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Filosofia, conhecimento e sociedade democrática

Filosofia, conhecimento e sociedade democrática

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Published by: Damião Bezerra Oliveira on Nov 09, 2009
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FILOSOFIA, CONHECIMENTO E SOCIEDADE DEMOCRÁTICADamião Bezerra Oliveira
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Waldir Ferreira de Abreu
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1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A história da Filosofia fornece uma imagem canônica e bem instituída dessecampo de saber ou dessa forma de existência, que é a filosofia, que a coloca numarelão tensa com a sociedade
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,mormente com a que se organiza em moldesdemocráticos. Essa tensão é bem representada na clássica contraposição do pensamentofilosófico socrático-platônico e também do aristotélico com a sofística ou na distinçãoderivada que dicotomiza
episteme
e
doxa
.O núcleo desse confronto só pode ser enxergado a partir de uma discussão doque seja a racionalidade, o conhecimento e os tipos de finalidades a que devem estar ounão subordinados. Pressupõe, também, a existência de uma sociedade ampla comotopos da
doxa
, por um lado, e de uma comunidade de “sábios” destacada dessaenquanto espaço da
episteme
, por outro. O ponto de diferenciação seria o saber oumesmo o desejo espefico de conhecer que caracterizaria essa comunidade,identificando-a a um modo de vida específico.A expressão canônica dessa questão pode ser perspectivada, ainda, na clássicadivisão aristotélica, pela qual se hierarquizada a atividade humana e cognoscente em prática, poética e teorética, com as suas respectivas justificativas em termos de interesseintrínseco ou extrínseco do conhecimento.Quando a Filosofia assume-se como busca autotélica do conhecimento que teriacompromisso, fundamentalmente, com a verdade enquanto adequação do ente com o pensamento, ela se afasta da sociedade enquanto um coletivo no qual, inegavelmente,espera-se “resultados” práticos e produtivos do conhecimento em consonância a umadiversidade de situações e relações, como tão bem percebeu a sofística.Pensamos, pois, que essa questão é fundante em qualquer reflexão que relacioneFilosofia e sociedade, não apenas como um dado histórico cujo sentido se circunscreve,
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Professor de Filosofia da Educação/ UFPA. E-mail:Damião@ufpa.br Fone: (91) 3212-9959/ cel.9172-0331. Av. Engenheiro Fernando Guilhon, 2167. Bairro da Cremação. CEP. :66045200. Belém/PA.
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Professor de Didática/UFPA e aluno do curso de graduação em Filosofia nessa mesma universidade. E-mail:awaldir@ufpa.br . Cel. (91) 9121.6960.
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Hannah Arendt (1988) afirma que a compreensão de sociedade (“boa sociedade”) como um domínio queincluía apenas as pessoas com tempo para o lazer e desfrute cultural , ampliou-se com o advento dasociedade de massas em que o elemento de compartilhamento e inclusão de todos é o entretenimento.Essa seria a via pela qual se constituiria uma sociedade inclusiva.
 
em grande parte ao pensamento grego, mas especialmente enquanto uma inscrição que,de modos diversos, mantém o seu vigor contemporaneamente.Acrescente-se que a problemática supramencionada constituiu-se em íntimarelação com o importante questionamento do que é ou não possível de ensinar para oexercício da cidadania democrática, o que inclui a atividade filosófica como forma deconhecimento e modo de vida.Com base nesse quadro teórico apresentado, procurar-se-á entender de que modoa racionalidade e o existir filosófico precisariam ser pensados para atender asexpectativas de uma sociedade democrática
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.
2 O CONFLITO ENTRE FILOSOFIA E SOCIEDADE
Jean-Pierre Vernant (1989) sustentou a tese de que na Grécia Antigaestabeleceu-se uma tradição de relação extremamente ambígua da Filosofia e dofilósofo com a polis democrática
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. Ao mesmo tempo em que nesse tipo de organizaçãosocial, o debate público, o questionamento e a argumentação constituíam-se nas regrasdo jogo intelectual e político - favorecendo a racionalidade filosófica -, essa tenderia ase isolar e desqualificar a experiência comum da sociedade
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.Desse modo, uma Filosofia emblemática como a platônica, por exemplo, aoexaltar o conhecimento universal e necessário de uma realidade estável em detrimentoda opinião acerca do aparente, acaba, inevitavelmente, por apresentar argumentos quefortalecem visões não democráticas das relações sociais. Sabe-se que a democraciafunda-se nesse saber flutuante, mutável e feito de uma diversidade de opiniões sem osquais não haveria abertura da vida política ao futuro como tempo ao qual se refere àsdeliberações.Assim, o existir sócio-político não se subordinaria a uma lógica universal naqual, presente, passado e futuro fossem indiscerníveis, embora deva transcender o que éabsolutamente inapreensível. Colocar-se-ia entre a universalidade identitária e fixa e ofluxo incessante, a igual distância de uma verdade fundada no definitivo e do desesperode uma completa ausência de quaisquer consensos provisórios.
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O que se pretende defender é que a estreita conexão que a Filosofia estabelece entre virtude/ética esaber/racionalidade, ocorre igualmente com relação à sociedade e à política.
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Para Vernant, A Filosofia jamais teria resolvido satisfatoriamente essa dificuldade.
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Tal sentimento mostra-se estranho às representações comuns a respeito da Filosofia e do seu ensino noBrasil, vistos como ameaças históricas aos regimes ditatoriais e, portanto, enquanto uma poderosa armada democracia, especialmente no que concerne aos debates públicos e às decisões políticas.
2
 
Tal valorização da continncia do mundo, afirma-se contra a “onto-gnosiologia” da identidade que remonta a Parmênides e se solidifica em imagem privilegiada da filosofia na qualidade de saber que transcenderia a cosmovisão comum.A fundamentação gnosiológica do exercício de discussão e decisão dos problemassociais numa sociedade democrática não poderá ser, também, qualquer saber ouracionalidade especializada que concedam uma competência própria a grupos particulares.Tanto a racionalidade filosófica na sua busca do universal e necessário quanto ossaberes especializados na sua particularidade técnica, quando reivindicam o privilégiode serem fundamento das relações sociais ou das decisões políticas, trazem comoconseqüência o ofuscamento do vigor democrático.Daí porque se constata que apesar do questionamento da cultura mito-poéticacomum, ela continuou fornecendo inspiração à vida social da democracia inaugural
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, mesmo no auge do processo de racionalização político-social, como uma espécielinguagem pela qual se torna possível a comunicação, o debate e, conseqüentemente,alguns consensos provisórios sem os quais não haveria sociedade democrática.Pode-se dizer, portanto, que o senso comum enquanto um pressuposto dademocracia, não resultaria de um exercício reflexivo sobre o conhecimento popular queo traduziria numa linguagem filosófica, técnica ou científica. Consistiria, antes, no saber imediato e vivido, compartilhado espontaneamente, nas relações sociais. Se algumatradução tiver importância aqui, ela deverá fazer-se da linguagem onto-gnosiológica para a expressão mito-poética, como recurso próprio da filosofia, cujo exemplo paradigtico pode ser encontrado em Platão ao conceder um lugar especial àsexpressões alegóricas
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. O conflito histórico da filosofia com a sociedade democrática, explica-se,tamm, pela dicotomização ontogica da realidade em esncia e aparência,interessando ao pensamento filosófico o supra-sensível, enquanto o jogo sócio-políticoconstitui-se neste último plano, na imanência do qual se deseja encontrar as suas
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Um exemplo privilegiado do que se afirma é o “Protágoras” de Platão (1980).
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Em Platão, tal tradução possui um sentido eminentemente político-pedagógico, pois, no fundo a verdadeenquanto tal só poderá ser realmente experimentada no plano da intuição noética, apreensão própria doexercício filosófico e condição de possibilidade para que o discurso não seja um mero jogo com as palavras, vício atribuído em tom de recriminação à sofística. Com relação à linguagem técnica ecientífica, pode-se defender igualmente, ainda hoje, a necessidade de tradução ou mesmo transposiçãodidático-pedagógica como exigência para que se cumpram certos objetivos de uma educação geral.
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