Jornalismo on-lineProf. Artur Araujo –e-mail: artur.araujo@puc-campinas.edu.br / site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ Página 1 de 2
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINASCENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃOFACULDADE DE JORNALISMO
Espaço crítico
Paul Virilio
VIRILIO, Paul.
Espaço crítico
. São Paulo : 34, 1995, p. 105-109
“Suprimir o distanciamento mata.” René Char
Ao lado dos fenômenos das poluições atmosférica, hidrosférica e deoutros tipos, existe um fenômeno despercebido de poluição da extensão, queproponho designar como “poluição dromosférica”, de dromos, corrida.De fato, a contaminação atinge não somente os elementos, assubstâncias naturais, o ar, a água, a fauna ou a flora, mas ainda o espaço-tempo de nosso planeta. Reduzido progressivamente a nada pelos diversosmeios de transporte e comunicação instantâneos, o meio geofísico sofre umainquietante desqualificação de sua “profundidade de campo” que degrada asrelações entre o homem e seu ambiente. Desta forma, a espessura ótica dapaisagem diminui rapidamente, resultando em uma confusão entre o horizonteaparente sobre o qual toda cena se destaca, e o horizonte profundo de nossoimaginário coletivo, em benefício de um último horizonte de visibilidade, ohorizonte trans-aparente, fruto da amplificação ótica (eletro-ótica e acústica)do meio natural do homem.Há portanto uma dimensão oculta da revolução das comunicaçõesque afeta a duração, o tempo vivido de nossas sociedades.É aqui, creio eu, que a “ecologia” encontra seu limite, sua insuficiência teórica, se privando de uma abordagemdos regimes de temporalidade associados aos diversos “eco-sistemas”, em particular àqueles que tem origem natecnosfera industrial e pós-industrial. Ciência do mundo finito, a ciência do meio ambiente humano parece se privarvoluntariamente de sua relação com o tempo psicológico. A exemplo da ciência “universal” denunciada por EdmundHusserl, a ecologia não questiona verdadeiramente o diálogo homem-máquina, a estreita correlação entre diferentesregimes de percepção e as práticas coletivas de comunicação e de telecomunicação.Em suma, a disciplina ecológica não reflete suficientemente o impacto do tempo-máquina sobre o meioambiente, deixando esta tarefa a cargo da ergonomia, da economia e por vezes apenas da “política”...Sempre esta mesma ausência desastrosa da compreensão do caráter relativista das atividades do homem damodernidade industrial... É aqui que, de agora em diante, intervém a dromologia. A menos que se queira ver a ecologiacomo a administração pública das perdas e ganhos das substâncias, dos stocks que compõem o meio ambiente humano,esta disciplina não pode mais se desenvolver sem levar em conta também a economia do tempo das atividadesinterativas e de suas rápidas mutações.Se, segundo Péguy, “não existe história, mas somente uma duração pública”, o ritmo e a velocidade própriosda realização do mundo deveriam dar lugar não somente a uma “sociologia verdadeira”, como propôs o poeta, masainda a uma autêntica “dromologia pública”. Não nos esqueçamos jamais, a propósito, que a verdade dos fenômenos ésempre limitada por sua velocidade de aparecimento.Remontemos agora às origens prováveis deste desconhecimento da rítmica pública. Sobre um planeta limitadoque se transforma em apenas uma grande superfície, a ausência de um ressentimento coletivo em relação à poluiçãodromosférica tem sua origem no esquecimento do “ser do trajeto”. Apesar dos estudos e dos debates recentes sobre oencarceramento e as privações carcerárias que afetam determinada população privada de sua liberdade de movimento— regimes totalitários ou penitenciários, bloqueios, estado de sítio, etc. — parece que continuamos incapazes deabordar seriamente a questão do trajeto fora dos domínios da mecânica, da balística ou da astronomia.Objetividade, subjetividade, certamente, mas jamais trajetividade. Apesar da grande questão antropológica donomadismo e do sedentarismo que esclarece o nascimento da cidade como força política maior da História, não hánenhuma reflexão sobre a característica vetorial da espécie transumante que nós somos, de sua coreografia... Entre osubjetivo e o objetivo parece não haver lugar para o “trajetivo”, este ser do movimento do aqui até o além, de um até ooutro, sem o qual jamais teremos acesso a uma compreensão profunda dos diversos regimes de percepção de mundo quese sucederam ao longo dos séculos, regimes de visibilidade das aparências ligados à história das técnicas e dasmodalidades de deslocamento, das comunicações à distância, com a natureza da velocidade dos movimentos detransporte e de transmissão engendrando uma transmutação da “profundidade de campo” e, conseqüentemente, daespessura ótica do meio ambiente humano, e não apenas uma evolução dos sistemas migratórios ou do povoamento dedeterminada região do planeta.Hoje se coloca portanto a problemática da amplitude residual da extensão do mundo, diante da superpotênciados meios de comunicação e telecomunicação: por um lado, velocidade limite das ondas eletromagnéticas e, por outro,limitação, redução drástica da extensão da “grande superfície” geofísica pelo efeito dos transportes subsônicos,supersônicos e, em breve, até mesmo hipersônicos...
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