Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com a das doces manhãs primaveris que procuro fruir com todas as minhas forças. Estou só e abandono-me à alegria deviver nesta região criada para as almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modomergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria existencia, que esqueci a minha arte. Nestemomento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando em torno de mim os vapores se elevam do meu vale querido, e o sol a pino procuradevassar a impenetrável penumbra da minha floresta, mas apenas alguns dos seus raios consegueminsinuar-se no fundo deste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob os arbustos, descubrorente ao chão mil diferentes espécies de plantazinhas; quando sinto mais perto do meu coração aformigar de um pequeno universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, moscardos deformas inumeráveis cuja variedade desafia o observador, e sinto a presença do Todo-Poderoso quenos criou à sua imagem, o sopro do Todo-Amante que nos sustenta e faz flutuar num mundo deternas delícias ... ; então, meu amigo, é quando o meu olhar amortece, e o mundo em redor, e o céuinfinito adormecem inteiramente na minha alma como a imagem da bem-amada; muitas vezes,então, um desejo ardente me arrebata e digo a mim mesmo: "Oh! se tu pudesses exprimir tudo isso!Se tu pudesses exalar, sequer, e fixar no papel tudo quanto palpita dentro de ti com tanto calor e plenitude, de modo que essa obra se tornasse o espelho de tua alma, como tua alma e o espelho deDeus!. . . " meu amigo! ... Este arroubamento me faz desfalecer; sucumbo sob a força dessas visõesmagníficas. Maio, 12. Não sei se os espíritos enganadores visitam estas campanhas, ou se é meu ardente coração que produz esta ilusão celestial: tudo o que me cerca parece um paraíso. Nos arredores da vilaencontra-se uma fonte para a qual, como Melusina e suas irmãs, me atrai uma espécie deenfeitiçamento. Descendo uma colinazinha, a gente estaca diante de um arco; embaixo, ao fim devinte degraus, a água brota, cristalina, de um bloco de mármore. 0 murozinho que a envolve um pouco mais no alto, as grandes árvores que lhe sombreiam os arredores, a frescura desse local, tudoisso fascina e ao mesmo tempo causa um fremito misterioso. Não há dia em que eu não repouse ali pelo menos urna hora. Vejo as moças que saem da vila para buscar água, a mais inocente e a maisnecessária das tarefas, outrora praticada pelas próprias filhas dos reis. Quando fico sentado naquelelugar, é como se em redor de mim ressurgissem os costumes patriarcais, os tempos em que osnossos ancestrais se conheciam e noivavam junto dos poços, e os genios benfazejos adejavam emtorno das fontes e nascentes. Aquele que for incapaz de sentir isto como eu jamais bebeu novasforças na água fresca de uma fonte, depois de uma penosa caminhada a pé, em pleno verão!
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