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Revista de Estudos da ReligiãoNº 4 / 2001 / pp. 46-60ISSN 1677-1222
A renovação Popularizadora Católica
André Ricardo de Souza 
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[andsouza@usp.br] 
Nos anos 1990 a Igreja Católica reconheceu dois fatos bastante negativos para ela: aexplosão neopentecostal (Mariano, 1999) e o afastamento de seus fiéis. Cresceraflagrantemente a quantidade de católicos tidos como não praticantes, aqueles que nãofreqüentam os ritos e sacramentos e tão pouco seguem os preceitos religiosos na vidacotidiana. Na verdade, nunca foi grande a quantidade de católicos que têm a religião comoalgo internalizado, participando de grupos pastorais e movimentos dentro da igreja. Umlevantamento feito a serviço da igreja pelo CERIS (Centro de Estatística Religiosa eInvestigações Sociais) na Arquidiocese de São Paulo, a maior do país, mostrou que entre1989 e 1996 o número de matrimônios caiu pela metade e o de adolescentes queobtiveram o sacramento da crisma (confirmação) foi inferior a um terço da quantidade decrianças batizadas, o que evidencia a evasão religiosa (
O Estado de S. Paulo,
14/03/98).Outras dioceses brasileiras também constataram esta redução na procura dossacramentos. Além disso, é cada vez mais explícita a defasagem entre a doutrina da igrejae a conduta da população calica, sobretudo no que diz respeito à queso dosanticoncepcionais e correlatos do uso de camisinha como meio de prevenção à Aids.Uma vez reconhecida a crise, a Igreja Católica passou a debater explicitamente as formasde manutenção de sua soberania no cenário religioso e de recuperação da influência moralna sociedade. Antes, os debates se voltavam quase que exclusivamente para a crítica aogoverno, sempre num posicionamento político de esquerda. Mas isto vem mudando. Emagosto de 1995 o Seminário da Pontifícia Comissão para a América Latina, realizado emPetrópolis, Rio de Janeiro, discutiu uma "ação evangelizadora da família diante do desafiodas seitas". Aconselhado por estudiosos da religião, o episcopado católico passou a nãomais designar as denominações evangélicas como seitas. Isso se deu praticamente a partirda 2ª Conferência Geral da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina
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Mestre e doutorando em Sociologia na Universidade de São Paulo.
www.pucsp.br/rever/rv4_2001/p_souza.pdf 46
 
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(Cehila) e da 17ª Assembléia da Conferência dos Religiosos do Brasil, ambas ocorridas em julho de 1995. Em dezembro de 1996 foi lançado o Projeto "Rumo ao Novo Milênio", umdocumento que aponta claramente o objetivo de aumentar o mero de calicospraticantes, ressaltando que a adesão religiosa não é mais uma mera herança familiar,dadas as possibilidades de fé ao alcance das pessoas. Passou-se a escrever e falar sobre
inculturação 
, um termo que designa a estratégia da igreja de assimilar práticas e símbolosprofanos, sobretudo da vida urbana, a seu enredo religioso.A Igreja Universal do Reino de Deus, de abominável passou a admirável, em determinadosaspectos. Alguns padres freqüentaram templos dessa igreja e detectaram aspectosconsiderados positivos, portanto passíveis de ser incorporados. O padre Antônio CarlosFrizzo, então subsecretário regional da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil),após tais visitas, concluiu que a igreja deveria recuperar alguns rituais de sua tradição parasatisfazer o mesmo público que procura a Igreja Universal, referindo-se às antigas bênçãosdas velas, das mulheres grávidas e de São Brás, para a dor de garganta, por exemplo(
Jornal do Brasil 
, 18/02/1996). Crescia a adesão à proposta de uma liturgia festiva, delinguagem simples e, portanto, mais facilmente compreensível pelas camadas populares.De modo difuso e fragmentado, a Igreja Católica procurava aprender com a concorrenteevangélica. Práticas mágicas, de grande penetração na população brasileira, passaram aser reintroduzidas ou revalorizadas pelo catolicismo dos clérigos, até mesmo pelocatolicismo oficial.O uso de certas armas do inimigo passou a ser explícito depois que a guerra contra ele foideclarada. Em outros termos, a partir do episódio do "chute na santa", em 1995, a IgrejaCatólica assumiu efetivamente a disputa por fiéis com a Igreja Universal do Reino de Deus.Aquele foi o estopim de um confronto indisfarçável. Nenhuma outra religião havia desafiadoa Igreja Católica como o neopentecostalismo liderado por Edir Macedo. Isso teve deimediato duas conseqüências relevantes: a unificão do comando episcopal e aindignação de católicos antes indiferentes à crise da igreja. Ao assumir o confronto com aUniversal do Reino de Deus, a Igreja Católica apresentou-se como defensora da moral edos bons costumes da sociedade brasileira e para isso contou com a força nada modesta
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da Rede Globo de Televisão, interessada evidentemente em fazer frente a sua concorrenteneopentecostal, a Rede Record.Em outubro de 1997 João Paulo II veio ao Brasil pela terceira vez. Celebrou uma grandemissa no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, com a presença de cerca de dois milhões depessoas e a cobertura de grandes emissoras de TV, sobretudo da Rede Globo. A cidadefoi preparada cuidadosamente para receber o pontífice, tudo sob o comando do arcebispoDom Eugênio Sales. Em resposta, a Igreja Universal do Reino de Deus protestou contra aisenção de impostos concedida às empresas que patrocinaram a visita do papa, conformea Lei de Incentivo à Cultura. A Universal cobrou um ressarcimento aos cofres públicos desupostos prejuízos causados pelos benefícios fiscais concedidos, argumentando inclusivea ilegalidade da reforma das igrejas constantes da rota de passagem do papa, paga pelaPrefeitura do Rio de Janeiro. Aliás, nessa cidade, que é seu berço natal, a Igreja Universalviria a construir seu maior templo, no bairro suburbano Del Castilho, numa área de 54 milmetros quadrados, com capacidade para 11 mil pessoas
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.Como se pode ver, tem havido ataques e contra-ataques nesse confronto armado nocenário religioso brasileiro. Para isso a Igreja Católica conta com a arraigada devoção aossantos, principalmente à Virgem Maria (Beinert, 1980). O culto mariano é forte e visível,sobretudo nas romarias aos santuários dedicados a ela, dentro e fora do país, nos nomesde cidades, bairros, fazendas, lojas comerciais e também nos vidros dos carros quecirculam pelas cidades brasileiras. Tem sido comum encontrar adesivos de carro com asimagens de Maria, com destaque para Nossa Senhora de Medjugorje, conhecida como aRainha da Paz. A estampa começou a ser distribuída pela organização Servos da Rainha,de Brasília, voltada para a divulgão das aparões que estariam ocorrendo emMedjugorge, na Bósnia e Herzegovina, desde de junho de 1981
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. Outra versão estrangeirada Virgem, bastante popular no Brasil, é Nossa Senhora de Fátima, cuja imagem vez ououtra é trazida de Portugal para ser venerada em estádios de futebol e ginásios de esporte.Aliás, o próprio João Paulo II é um exemplo de devoto à Nossa Senhora, a quem ele atribui
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Um acontecimento curioso nesta disputa religiosa foi o fato de um prédio que antes era ocupado por umaparóquia católica ter sido alugado pela empresa, sua proprietária, para a Igreja Universal do Reino de Deusinstalar um templo (
Folha de S. Paulo 
, 27/11/1997).
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A estampa de Nossa Senhora da Rosa Mística, também recente, já se propagou pelo país.
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