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A chegada do conceito de gênero ao Brasil.

A chegada do conceito de gênero ao Brasil.

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ZIRBEL, Ilze. Estudos Feministas e Estudos de Gênero no Brasil. Um debate. Dissertação demestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC, Florianópolis, 2007.Capítulos 5, pp.129-152.
5. Os Estudos de Gênero
O trabalho de acadêmicas feministas durante as décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos ena Europa se fixou, em parte, na investigação das causas da sujeição feminina. Para tanto, as pesquisadoras se utilizaram de material oriundo da Antropologia, da Psicanálise e ligados às teoriasmarxistas para entender aspectos dessa sujeição e elaborar novas teorias.A Antropologia serviu como fonte de informação sobre as experiências e representaçõesfemininas em contextos sociais, políticos e econômicos diversos
1
. As descobertas antropológicasindicavam dois pontos conflitantes entre si: o relativismo das construções sociais (homens e mulherescom diferentes comportamentos em épocas e locais distintos) e a tendência à universalidade dadominação e subordinação das mulheres (Segato, 1998, p. 6).Feministas marxistas e feministas socialistas não acreditavam na opressão das mulheres comoum fenômeno universal mas como consequência da implantação da propriedade privada. No entanto,antropólogas feministas ligadas ao estruturalismo, aproximaram-se do simbolismo presente na psicanálise lacaniana
2
e identificaram a desigualdade entre homens e mulheres como resultado de umaorganização social, psicológica e cultural baseada em uma divisão dualista do mundo (machos efêmeas, cultura e natureza, corpo e alma, espaço público e espaço privado, noite e dia, etc.)
3
.
1Exemplo dessa “antropologia feminista” são os livros de Michèle Zimbalist Rosaldo e Louise Lamphere (org.),
Woman,Culture and Society
(Stanford: Stanford University Press, 1974) e de Rayna R. Reiter (ed.),
Toward and Anthropology of Women
(New York: Monthly Review Press, 1975).2O Estruturalismo é uma teoria e um método que “analisa sistemas em grande escala examinando as relações e as funçõesdos elementos que constituem tais sistemas, que são inúmeros, variando das línguas humanas e das práticas culturais.”De um modo geral, “o estruturalismo procura explorar as inter-relações (as “estruturas”) através das quais o significadoé produzido dentro de uma cultura” (Cf. Schieling, 2006b, s.p). Lacan trouxe o conceito de estrutura para o interior dateoria psicanalítica e empreendeu uma leitura estruturalista do pensamento freudiano. Nessa aproximação, a dimensãodo simbólico é identificada como um dos elementos de maior relevância na definição da estrutura. O inconsciente seriaestruturado como uma linguagem. “O simbólico se diferencia da dimensão do real e do imaginário, pois se articuladiretamente com o registro da linguagem” (Fortes, 2006, p. 200). Lacan apresenta a dimensão do simbólico em 1953 a partir de dois textos: a conferência sobre “O simbólico, o imaginário e o real” e o texto “Função e campo da fala e dalinguagem na psicanálise”.3Tal perspectiva está presente no artigo de Sherry Ortner, “Is Female to Male as Nature is to Culture?”, publicado na
 
Segundo Stolke (2004, p. 83),
[...] estas antropólogas situaban la opresión de las mujeres en la cultura y en la estruc-tura social. [...] A pesar de sus mejores intenciones culturalistas, en última instanciaatribuían la subordinación de las mujeres al “hecho” biológico de su papel específicoen la procreación. Las mujeres se encontraban confinadas invariablemente al ámbitosocial de menor valor social al interior de unas jerarquías universales entre las esferas pública y doméstica, entre la cultura y la naturaleza o entre la producción a la repro-ducción.
 Nas universidades, as feministas acadêmicas se debatiam com elaborações teóricas ancoradasem uma lógica binária do mundo que definiam as mulheres como mais próximas da natureza, dareprodução, da passividade e do irracional (em oposição à cultura, ao trabalho produtivo, à açãotransformadora e à razão). Esta lógica operava com uma ideia de oposição entre natureza e cultura que,segundo Donna Haraway (2004, p. 217), “era parte de uma vasta reformulação liberal das ciências davida e das ciências sociais no desmentido do s-guerra, feito pelas elites governamentais e profissionais do ocidente, das exibições de racismo biológico de antes da Segunda Guerra”. Estediscurso servia aos propósitos colonialistas de países ocidentais e “estruturava o mundo como objeto doconhecimento em termos da apropriação, pela cultura, dos recursos da natureza”.Segundo a visão binária do mundo, a causa da opressão das mulheres estava nelas mesmas,inscrita na sua “natureza”, na anatomia do corpo. O aparelho reprodutor feminino definia o destino dasfêmeas da espécie, moldando suas mentes e seu lugar na estrutura familiar, na política, no mundo dotrabalho, na religião, no campo intelectual, em todas as esferas da sociedade.As feministas acadêmicas não aceitaram o determinismo bio-sexual das explicações correntessobre a situação de inferioridade das mulheres nas mais diversas sociedades. Em contrapartida, pontuaram a existência de um complexo emaranhado de relações políticas e sociais que legitimavam o poder do homem sobre a mulher.Para Haraway (2004, p. 218), as feministas se empenharam no campo político e epistemológico“para remover as mulheres da categoria da natureza e colocá-las na cultura como sujeitos sociais nahistória, construídas e auto-construtoras”. Nesse processo, os aspectos biológicos e a diferença sexualforam deixados deliberadamente de lado. O
determinismo biológico
foi combatido e assumiu-se oargumento da
construção social dos indivíduos.
Fraisse (2001), Stolke (2004) e Haraway (2004) observam que, dentro desta lógica dualista, um
coletânea de Rosaldo e Lamphere (1974) citada acima.
 
novo par de categorias havia sido inserido nos estudos da classe médica estadunidense durante a décadade 1950, o par sexo-gênero. Stolke (2004, p. 84-85) observa que a Psicologia, a Medicina e a Sexologiase utilizaram do termo gênero para distinguir as posturas adotadas pelos indivíduos (identificados comomasculinos e femininos) do sexo anatômico. A medida facilitaria as dificuldades conceituais eterminológicas provocadas pela forma de ser e agir de transexuais, travestis e pessoas cujo sexo biológico era considerado ambíguo (como os/as hermafroditas) ou que tinham como objeto de desejo pessoas do mesmo sexo
4
.A francesa Geneviève Fraisse (2001) observa que na língua inglesa a palavra
 sex
tem umsentido mais limitado do que o equivalente em francês (
 sexe
) e em alemão (
Geschlecht 
). Enquanto
 sex
remete ao biológico/físico,
 sexe
e
Geschlecht 
designam a escie humana e as difereasempíricas/abstratas entre homens e mulheres (psicológicas, sociais ou culturais) além das físicas
5
.Diante da “falta de um instrumento adequado para expressar a reflexão sobre os sexos, o pensar dois em um” (Fraisse, 2001), o termo
Gender 
foi utilizada nos Estados Unidos para referenciar osaspectos não biológicos de cada sexo. Transformado em conceito teórico,
Gender 
auxiliava no processode formalização das idéias presentes no âmbito acadêmico sobre o papel da cultura e da sociedade nasatitudes e comportamentos de homens e mulheres.Assim, um projeto de pesquisa sobre
identidade de gênero
foi iniciado junto ao Centro Médico para o Estudo de Intersexuais e Transexuais da Universidade da Califórnia, Los Angeles, o
CaliforniaGender Identity Center,
no ano de 1958. Em 1963, o psicanalista Robert Stoller apresentou parte das pesquisas daquele centro médico e a nova terminologia (Identidade de Gênero) no Congresso dePsicanálise de Estocolmo. Em 1964 publicava o artigo “A Contribution to the Study of Gender Identity”
 
no
International Journal of Psychoanalysis
(n. 45) e em 1968 o primeiro volume de
Sex and Gender 
.
Sex and Gender 
tratava da temática dos corpos cuja genitália não era compatível com as duas
4O tema ganhou evidência após a cirurgia de mudança de sexo de George Jorgensen, ex-soldado estadunidense, em umaclínica de Copenhague, no ano de 1952. George voltou aos EUA como Christine Jorgentein. Sua história foi bastantedivulgada pela mídia e motivou o estabelecimento de clínicas de “gênero” (Stolker, 2004, p. 84). Segundo Haraway(2004, p. 216-217), estas clínicas forneceram o suporte para pesquisas como a do psico-endocrinologista John Moneyque, juntamente com Anke Ehrhardt (ambos ligados à Clínica de Identidade de Gênero da Faculdade de Medicina daUniversidade Johns Hopkins), “desenvolveu e popularizou a versão interacionista do paradigma de identidade de gênerona qual a mistura funcionalista de causas biológicas e sociais dava lugar a uma miríade de programas terapêuticos e de pesquisa sobre as 'diferenças de sexo/gênero' – o que incluía cirurgia, aconselhamento, pedagogia, serviço social, e assim por diante”. O livro de Money e Ehrhardt,
Man and Woman, Boy and Girl 
(New York: New American Library, 1972),tornou-se um manual amplamente utilizado nas escolas secundárias e nas universidades dos Estados Unidos a partir dosanos setenta.
 
5Em francês,
difference
 
 sexual 
remete à realidade material do humano e
différence des sexes
inclui os aspectos abstratosda espécie. Em alemão, a palavra
Geschlecht 
é usada para descrever ambas as realidades (cf. Fraisse, 2001).

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identidades sexuais são construções sociais e não biologicas
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