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I ENCONTRO MEMORIAL DO ICHSUNIVERSIDADE FEDRAL DE OURO PRETOINSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAISDÉLIA RIBEIRO LEITE11 DE NOVEMBRO DE 2004
O POPULAR NA OBRA DEOSWALD DE ANDRADE
1- O POPULAR 
A palavra popular vem do latim
 populare
e etimologicamente significa “de oudo próprio povo”. A significação se estende a outros conceitos como: “feito para o povo, agradável ao povo, democrático”, até chegar em: “vulgar, trivial, ordinário, plebeu”.Há uma diferença, no entanto, entre o conceito de popular e a representaçãodeste em obras artísticas, e, particularmente, literárias. Isto porque as representações podem retratar o povo, sem, no entanto, atingi-lo. Dessa forma, pensar neste conceitoem uma obra literária não significa simplesmente encontrar as representações de umacultura popular, mas também entender as relões entre estas manifestões e osindivíduos que elas representam.O Modernismo foi importante neste sentido porque buscava retratar asmanifestações populares de forma verdadeira, e não mistificada. Buscava, assim,reforçar a identidade brasileira. O problema, no entanto, está em se estabelecer até que ponto estas representações influenciaram não só a cultura dominante brasileira- já queiam contra as manifestações até então vigentes; mas também a cultura popular- que,então, se inseriu verdadeiramente nas artes nacionais. Isto porque a arte queintegrasse estas duas culturas poderia representar o Brasil, na visão dos modernistas. Deacordo com Benedito Nunes:
“O ideal do Manifesto da Poesia Pau-Brasil é conciliar acultura nativa e a cultura intelectual renovada, a floresta com aescola num composto híbrido que ratificaria a miscigenaçãoétnica do povo brasileiro, e que ajustasse, num balaoespontâneo da própria história, “o melhor de nossa tradiçãorica” com “o melhor de nossa demonstração moderna”.
(NUNES, 1978, p. XXIII)Dessa forma, o que os modernistas pretendiam era reformular a visão de culturaaté então vigente, integrando as duas culturas, a popular e a erudita, para unificá-las emuma só: a cultura brasileira.Posteriormente, no entanto, essa visão de popular modificou-se, principalmentedurante o regime militar, por aqueles que organizavam a contracultura. Estes entendiamcultura popular como sendo as representações do povo, mas que deveriam ser usadas deforma a modificar, politizar este mesmo povo. Assim, eles faziam a distinção entrecultura erudita e popular. A primeira seria aquela que existiria como
(...) intrumento de
1
 
dominação (...) alienada e alienante, porque não é humanizante.
(Ação popular, p. 20).Já a segunda seria
(...)
 
a cultura que leva o homem a assumir sua posição de sujeito da própria criação cultural e de operário consciente do processo histórico em que seacha inserido.
(Ação popular, p.23). Assim, um movimento de cultura popular deveriaser fundamentalmente revolucionário e fazer arte com o povo, e não para o povo:
“Embora a cultura moderna tenha uma destinação universal,uma vez que as obras culturais se criam numa perspectivaantropológica, ela, enquanto polarizada ideologicamente, serve, de fato, aos interesses de uma classe, de umadeterminada posição social. A esse tipo de cultura,imediatamente se opõe uma reivindicação de cultura popular.”
(Ação Popular, p. 23
 )
 Neste sentido, Oswald dizia que
“(...) como tantos outros de sua geração, passara pela experiência vanguardista por efeito de uma inquietude mal compreendida,que ignorava a origem social e o fundo político dos seus anseios.”
(ANDRADE, citadoem NUNES, 1978, p.XV), mas ao mesmo tempo afirmava que a massa ainda comeriado biscoito fino que ele fabricava.Assim, o movimento modernista reformulou a arte brasileira não só estética,como também tematicamente, servindo de ponto de partida para as posteriores gerações,que farão o amadurecimento dessa primeira geração revolucionária e, como afirmaHaroldo de Campos, “radical”. O trabalho, no entanto, visa identificar como essamudança temática modificou a cultura brasileira, tanto erudita, como popular. Num primeiro âmbito, propõe-se a identificar os pontos de representação do popular dentroda obra de Oswald de Andrade. Paralelamente, no entanto, estuda se o autor realmenteconseguiu retratar uma cultura verdadeiramente brasileira, ou se, ao inserir o popular,criou uma obra igualmente erudita, mas com uma temática diferente, popular. A análisese faz por meio de dois manifestos, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o ManifestoAntropofágico, e de um livro de poesias do autor, Pau-Brasil. Vale ressaltar que as trêsobras foram compostas em datas próximas. A análise, portanto, depreende-se de umavertente do pensamento oswaldiano, já que posteriormente ele viria a publicar váriasoutras obras que se difeririam e se aproximariam em alguns pontos das obras aquianalisadas.
2- O POPULAR NOS MANIFESTOS
O Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropofágico são os maisfamosos de Oswald de Andrade. O primeiro foi publicado no
Correio da Manhã,
 
em 18de março de 1924. Já o segundo foi publicado no primeiro fascículo da
 Revista de Antropofagia
, em maio de 1928.Ambos são contestadores da cultura “erudita” que vigorava nas representaçõesartísticas até então. Neste sentido, são fruto de uma análise crítica da sociedade. Algunscríticos, no entanto, defendem que esta visão era ainda imatura e não teórica. De acordocom Lúcia Helena:2
 
“O brilhantismo intuitivo de Oswald se faz acompanhar de umacarência teórica. Ele busca um efeito a curto prazo o que fazcom que muitas de suas propostas apareçam como nebulosaideológica dos segmentos da burguesia não tradicionalista, mas presa ao fascínio do folclórico e do lírico”
(HELENA, 1985, p.136)Cabe argumentar, no entanto, que a defesa da obra de Oswald, e isso se faz emmuitos pontos nos manifestos, como veremos, é justamente de uma arte anti-academicista. Dessa forma, ele luta justamente contra as teorias anteriores, queapoiavam a cultura acadêmica vigente. Os seus manifestos atestam uma indignação,sem muitas propostas práticas de mudança, mas isso se dá principalmente porque, nestemomento, ele compõe um manifesto de protesto, e não de reforma. A reforma não semanifesta teoricamente, mas na própria prática da composição destes manifestos,marcados pelo efeito cubista.Com relação à questão do popular nos dois manifestos, ambos tratam do popular criticando o erudito. No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald incorpora elementos da paisagem ecultura nacionais. Isto ocorre desde o início. Os “
casebres de açafrão e de ocre nosverdes das favelas”, “O carnaval do Rio”, “O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e adança.”
, são exemplos desta representação. De acordo com Lúcia Helena:
“Quando Oswald recupera, às vezes até resvalando no folclórico, o casebre de açafrão, o carnaval, o minério, ovatapá e a dança, e faz com que Wagner submerja aos cordõesdo carnaval, ele está saturando de ‘juízo’ um padrão aceito: a‘boa arte’ é contraditada pelo que se produz, espontâneo, namanifestação cotidiana de uma cultura híbrida.”
(HELENA,1985, p. 147) A crítica maior do Manifesto, no entanto, é contra a erudição. Oswald trata deste ponto diretamente e a crítica apóia-se na refencia ao contexto histórico. Aconsolidação das indústrias, com a divisão cada vez maior do trabalho, o crescimentodas cidades, a primeira guerra mundial, o aparecimento da psicanálise, criavam umanova concepção de vida no homem moderno. Há elementos no texto que se referem aesse novo contexto e que fazem com que o próprio Manifesto seja fruto dele. São eles:
“locomotivas cheias”, “Engenheiros em vez de jurisconsultos”, “o artista fotógrafo”,“piano de manivela”, “fábricas”, “novas formas da indústria”, “aviação”, “Postes.Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações.”, “de química, de mecânica, de economia e de balística”.
Estes elementoscriam uma atmosfera de modernidade no texto, atmosfera esta que será um dosargumentos para criticar o arcadismo das manifestações culturais eruditas vigentes atéaquele momento.Mas a crítica ao erudito manifesta-se de forma direta. O ataque de Oswald ao
“lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos”,
ao
“bacharel”
demonstrama posição contria dele ao até eno considerado erudito. De acordo com ele:
“Eruditamos tudo”
, e esta erudição tem apoio histórico, já que o lado doutor foi3
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