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Assassinato de JFK

Assassinato de JFK

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20 | Domingo 17 Novembro 2013 |
2
OSWALD PASSOU POR AQUI
 Há 50 anos, um homem obscuro e medíocre  saiu do anonimato para se converter num dos ícones do nosso tempo: Lee Harvey Oswald, per- sonagem central do homicídio mais discutido de sempre. Visita guiada por alguns dos lugares de Dallas onde o provável assassino do Presi-dente John Fitzgerald Kennedy viveu e morreu
PAULO FARIA
, EM DALLAS
 
Dallas, 22 de Novembro de 1963. É quase meio-dia e meia. De manhã choveu, mas agora o Sol brilha. A caravana presidencial aproxima-se da Dealey Plaza. Dentro de escassos minutos, soarão tiros
   C   E   C   I   L   S   T   O   U   G   H   T   O   N .   W   H   I   T   E   H   O   U   S   E   P   H   O   T   O   G   R   A   P   H   S .   J   F   K   P   R   E   S   I   D   E   N   T   I   A   L   L   I   B   R   A   R   Y   A   N   D   M   U   S   E   U   M
 
22 | Domingo 17 Novembro 2013 |
2
D
allas é a cidade do ódio. É essa a
sua fama, é esse o seu carácter.
Cada cidade americana tem a sua personalidade, a sua imagem aos olhos dos naturais e dos forastei-ros, e, no caso de Dallas, todas as
pessoas com quem falo aqui no
Texas estão de acordo: Dallas tem
fama de ser a cidade do ódio. Este
ódio não é visível nas pessoas de
Dallas nem na sua atitude. Não há hostilidade nem antipatia nos rostos nem nas palavras. A
única excepção durante toda a viagem acon-
tece logo à saída do aeroporto, no carro alu-
 gado, quando Peter Josyph, o fotógrafo nova-
iorquino que me acompanha, se vê obrigado
a mudar de faixa na fila da portagem. Um táxi
entala-nos imediatamente, e o Peter enfia a
cabeça pelo vidro aberto e grita: “Custava-te
muito deixar-nos passar, era?” Acto contínuo, o passageiro do táxi abre a porta traseira e faz menção de sair, pronto para andar à pancada, de olhar em fogo. Nada que não pudesse acon-
tecer em qualquer outra parte do mundo, a
começar por Lisboa. Bom, talvez em Portugal
sejam os passageiros dos táxis a acalmar os
motoristas e não o contrário...
A verdade é que os habitantes de Dallas, quando interrogados, se apressam a negar
que esta triste fama seja o sintoma de males
profundos. Não passa de um mero resquício de tempos idos, dizem. Mas a verdade é que,
se partirmos do pressuposto de que John Fitz-
 gerald Kennedy dificilmente deixaria de ser
 vítima de um atentado, tais as animosidades
que concitou no Sul e no Sudoeste dos EUA
com o seu apoio aos movimentos integracio-
nistas dos negros, o atentado teria mesmo de
acontecer aqui, em Dallas. “Nenhuma outra
cidade está tão ligada a um acontecimento
 violento como Dallas. É a única cidade em que,
pensando nela, nos vem imediatamente ao es-
pírito um assassínio que ali ocorreu”, dir-nos-á
mais tarde Katharine Salzmann, arquivista da
Universidade do Texas em San Marcos, a sul
daqui. “O mesmo não sucede com Memphis,
por exemplo, onde mataram Martin Luther
King. Em Memphis, aconteceram muitas ou-tras coisas importantes em termos históricos
e culturais. Em Dallas, dir-se-ia que não. Dallas
é uma das personagens fulcrais no assassínio de JFK.”
 O homem que naquela sexta-feira, 22 de
Novembro de 1963, vestiu a pele de principal suspeito da morte do Presidente foi Lee Har-
 vey Oswald, um jovem de 24 anos, natural de
Nova Orleães, mas que, tendo passado gran-de parte da infância na zona de Fort Worth/
Dallas, se sentia aqui como em sua casa. Em-
 bora seja questionável afirmar que Oswald
alguma vez se sentiu em sua casa onde quer que fosse. Naquele dia, Oswald, pobre, anó-
nimo, deserdado, abraçou JFK, rico, nascido
em berço de ouro, o homem mais poderoso
do mundo, e contaminou-o para sempre com
o seu pequeno mundo miserável de
bungalows
 
suburbanos de aluguer, de dinheiro contado
ao cêntimo, de ambições falhadas, de dislexia, de escrita labiríntica, de pequenas obsessões,
de mania das grandezas — a partir daquele dia,
em Dallas, quem pensa em JFK pensa necessa-riamente em Oswald, e vice-versa. Passaram a constituir um par inextricável, gémeos separa-
dos à nascença. Oswald, JFK, Dallas, vértices de um triângulo sinistro.
“Na Pensilvânia ou na Nova Inglaterra, a piada recorrente é não haver palheiro nem
casinhoto que não ostente uma placa a dizer que George Washington ali dormiu”, diz-nos
 John Slate, arquivista da cidade de Dallas, que
nos vai servir de cicerone. “Aqui é o mesmo, só que com Lee Harvey Oswald.”
Oswald era uma criatura estranha, para não
dizer mais. Em 1959, com 19 anos, em plena Guerra Fria, viajou para a URSS e tornou-se
dissidente, um gesto no mínimo bizarro para
qualquer americano à época, se exceptuarmos
os espiões. Saber se Oswald o era ou não é matéria para os que cruzam os mares enca-
pelados das teorias da conspiração, onde não me irei aventurar. O que aqui me traz, guiado
pelo infatigável e bem-disposto John Slate, é  visitar os tais lugares de Dallas onde Oswald
dormiu antes e depois de emergir fragorosa-mente do anonimato e irromper no palco da
história pela porta dos fundos naquele seu  jeito a um tempo canhestro e dissimulado,
sonso e indefeso, tímido e arrojado com que o
 vemos nas imagens televisivas a preto e branco
daquele fim-de-semana alucinante. No roman-ce que lhe dedicou,
 Libra
 (1988), Don DeLillo,
ao retratar Oswald, fala daquele seu “sorriso
peculiar, o pequeno esgar que lembrava um
comediante num filme mudo, com o ecrã a escurecer-lhe em volta do rosto”. Uma vida
 breve na obscuridade, seguida de 48 horas de fama duvidosa, culminando com o assassínio
do próprio Oswald às mãos de Jack Ruby, no
domingo, 24 de Novembro de 1963, por volta
das onze e meia da manhã.
Desiludido com o sistema comunista — a partir daí, dirá sempre que é marxista, mas
não comunista —, Oswald regressa aos Estados
Unidos com a mulher russa, Marina, e uma
filha bebé e vai viver para o Texas, onde esta-
 vam a sua mãe e um irmão. Fort Worth, depois
Da esq. para a dir. e de cima para baixo: o número 212-214 da West Neely Street; a antiga hospedaria no número 1026 da North Beckley Avenue; a sede da polícia e dos tribunais onde Jack Ruby assassinou Oswald; o antigo Depósito de Manuais Escolares de onde Oswald terá disparado; a bilheteira do Texas Theater onde Oswald foi preso; o viaduto no extremo oeste da Dealey Plaza, por baixo do qual a limusina presidencial arrancou para fugir ao tiroteio. Quando Oswald posou para as fotogra
ias de espingarda em punho (à direita), todo vestido de negro, no quintal das traseiras da Neely Street, Marina perguntou-lhe porquê aquelas roupas ridículas. “Para a posteridade”, respondeu ele
Dallas. Aqui, instala-se com a família em Oak
Cli
ff 
, um subúrbio da classe trabalhadora a
oeste do centro da cidade, na outra margem
do rio Trinity, um bairro hoje muito procurado
pelos abastados devido à sua pacatez e exce-
lente localização, mas onde são ainda bem
 visíveis algumas bolsas de relativa pobreza.
A nossa primeira paragem é no 212-214 da
West Neely Street, onde Oswald morou entre
Março e Maio de 1963, antes de ir passar o
Verão desse ano fatal a Nova Orleães. A casa
de madeira tem dois andares, a tinta amarela exibe as marcas da incúria, estalada e caduca, e a moradia está visivelmente inclinada, pres-
tes a cair, dir-se-ia, prestes a entregar a alma
ao Criador, talvez cansada do fardo de tantos olhares curiosos, de tanta devassa. John Slate avisa-nos de que a pessoa que ali mora é bem
capaz de nos pedir dinheiro para vermos a
casa. Cinco ou dez dólares deverão chegar. O facto de o próprio John Slate ficar sentado no carro “a fazer uns telefonemas” não é lá muito
encorajador. Aproximamo-nos da porta da
frente. Não há campainha, bato com o punho fechado. Silêncio. Torno a bater com mais for-ça. Nada. Damos a volta para as traseiras pela
direita, porque é principalmente o quintal que
nos interessa — foi aí que, há 50 anos, Marina
Oswald tirou ao marido as celebérrimas fo-tografias que mais tarde serviriam à polícia
de prova incriminatória, uma das quais faria
a capa de um número mítico da revista
 Life
.
Oswald a fazer pose, exibindo as armas dos
seus crimes e com dois jornais comunistas na
mão, junto à escada exterior nas traseiras da
PETER JOSYPHPETER JOSYPHPETER JOSYPH

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