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LEÃO TOLSTÓI
ANTIARTE E REBELDIA
POR BORIS SCHNAIDERMAN
CAPÍTULO 1
ESTE LIVROEscrever um trabalho de conjunto sobre Tolstói é sempre uma temeridade.Temos de voltar continuamente à sua obra. Por mais que a leiamos, é poucopara apreender o que ela tem a nos ensinar. Existem teorias e mais teoriasque a explicam e interpretam e, por mais que nos enfronhemos nelas, aspáginas tolstoianas continuam constituindo um desafio. Se eu leio hoje umanovela ou romance de ToIstói, minha reação é diferente daquela de cinco oudez anos atrás. A veemência com que ele tratou os problemas humanosrepercute em cada um de nós, mas repercute, às vezes, de modo diferentehoje ou daqui a três anos. Freqüentemente, não se trata de uma aceitaçãopacífica. Grande parte de seu ideário, é inaceitável para um leitor como eu,mas nem por 7isto o
 pathos
que impregna a exposição dessas idéias é menosimpressionante.Ora, como proceder em relação ao conjunto? A edição mais completa desuas obras tem noventa volumes, mas acredito que ela nem exista no Brasil,pois fatores diversos tornaram, em anos recentes, bem difícil o recebimentode livros soviéticos, e, não faz muito tempo, o primeiro volume de umaedição de Obras Reunidas de Turguêniev em russo, que englobava as dadécada de 1840, importado por um livreiro especializado, em São Paulo, foidevolvido ao remetente, sob a alegação de se tratar de obra subversiva.Mas, desistindo de lidar com a edição em noventa livros, continuo tendoacesso a uma em vinte, uma em quatorze e outra em doze. O que fazer neste caso? Ler tudo de cabo a rabo? Mas, quando eu chegar ao último livro,se reler o primeiro, minha reação não será talvez a mesma. Logo, não é esteo caminho mais adequado.Depois de refletir sobre o caso, resolvi retornar à obra de ToIstói e lê-Ia comintensidade, embora apenas parcialmente. Este livro é o resultado daabordagem que empreendi, mas não faço tábula rasa de leituras em anos
 
passados e das anotações feitas então. Evidentemente, as traduções queefetuei de ToIstói, os artigos que escrevi sobre ele, acabam tendo algumpeso no meu julgamento. Mas não muito. Quanta coisa nesses textos nãome satisfaz mais e deve ser reformulada! Multiforme e riquíssima, fascinantesempre, a obra de ToIstói continua a afirmar que uma vida humana éinsuficiente para apreciá-la em toda a sua profundidade.8
 
CAPÍTULO 2
TRAJETÓRIAQuem foi este homem e o que ele realizou afinal?Por mais tradicional que seja o procedimento de iniciar um estudo de vida eobra pela biografia do autor, não consigo, neste caso específico, fugir asemelhante contingência. Vejamos, pois, resumidamente, quem foi ToIstói,como homem e artista.O conde Leão (Lev em russo) Nicoláievitch ToIstói nasceu em 28 de agosto(9 de setembro pelo calendário atual) de 1828 na propriedade paterna delásnaia Poliana (isto é, Clareira -- ou Campina -- Clara), perto de Tula. OsToIstói são uma família da velha nobreza russa e seu nome aparece comcerta freqüência nas páginas da história. A mãe de Leão era, por nascimento,princesa Volkônskaia, outra linhagem de peso.Passou a infância e meninice numa família numero-9sa, ora em lásnaia Poliana, ora em Moscou. Perdeu sua mãe antes dos doisanos e o pai aos nove, sendo criado por uma tia. Matriculou-se em 1844 naUniversidade de Kazã, onde estudou Línguas Orientais e, depois, Direito,mas que ele deixou em 1847, sem se diplomar. São igualmente de 1847 asprimeiras anotações conhecidas dos diários de ToIstói , que constituem, emconjunto, uma obra impressionante, -- sem dúvida uma das mais importantesque existem, no gênero. Ocupam quatorze dos noventa volumes de suasObras Completas. «Eles são eu» -- chegou a escrever sobre esses textos.
 
Constituíram também um meio de desenvolver a cnica de análisepsicológica em que se tornaria mestre indiscutível.Quando moço, levou freqüentemente uma vida de bebedeiras, jogatina efarras com mulheres, mas, desde as primeiras anotações nos diários e asprimeiras cartas que dele se conhecem, aparece com intensidade a máconsciência, o arrependimento atroz, que haveria de persegui-lo a vidainteira. As dívidas de jogo, as tentativas de fugir a este vício, provocam no jovem sofrimentos incríveis.Datam de 1851 os primeiros escritos criativos já numa forma que é maisambiciosa e trabalhada. No mesmo ano, transferiu-se de Moscou para oexército de ocupação no Cáucaso, então conflagrado por uma rebelião defundo religioso, mas que se transformara numa verdadeira guerra deindependência. Foi incorporado como
iúnker,
nome eno atribuído aossoldados e suboficiais de origem nobre.11
 
Escreveria oito anos depois numa carta a sua jovem tia A. A. Tolstaia:«Vivendo no Cáucaso, eu era solitário e infeliz. Comecei então a refletir,como as pessoas têm força de refletir apenas uma vez na vida, Guardo asminhas anotações de então, e, relendo-as agora, não consegui compreender como um homem podia ter chegado a semelhante grau de exaltação mental,como eu chequei. Era uma época ao mesmo tempo torturante e boa. Nunca,nem antes, nem depois, eu cheguei a semelhante altura do pensamento,nunca espiei assim
 para lá,
como naquele período, que durou dois anos. Etudo o que eu encontrei então permanecerá para sempre como a minhaconvicção.»Em 1852, ele completou a novela «Infância» e a enviou para o poeta N. A.Niekrassov, para publicão na importante revista
Sovriemiênik 
(OContemporâneo), com as iniciais L. N. O modo como a novela foi publícadarevoltou o autor estreante. Realmente, mesmo nós que estamosacostumados com a copidescagem e a titulação arbitrária de nossaimprensa, não podemos ficar indiferentes ao que fizeram com esse texto, orapor capricho de alguém na redação, ora por injunções da censura. Eleescreveu uma carta indignada a Niekrassov, que, no entanto, atenuou antesde enviar. Na primeira versão, afirmava: «O tulo
Infância
e algumaspalavras da introdução explicavam a idéia central do trabalho; já o título
História da Minha Infância
contradiz a idéia central. Quem é que tem algo aver com a história da
minha
infância...12

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