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OSSO JARDIM EM TOLEDOJaner Cristaldo
 Leitores vadios e sem método, encontramos às vezes autores insólitos na História daLiteratura, que fogem não só a todas as regras de construção de uma obra literária, comotambém àquele comportamento cordato que se espera de um humanista. Swift terá sidoum destes. Octave Mirbeau é outro. (Villiers de L’Isle-Adam tampouco poderia ser deixado de lado). Se Swift, homem do século XVII, tem hoje considerável fortunaliterária, o mesmo não ocorre com Mirbeau, que morreu nos albores do século passado.Politicamente incorreto
avant la lettre
, este escritor singular caiu em um purgatório deoblívio, de onde vem sendo recentemente resgatado, graças ao trabalho persistente deleitores devotados. Entre estes, cabe salientar o trabalho notável do professor PierreMichel. Caçador implacável de toda e qualquer referência ao autor, este professor deAngers e fundador da Société Octave Mirbeau, operou o milagre de encontrar, em umesquecido romance de minha autoria, referências ao autor de
O Jardim dos Suplícios
.Através de Buñuel, mais precisamente de
Journal d’une femme de chambre
, algumanotícia eu já tinha de Mirbeau. Ali já temos a marca registrada do autor, onde, em meioa uma atmosfera decadente, uma criada de quarto se submete aos fetiches de um patrãoe acaba casando com um criado pedófilo e assassino, ingredientes bem ao gosto docineasta espanhol. Mas a leitura que me causou marca profunda foi a de
O Jardim dosSuplícios
. De suas páginas, escrevi na época, evola um odor lúgubre de flores podres.O personagem central da obra é sem dúvida alguma Miss Clara, cidadã inglesa herdeirade uma fortuna deixada por seu pai, mercador de ópio em Cantão. Clara só encontra prazer na contemplação da tortura e da morte. O autor nos conduz a um presídio emCantão, onde um carrasco louva a antiga arte chinesa da tortura e deplora a decadênciado Ocidente, que perdeu este requinte:- A arte,
milady
, consiste em saber matar segundo ritos de beleza que nós, chineses,somos os únicos a conhecer o segredo divino. Saber matar! Nada é mais raro, e tudoreside nisso. Saber matar! Significa trabalhar a carne humana como um escultor a argilaou um bocado de marfim... Obter o máximo, todas as capacidades de sofrimento que elaencerra no fundo de suas trevas e mistérios... É preciso ciência, variedade, elegância,imaginação... Enfim, gênio!O suplício do rato: um rato faminto que era posto em um vaso com um pequeno orifício,fixado às nádegas de um condenado. Com um ferro em brasa assustava-se o rato paraque buscasse uma saída e o animal acaba por encontrá-la, abrindo passagem com unhase dentes. O suplício do sino: em meio a um jardim paradisíaco, ornado de pavões,faisões, galos da Malásia, um sino imenso sob o qual era atado um homem, até morrer com suas vibrações.O verdugo-esteta concluía que o esnobismo ocidental, com seus couraçados, canhões detiro rápido e explosivos tornavam a morte coletiva, administrativa, burocrática... Enfim,todas as sujeiras do vosso progresso destroem, pouco a pouco, as nossas belas tradições
 
do passado”. Ao passear pelo jardim dos suplícios, Clara manifesta a seu interlocutor seu fascínio pelo Oriente.- Vês, meu amor, como os chineses são artistas maravilhosos e como eles sabem tornar a natureza cúmplice dos seus requintes de crueldade!... Na nossa sinistra Europa, que hátanto ignora o que é a beleza, tortura-se secretamente no fundo das prisões, ou nas praças públicas, entre uma multidão de ébrios ignóbeis... Aqui é no meio das flores quese erguem os instrumentos de tortura e morte... os cadafalsos, as forcas e as cruzes...Vais já vê-las, tão intimamente ligadas aos esplendores desta orgia floral, às harmoniasdesta natureza única e mágica, que parecem fazer parte dela, ser as flores miraculosasdesta terra e desta luz...É intrigante ouvir esta declaração, ainda que pela boca de um personagem, na obra deum escritor tão vigorosamente anticlerical – vide
L’Abbé Jules
– como Mirbeau. Poisesta hipocrisia nem sempre existiu na Europa, onde a Igreja, durante séculos, nuncaescondeu que torturava. Neste sentido, a Inquisição foi de uma honestidade a toda prova. O jardim dos suplícios, Mirbeau não precisava buscá-lo no Oriente. Saber fazer sofrer é arte também nossa.Em 1376, o inquisidor dominicano Nicolau Eymerich elaborou o
DirectoriumInquisitorum
(Manual dos Inquisidores), um verdadeiro tratado de regulamentação datortura, complementado mais tarde – 1585 – por outro dominicano, o canonistaespanhol Francisco de la Peña. Deste trabalho conjunto resultou uma obra minuciosa,com 744 páginas de texto e mais 240 outras de apêndices. A obra é insólita no sentidoem que nenhuma nação no mundo ousou assumir a tortura como prática legal e perfeitamente justificável. A Inquisição ousou. Durante vários séculos, a partir do XIV,a tortura foi um instrumento legítimo de investigação.A tortura era aplicada quando o crime, apesar das provas, era considerado provável, masnão certo. Mesmo as testemunhas podiam ser torturadas, caso se contradissessem.Podiam ser torturadas tanto meninas de 13 anos como mulheres de 80. Como a torturasomente podia ser infligida uma vez, os inquisidores – criteriosos cumpridores do rigor da lei – criaram o subterfúgio do “adiamento” da sessão, para que a tortura pudesse ter  prosseguimento posterior. A privação de herança se prolongava até a terceira geração docondenado. E se o acusado escapava pela fuga à Inquisição, ou morria antes de ser  julgado, era executado em efígie, isto é, tinha sua imagem queimada. Ou seja, nem amorte salvava o infeliz da fogueira.Vamos às fontes, ou seja, ao
Directorium Inquisitorum
:
TORTURA-SE o Acusado, com o fim de o fazer confessar seus próprios crimes. Eis asregras que devem ser seguidas para poder ordenar-se a tortura. Manda-se para atortura:1. Um acusado que varia as suas respostas, negando o fato principal.2. Aquele que, tendo tido reputação de herege, e estando já provada a difamação, tenhacontra si uma testemunha (mesmo que seja a única) a afirmar que o viu dizer ou fazer algo contra a fé; com efeito, a partir daí, um testemunho somado à anterior máreputação do Acusado são já meia-prova e índice bastante para ordenar a tortura.3. Se não se apresentar qualquer Testemunha, mas se à difamação se juntarem outros fortes indícios ou mesmo um só, deverá proceder-se também à tortura.
 
4. Se não houver difamação de heresia, mas se houver uma Testemunha que diga ter visto ou ouvido fazer ou dizer algo contra a Fé, ou se aparecerem quaisquer fortesindícios, um ou vários, é o bastante para se proceder à tortura.Segue-se a fórmula da sentença de tortura: “ós, F… Inquisidor, etc, considerandocom atenção o processo contra ti instruído, vendo que varias as tuas respostas e que hácontra ti provas suficientes, com o fim de tirar da tua boca toda a verdade, e para quenão canses mais os ouvidos dos teus juízes, julgamos, declaramos e decidimos que nodia tal… à hora tal… sejas submetido à tortura.”
 Longas são as digressões de Eymerich sobre a tortura. Me permito mais algumas:
 Lida a sentença da Tortura, e enquanto os Carrascos se preparam para a execução,convém que o Inquisidor e outras pessoas de bem façam novas tentativas para levaremo acusado a confessar a verdade. Os Verdugos procederão ao despimento do criminosocom certa turbação, precipitação e tristeza para que assim ele se atemorize; já depoisde estar despido, leve-se de parte e seja exortado novamente a confessar. Prometa-se-lhe a vida, sob essa condição, a menos que ele seja relapso, pois neste caso não se pode prometer-lha.Se tudo isso for inútil conduzir-se-á à tortura, durante a qual será submetido ainterrogatório, em primeiro lugar referente aos artigos menos graves em que seja suspeito, pois que ele confessará as faltas leves de preferência às mais graves. o casode ele se obstinar sempre a negar, pôr-se-lhe-ão frente aos olhos instrumentos deoutros suplícios e dir-se-lhe-á que vai passar por todos eles, a não ser que confessetoda a verdade.Se enfim o Acusado nada confessar, pode continuar-se a tortura um segundo dia e umterceiro, mas com a condição de seguir os tormentos por ordem e nunca repetir os já praticados, não podendo ser repetidos enquanto não sobrevierem novas provas,embora não seja proibido neste caso o continuar por ordem.Se o Acusado tiver suportado a tortura sem nada confessar, deve o Inquisidor pô-lo emliberdade mediante sentença na qual constará que após um cuidadoso exame do seu processo, nada se encontrou de legitimamente provado contra ele, no respeitante aocrime de que havia sido acusado.
 Ou seja, se o coitado nada confessou ou não tinha mesmo o que confessar e nada haviacontra ele, é solto e fica tudo por isso mesmo. Segundo o inquisidor Bernard de Gui, “oInquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade religiosa, pelasalvação das almas e pela extirpação das heresias”. Em 1634, em Loudun, osInquisidores torturaram com diligência – e até mesmo com amor – Urban Grandier,antes de jogá-lo à fogueira. O exorcista jesuíta Jean-Joseph Surin muito sofreu por nãoter extraído de Grandier um “Abjuro”, o que pelo menos teria salvado sua alma. Porqueo corpo, este estava mesmo condenado às chamas. A diligência e o fervor dosInquisidores foi tanta, que mandaram inclusive uma virgem de 19 anos para fogueira,em 1431, em Rouen, França. Chamava-se Joana d’Arc e hoje é santa da mesma Igrejaque a queimou. Nem sempre – como pretende Clara – torturou-se secretamente no fundo das prisões.Em verdade, Mirbeau não necessitaria transportar seus personagens para o Oriente parafazer a louvação da tortura. Tive esta percepção nos anos 80, quando visitei em Toledouma exposição itinerante, intitulada “Instrumentos de Tortura desde la Edad Media a laÉpoca Industrial”. O acervo do museu nada ficava a dever ao jardim de Mirbeau.

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