fragmento representativo de outras ques-tões às quais ele não se refere, mas que emergem da sualeitura como relevantes para o debate atual em psicolo-gia e saúde mental. Trata-se particularmente de umaafirmação nuclear sua de que o trabalho com as artes junto a pessoas sob o signo da “loucura” pode ser consi-derado um
pleonasmo
, visto que a loucura como tal jáoperaria seus processos semió-ticos do mesmo modo que aprodução artística, sob o para-digma talvez da linguagem oní-rica. É o que se sintetiza noenunciado: “Tal vez por eso ha-blar acerca de, y practicar Arteterapia sea, al mismo tiempo,una estrategia respetable y unpleonasmo. El Arte es cura, sipor cura se entiende la restaura-ción de un concepto de locura que siempre fue la saludde los artistas” (BAREMBLITT, 2006, p. única). Assim,está se dizendo que a arte já é loucura e que nos artistas já haveria uma loucura que é saúde ou cura. Deduz-sedaí que o trabalho com artes junto a pessoas sob a de-signação de “loucos” (o autor reprova o termo “pessoascom sofrimento mental” como sendo eufemismo) seriaentão o de lhes potencializar a mesma loucura, estandoa arte nela implícita. Sob minha ótica, gostaria de dispu-tar essa apreciação tanto sugerindo um caráter não ex-cludente da figura de linguagem posta em jogo na rela-ção “arte e loucura”, quanto questionando alguns deseus desdobramentos semânticos relativos à práxis te-rapêutica – inserindo na arena desses signos uma brevecrítica à cosmovisão romântica própria ao discurso que atra-vessa o fragmento ora tomado como ponto de partida.
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Para fins de referência: DELARI JR., A.
Toda a loucura é arte?
Análise críticade um eufemismo romântico. Umuarama. Mimeo. 2008. 14 p.
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Psicólogo pela UFPR, Mestre em Educação pela Unicamp, na área “Educa-ção, conhecimento, linguagem e arte”. E-mail: delari@uol.com.br
2 Do pleonasmo à metonímia
Penso que quando o autor diz “pleonasmo”, para dar aver que “toda loucura já é arte”, pode também emergir,ao invés (ou além) disso, uma “metonímia” da parte pelotodo. Ou seja, nem tudo na loucura é só arte, algo dela opode ser, mas este algo passa a representá-la no seuconjunto: “toda loucura já é arte” pode soar como “lou-cura é arte”, “tudo na loucura é arte”, “arte é o todo daloucura”. De modo que, supondo que fosse a arte algointrinsecamente “benéfico” às pessoas que a produzeme fruem, tudo de “maléfico”que na loucura porventurapudesse haver seriaextrínseco à sua própriadefinição – a loucura seriaapenas mais um bemcultural entre outros e nãotambém um processo quecausa sofrimento e decrés-cimo de qualidade de vidacomo outros males dos quaisa humanidade ainda padece. O eventual sofrimento, sehouver, seria advindo exclusivamente de algum tipo deacidente ou impostura alheia a ela, ou à sua gênese. Anão ser, é claro, que se levante, desde já, a possibilidadede não haver para a arte só a finalidade e a capacidadede proporcionar alegria, elevação, composição, potênciade vida, mas também tristeza, rebaixamento, decompo-sição e impotência – algo a ser pensado, a seu tempo,quanto à própria definição de arte posta em jogo. Cer-tamente, restará perguntar, frente a isso, se há comosentir ainda desejo de que as paixões alegres predomi-nem, de que a potência de vida se amplie e de que pos-samos compor mais com o mundo, ou se tal aspiraçãoestá desde já condenada a afundar no mar revolto dorelativismo cultural, epistêmico, estético e ético da con-temporaneidade – mas isso é para mais adiante. Nomomento, o ponto chave, para aquilo que buscarei arti-cular em seguida, é o de que mesmo que admitamostodos os devires da loucura como sendo um tanto arte,também seria preciso assumir que em cada vivência
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