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Somos todos um só? Um breve ensaio sobre a (des)igualdade, em dez tonalidades.

Somos todos um só? Um breve ensaio sobre a (des)igualdade, em dez tonalidades.

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Artigo de Marcelo Alexandrino da Costa Santos
Artigo de Marcelo Alexandrino da Costa Santos

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Published by: Marcelo Alexandrino da Costa Santos on Nov 09, 2009
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Somos todos um só? Um breve ensaio sobre a (des)igualdade, em deztonalidades.
Marcelo Alexandrino da Costa Santos 
1.
 Liberté, égalité, fraternité 
: mote cujas origens remontam à RevoluçãoFrancesa e cujo alcance de – e compatibilidade entre – seus termos sempre geraramcalorosas discussões
1
.Embora reconheçamos a virtude da Revolução Francesa na consolidação dasubmissão do Estado e de seus agentes à lei e na consagração de direitos individuais emdocumentos constitucionais, seríamos ingênuos se propuséssemos uma análise quedesprezasse o fato de que aquele processo, desde sua gênese, esteve indelevelmentemarcado pelo liberalismo, tanto em sua dimensão política – de não interferência doEstado na esfera de liberdade do cidadão – quanto em sua dimensão econômica – deabstenção do Estado no âmbito do livre mercado
2
.Nesse contexto, os direitosindividuais de liberdade ganharam destaque, em detrimento dos direitos sociais deigualdade: livres eram os proprietários
3
; portanto, na lógica liberal, estes eram os
iguais
a quem a cidadania e os demais direitos individuais eram assegurados para além dasimples retórica
4
. A igualdade era uma expressão da liberdade, que, por sua vez, eraindissociável da propriedade, titularizada pelo chefe de família, o homem da casa,ninguém mais, ninguém menos, que o homem de cor branca.Desse modo, o terceiro termo, fraternidade, nada mais poderia representar doque um pacto classista, que dividia a sociedade em blocos de
amigos
e
inimigos
. Afinal,se interpretada como a realização de uma comunidade harmônica e avessa ao egoísmo, afraternidade se veria em franca oposição ao projeto liberal de autonomia individual, que
1
Ver a interessante entrada postada na Wikipedia:
Liberte, Égalité, Fraternité.
Disponível em:<http://en.wikipedia.org/wiki/Libert%C3%A9,_%C3%A9galit%C3%A9,_fraternit%C3%A9>. Acesso:10 fev. 2009.
2
A esse respeito, cf. MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, PauloGustavo Gonet.
 Hermenêutica constitucional e direitos fundamentais.
1. ed. 2. tiragem. Brasília: BrasíliaJurídica, 2002. p. 108.
3
PISARELLO, Gerardo.
 Los derechos sociales em el constitucionalismo democrático.
Disponível em <http://www.juridicas.unam.mx/publica/rev/boletin/cont/92/art/art7.htm >. Acesso em: 27 Dez 2008.
4
Interessante observar, por exemplo, que o sufrágio censitário somente foi abolido na França em meadosdo século XIX, a despeito de a Declaração dos Direitos do Homem e dos Cidadãos, de 1.789, dispor que“os homens nascem e são livres e iguais em direitos” (artigo primeiro). A propósito, é de se registrar quea Constituição Francesa de 1.795 dispunha expressamente sobre o mínimo de bens necessários àaquisição da qualidade de eleitor (art. 35).
 
 propositalmente já reduzia o alcance da igualdade em benefício dos proprietários dosexo masculino.
 
Sob um discurso universalista e abstrato, a burguesia liberal logrou “estabelecer uma ordem de direitos universais de todos os seres humanos como um passo paraexatamente negar o direito à maioria deles”
5
. Insurgir-se contra esse quadro, mesmo aovento da Revolução, que pretendia desagrilhoar o ser humano e resgata-lo doscalabouços da tirania e da opressão, era correr o risco de compartilhar do terríveldestino de Olympe de Gouges
6
.Muito mais do que um breve e superficial exame histórico, as linhas acima se prestam a evidenciar que qualquer análise sobre a igualdade deve estar atenta aosditames ideológicos que, muitas vezes, restringem e subvertem o conteúdo e a dimensãode determinados valores e direitos, apresentando idéias artificiais como se não o fossem, para, assim, diante de uma falsa inexistência de alternativas, firmar o pensamentohegemônico. Portanto, para os fins deste escrito, a tarefa que a esta altura se impõe éidentificar de que igualdade se fala, para que se possa analisar criticamentedeterminadas formas pelas quais se lhe transgride, ou seja, para que se possa discutir emancipadamente certas formas de discriminação.II. Retornemos à Revolução Francesa na busca da resposta para a questão acima.Fazendo-o, deparamo-nos com a pertinente observação de Ana Rubio Castro
7
, nosentido de que a burguesia ilustrada, ao estabelecer a igualdade como elemento deidentificação em face do poder estabelecido e dos privilégios então instaurados,considerou a positivação desse princípio como o bastante para assegurar a suaconsagração e manutenção. A isto se seguiu a crença de que, uma vez celebrado o pactoinstrumentalizado na Declaração, a nova ordem jurídica e política, por si só, protegeriaos direitos individuais e estabeleceria uma correta ordem social. Permeando esse
5
LANDER, Edgardo.
Ciências sociais
: saberes coloniais e eurontricos. Disponível em: <http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/lander/pt/Lander.rtf >. Acesso: 16 mar. 2009.
6
Olympe de Gouges (pseudônimo de Marie Gouze) foi decapitada em 1.793, acusada de ser uma contra-revolucionária. Opositora declarada da escravidão, de Gouges expôs sua veia feminista com a publicaçãoe submissão à Assembléia Nacional da França, em 1.791, da Declaração dos Direitos da Mulher e daCidadã, ressaltando que o sexo feminino havia sido posto de lado na Declaração dos Direitos do Homeme dos Cidaos de 1.789. Tal atitude lhe custou a vida após ter sido denunciada comocontrarevolucionária e “mulher desnaturada”.
7
CASTRO, Ana Rubio.
Ciudadania y sociedad civil 
: avanzar em la igualdad desde la política. Por umnuevo pacto social. Disponível em <http://www.laguachimana.org/content/ncc/ciudadania-y-sociedad-civil-avanzar-en-la-igualdad-desde-la-politica>. Acesso: 11 mar. 2009.
 
discurso, estava a idéia de que a razão – na qual se fundavam os métodos liberais – levaria ao descobrimento da verdade e à concretização do universal, de modo que aexclusão de determinados grupos dos processos de tomada de decisão não afetaria oconteúdo moral do que dali viesse a emergir. Tal postulado, arremata a autora,“permitió sostener que los derechos del hombre y del ciudadano expresados en 1789,eran los derechos de toda la humanidad” e assim explica-se por que
durante tanto tiempo se haya creído que los derechos humanos de losvarones son los derechos humanos de la humanidad y que se haya tenido queesperar a 1993, dos siglos más tarde, para que se reconociera, en Viena, quela violación de los derechos de las mujeres es un grave atentado contra losderechos humanos. Lo que viene a demostrar que la pretendida neutralidad yracionalidad del sujeto cognoscente no es tal.”
8
.
Caplan
9
também identifica a falha da pretensão de universalidade do discursoidealista da igualdade, tal como professado pela burguesia do século XVIII, apontandoque, a despeito de sua afirmação abstrata, no mundo concreto, o que se verificou foiuma paridade de condições de exercício de direitos assegurada unicamente aos homens,ocidentais, brancos e proprietários, iguais apenas entre si. Por exclusão, todos os demais passaram a ser considerados “diferentes”, estabelecendo-se divisões supostamentelegítimas em função do gênero, da etnia, da classe social, da origem geográfica ou deoutra qualidade qualquer. Desta forma, uma vez que os “iguais” (proprietários) eram osdestinatários da proteção legal, apresentava-se como natural a negação da qualidade desujeito de direito aos não proprietários, o que teria dado (falsos) ares de legitimidade àdiscriminação dos trabalhadores.As mulheres de Castro e os trabalhadores de Caplan, ambos grupos vitimizados pela discriminação, o testemunhas do encobertamento ideológico, do discursonaturalizante de premissas artificiais, referido na abertura deste ensaio
. E, tal comotantos outros grupos e classes de excluídos, revelam que a igualdade subjacente ao projeto liberal nada tem, para além da retórica, de universal: está divorciada do mundo
8
Idem.
9
CAPLAN, Luciana.
O direito humano à igualdade, o direito do trabalho e o princípio da igualdade.
Disponível em <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/18864>. Acesso: 12 mar. 2009.
10
Como Salienta Rodrigues, a “ideologia neoliberal dominante, como qualquer ideologia hegemônica emdeterminado período histórico, se apresenta enquanto ideologia da não ideologia [...] a ideologia maiseficaz é sempre a que não se mostra, a que não se expõe, senão enquanto dado naturalizado da realidade.A tudo impregna, mas, numa primeira percepção, em nada se deixa perceber”. RODRIGUES, Jorge Normando de Campos.
Magistratura e neoliberalismo
: os juízes do trabalho e a ideologia da destruição.2007, 165f. Dissertação (Mestrado em Ciências Jurídicas Sociais). Universidade Federal Fluminense. p.38. Disponível em <www.uff.br/ppgsd/Dissertacoes/normando2007.pdf>. Acesso: 13 mar. 2008.

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