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Fabio Alves Ferreira, Religião e Movimentos Sociais

Fabio Alves Ferreira, Religião e Movimentos Sociais

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06/21/2010

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 1
Fábio Alves Ferreira
1
 Universidade Federal Rural de PernambucoContestado e MST: semelhanças e continuidade
2
 
Este trabalho explicita paralelos entre dois movimentos camponeses da história do Brasil: oContestado e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em nossaperspectiva, há uma aproximação entre os dois movimentos. Pois, possuem a mesma base dereivindicação: o primeiro através do estabelecimento da monarquia religiosa e o outro,atualmente agindo através de setores mais abrangentes (mídia, ocupação de massa, em âmbito jurídico, educação, teatro, políticas de gênero, questões ambientais, dentre outros).Entendemos que o atual MST, articula em linguagem religiosa os seus propósitos políticos.Assim, retoma movimentos antecedentes, dentre esses, o Contestado, fazendo uso dessecapital cultural para colocar-se num privilegiado lugar de continuidade histórica. Essaestratégia junta à personalidade dos militantes um acervo de informação que engendrasistemas simbólicos, nos quais os adeptos, mesmo procedentes de grupos sociais e religiososdiferenciados, passam a compartilhar de uma mesma linguagem militante. Essa linguagemfavorece a construção de representações, comuns entre os mesmos, que embasa e revigora areivindicação do MST.
Palavras chaves:
MST, Contestado, símbolos religiosos.No decorrer desse texto apresentaremos pontos semelhantes que aproximam oMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Contestado. Em nossaperspectiva, há uma aproximação entre os dois movimentos. Pois, possuem a mesma base dereivindicação: o Contestado por meio do estabelecimento da monarquia religiosa e o MST,atualmente agindo através de setores mais abrangentes - mídia, ocupação de massa, emâmbito jurídico, educação, teatro, políticas de gênero, questões ambientais, dentre outros -.Percebe-se explicitamente que concepções religiosas fundamentaram as reivindicações destesmovimentos cujas intenções permeavam, e ainda permeia, a questão da posse da terra.Destacamos a hipótese de que o MST em seu discurso procura aproximações com oContestado e com esse método hermenêutico procura se apresentar como herdeiroprivilegiado dessa luta que julga histórica e justa. Além disto, o MST assume caráter religiosoem diversos de seus atos como fato agregador da força militante. Isso ocorre principalmenteao se colocar como movimento instaurador de uma ordem semelhante à pregada pela Bíblia.Nesse caso, o MST cria uma afinidade com os movimentos religiosos de raiz cristã de tipopentecostal ou católico romano popular, tal como os movimentos camponeses anteriorestambém o fizeram.
1
O autor é estudante do curso de Bel. em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco. E-mail:fabio_a1@yahoo.com.br.
2
Trabalho apresentado na 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 e 04 de junho,Porto Seguro, Bahia, Brasil.
 
 2Para discorrer sobre religião e sua função nos movimentos sociais, devemos emprimeiro lugar definir o pólo “religião”. Partimos de Clifford Geertz, que entende religiãocomo uma estrutura de significado por meio da qual o ser humano dá forma às suasexperiências.
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Assim, religião constitui-se numa lente utilizada pelo ser humano através daqual se interpreta o mundo e se concebe a sua inserção nele.No que se refere ao papel da religião na legitimação ou deslegitimação de qualquermovimento social, seja ele reacionário ou contestatório da ordem política e socialhegemônica, concordamos com Shepard Forman que a religião se desenvolveu numa duplafaceta. Na medida em que ora ela se alia à estrutura de poder e consolida o seu discurso,funcionando dessa maneira como ópio; ora ela é usada como mecanismo de motivação paraprotestos sociais que exigem mudança das estruturas.
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Dessa maneira, no Brasil, que não raroteve sua história marcada pela insurreição de movimentos camponeses, a religião sempreocupou um significativo espaço na formação de ideologia e consolidação de protestos.Houve na história do Brasil vários movimentos religiosos de cunho messiânico emilenarista, que direcionaram as esperanças de seus membros para a posse livre da terra pelo
 povo
 
 prometido
. Dentre esses, destacamos os Muckers (1866-1874), Canudos (1893-1897) e oContestado (1912-1916). Outra importante categoria necessária para entendimento dosmovimentos messiânicos foi as condições sociais nas quais houve levantes de movimentosreligiosos. A formação social das regiões se colocava como elemento salutar na formação doimaginário messiânico.Lísias Nogueira Negrão definiu “movimento messiânico” como a crença em umsalvador que instaurará uma nova ordem de justiça, contrastando com a ordem posta que évista como iníqua e opressora.
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Assim, Negrão, quando fala em movimento messiânico,refere-se à atuação coletiva de um povo ou um grupo social em particular, que expresse oanseio de mudança social, conduzidos por valores religiosos. Maria Isaura Pereira de Queiroztambém desenvolve conceito semelhante. Com mais detalhes, ela estabelece as diferençasentre os termos “messias” e “messianismo”. O messias, na perspectiva de Queiroz, é aqueleem quem está projetado as expectativas de um grupo sobre o rompimento da ordem posta evontade de instaurar uma era de felicidade terrestre. A crença no surgimento de umapersonalidade dotada de tais características, se constitui o termo messianismo. Entretanto,Querioz observou que há crenças messiânicas que não se concretizam como movimentos.
3
GEERTZ, Clifford.
 A interpretação das culturas
. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1989, p. 67.
4
FORMAN, Shepard.
Camponeses: sua participação no Brasil
. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 269.
5
NEGRÃO, Lísias Nogueira.
 Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando o seu futuro
. Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v16n46/a06v1646.pdf , acesso em: 10 jan. 2007.
 
 3Dessa maneira, caberia outra definição para o termo. Assim, mais precisamente, messianismoé definido como os anseios de um povo numa fase de “espera messiânica”.
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 Há uma profunda semelhança entre as condiçoes que favoreceram o aparecimento doMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na contemporaneidade e oajuntamento de caboclos em redutos, em Santa Catarina, no começo do século XX. Aquelescamponeses também direcionaram suas reivindicações para a posse da terra e encontrou, nodiscurso emocional-religioso, o fio condutor que expressava suas necessidades. Portanto,conhecer os protagonistas dos movimentos que marcaram e tem marcado a históriacamponesa do Brasil faz-se necessário, principalmente ao percebermos que a força propulsoraestá no locus do sagrado e na manipulação dos símbolos religiosos.
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 O MST é um movimento laico com expressão religiosa. Os seus rituais, embora sejamcompostos de elementos religiosos, constituem uma estratégia para legitimar-se diante dopovo.
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Os dirigentes do MST adotam como método pedagógico, nas assembléias, ocupações,reuniões com os militantes, o potencial que os cânticos possuem de criar imagens erepresentações, que veiculam a personalidade militante como uma energia poderosa paraconsolidação do protesto. A ideologia do movimento está sempre presente nas letras,afirmando os problemas existenciais que acometem a “massa” que se sente atingida por umsistema político e econômico que sustenta a desigualdade da vida social.
9
O próprio JoãoPedro Stédile afirma que o termo
massa
se constitui numa estratégia de organização domovimento no imaginário militante, pois ele confere à multidão o sentido de unidade decausa, superando as barreiras do individualismo.
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Bem como o discurso religioso é umaferramenta ideológica para conservação do capital humano nos processos de resistência aolatifúndio.A religião está presente desde a gênese do Movimento dosTrabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A origem deste movimentoestá intimamente ligada às comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e à
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QUEIROZ, Maria Isaura Pereira.
O messianismo no Brasil e no Mundo
. 2º ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1977,p. 46.
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ALCÂNTARA, Maria de Lourdes Beldi de; JUSTUS, Marcelo.
O movimento dos sem terra: uma análise dodiscurso religioso
. Ver eletrônica: Imaginário, USP. São Paulo, 2º semestre de 2006. disponível em:http://www.imaginario.com.br/artigo/a0061_a0090/a0064.shtml, acesso em 15 dez. 2006.
8
ARRUDA, Roldão. MST promove saques, invasões e fecha estradas em nove Estados.
O Estado de São Paulo
,São Paulo, 18 de abril, 2006, caderno A, p.4.
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Para Maria de Lourdes Beldi de Alcântara e Marcelo Justos, há uma ênfase na organização de que deve ser um"movimento de massa", tanto que o setor responsável pela organização das ocupações é chamado de Frente deMassas. Isso sugere que o movimento pretende transcender as dimensões individuais de protesto e assumir-seenquanto movimento comunitário e corporativo.
O movimento dos Sem-Terra: uma analise do discursoreligioso
. Disponível em:http://www.imaginario.com.br/artigo/a0061_a0090/a0064.shtml, acesso em: 15 dez.2006.
10
STEDILE, João Pedro; FERNANDES, Bernardo Mançano.
 Brava Gente: a trajetória do MST e a luta pelaterra no Brasil
. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 115.

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